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08/03/2005
Falando de Cultura
por Daniel Benevides

O primeiro encontro público promovido pelo gabinete – um seminário sobre políticas de cultura - teve todos os elementos necessários para a formação de um diálogo permanente e produtivo: diversidade, participação, bons diagnósticos e sugestões.
 Celso Frateschi, ator, diretor e Secretário Municipal de Cultura da gestão Marta, abriu o debate, seguido da professora e crítica de artes visuais Ana Mae Barbosa, e do diretor do Sesc no Estado de São Paulo, Danilo Santos de Miranda. Fechando a mesa, o cineasta Jéferson De; Rodrigo Brandão, músico, DJ e produtor; e Zé Maria, do Movimento Mobilização Dança. Soninha fez as apresentações e a mediação.
Cerca de 100 pessoas, a maioria representando movimentos e organizações culturais de vários cantos da cidade, ocupavam boa parte das cadeiras do plenarinho da Câmara. Também estiveram presentes o presidente da Casa, Roberto Tripoli, e os vereadores Paulo Fiorilo (PT) e Juscelino (PSDB).
 Frateschi fez um balanço de sua gestão, pautada no entendimento de “cultura como cidadania”. Defendendo o “fomento e a socialização dos recursos públicos” para a cultura, o ex-Secretário destacou iniciativas que promovem a inclusão social, como os Centros Educacionais Unificados (CEUs) e programas como o VAI, de valorização de iniciativas culturais.
Ana Mae Barbosa, por sua vez, criticou a “esquizofrenia cultural importada dos EUA”, propondo o viés multiculturalista como “única forma de democratização da cultura”. Com humor peculiar e veemência, sublinhou a importância do diálogo entre a escola e a comunidade, e do investimento na formação de professores e educadores. Comentando a maneira como são montadas exposições de artes visuais, as quais considera elitistas (especialmente as artes plásticas e o cinema), disse: “monitor não é nada – precisamos de educadores”.
 Danilo Miranda, diretor do Sesc, instituição que, ao lado dos CEUS, foi citada por todos como ótimo exemplo de iniciativa para o bem-estar social, concordou com as falas anteriores, declarando ser preciso “discutir em conjunto educação e cultura”. Fazendo um apanhado histórico da atuação do Sesc no Brasil, Miranda lançou várias questões para o debate, notadamente a respeito das relações entre o público e o privado, ou seja, sobre quais devem ser os papéis do Estado e da sociedade civil no processo de produção, incentivo e consumo de cultura.

“O processo é lento, mas o barato é louco” – Jeferson De, cineasta
 
Com a simpatia de sempre, Jeferson De falou da diversidade – a verdadeira diversidade: “se não tiver a participação dos interessados, não é diversidade”. Referia-se ao estereótipo com que a juventude negra urbana é encarada. “Em todos os novos filmes nacionais (Carandiru, Cidade de Deus, etc) os jovens negros aparecem segurando uma arma. Se você pensar que esses filmes são feitos através de leis de incentivo, então temos um problema”. Jeferson também criticou os editais, pois, segundo ele, não funcionam para os artistas novos. “O processo é lento, mas o barato é louco”, terminou.
 Não menos simpático, Rodrigo Brandão, o “P-Funk”, conclamou para o fim da OMB (Ordem dos Músicos do Brasil), “que só arrecada de quem não tem, e não faz nada”, no que foi muito aplaudido. Lembrou que, se o hip-hop é “salvação”, é também arte, e citou como exemplo o rapper Parteum. Rodrigo cobrou uma maior efetividade das oficinas para os “guris” que não têm como comprar equipamento e dar continuidade ao que aprendem. Cobrou também maior dinamismo em espaços culturais como o Centro Cultural São Paulo. Terminou citando Thaide e DJ Hum: “vâmo que vâmo, que o som não pode parar”.
 Zé Maria, representando a dança, encerrou a mesa pedindo por mais verbas e editais e curadorias mais democráticas. Segundo ele, há uma lei de fomento à dança, de autoria dos vereadores Nabil Bonduki e Tita Dias, tramitando na Câmara. A lei destina-se a grupos que já têm experiência. Por isso, Zé Maria sugeriu que também fossem pensados mecanismos para incentivar os dançarinos e grupos que estão começando.
 Depois do almoço, na própria Câmara, sete grupos de trabalho foram formados para levantar novas propostas. Assim como a mesa, todas as falas foram gravadas e serão transcritas na íntegra. Fortalecer organismos regionais de cultura, como a Casa de Cultura da Freguesia do Ó, fechada sem maiores explicações, e os diversos fóruns regionais; acompanhar o Conselho Municipal de Cultura e a Conferência Municipal de Cultura; incentivar as rádios nas escolas e as rádios comunitárias, defender melhores condições para os educadores (maiores salários e menos burocratização nas relações de trabalho); descentralizar a cultura; ver a cultura não apenas como arte, mas como geradora de empregos e renda; promover festivais de artistas amadores; dar continuidade aos telecentros e promover a inclusão digital. E muito mais.

 Agora a discussão continua através dos conselhos consultivos. Uma vez por mês vamos nos reunir em diversas partes de São Paulo para manter o debate e procurar soluções efetivas. AS informações estarão sempre aqui no site. Ou através do nosso telefone: 3111-2420.Contamos com a sua participação.