

1ª Reunião Conselho Consultivo de EsporteEsporte = inclusão social
Inclusão social. Essa foi a tônica do seminário “Esporte, Cidadania
e Políticas Públicas”, organizado pelo gabinete (18 de abril, aqui na
Câmara). O encontro reuniu cerca de 30 pessoas, entre líderes
comunitários, atletas e educadores.
Fizeram parte da mesa o
jornalista Juca Kfouri; a líder comunitária Tia Eva, presidente da ONG
Novo Glicério, cujo depoimento emocionou os presentes; o presidente da
Confederação Brasileira de Skate, Alexandre Vianna; a ex-jogadora da
seleção brasileira de basquete, “Magic” Paula, hoje diretora do Centro
Olímpico do Ibirapuera; e o professor Neílton Moura, técnico da seleção
brasileira de atletismo.
As falas foram “ricas, estimulantes”, como
a própria Soninha bem descreveu aqui no site, na seção “Últimas”. A
seguir, um apanhado das notas que a Soninha tomou dos depoimentos, com
poucas alterações.
• Alexandre Vianna – Presidente da Confederação Brasileira de Skate
- No começo não tinha cobertura da mídia e o número de eventos era
reduzido. Foi para os EUA com o Bob (Burnquist, campeão mundial)
“observando o mercado americano, tem de criar um mercado brasileiro”.
A Confederação foi fundada em 99. Residente e competidor – esportista
apaixonado.
- o skate ainda é um esporte marginalizado, com pouco espaço, apesar do número de praticantes.
- Abril 2000: Pesquisa Datafolha – 6% dos domicílios têm praticantes de skate. “Tá vendo? Tem demanda”.
-
Coordenadoria da Juventude – gestão da Marta Suplicy – pesquisou: o
skate é o segundo esporte mais praticado nas escolas municipais.
- A
juventude tem muita identificação com o skate - esporte urbano: “É um
estilo de vida. Você não vai, pratica e volta: você vive. E tem hora em
que é importante socializar, criar identidade”.
- “Todo mundo é
atacante, todo mundo pode ser ‘o cara que faz o gol’. O Brasil é o
único país fora os EUA com indústria nacional de skate. Isto é bom para
formar a base; por isso, hoje temos grandes campeões internacionais.
Somos hoje, a segunda potência mundial no skate”.
- Preocupação Social: “a maioria dos eventos é de base, de eventos menores”.
-
“Cinco anos atrás existiam duas pistas mal feitas na cidade de São
Paulo. Hoje são 60. No Brasil, são aproximadamente 1.000. A estrutura
melhorou. E agora? Deve-se usar o skate como vetor de inclusão –
qualquer classe pode andar. O garoto que tem paixão pelo skate, se
envolve no esporte de outro jeito - o relacionamento apaixonado permite
crescimento”.
- “Desenvolvendo o skate, ajudamos a criar um país melhor”.
-
Exemplo de política pública bem-sucedida: “Barueri tinha um problema
muito grande com pichação. O Secretário disse: ‘Eu tenho um problema,
quero saber qual é o de vocês. De repente eu resolvo o de vocês, vocês
resolvem o meu’. A molecada respondeu: ‘A gente não tem show de rap,
não tem onde desenvolver o hip hop na cidade e não tem onde andar de
skate’. Então o Secretário propôs: ‘Vou fazer uma concha acústica, show
de rap todos os finais de semana, oficina de Dj, oficina de skate,
pista de skate. Em troca vocês não picham mais o prédio da Prefeitura!’
Resultado: foram construídas 7 pistas e a cidade se manteve limpa. Os
jovens tiveram uma troca, um exemplo muito importante. Você conversa e
supre uma demanda, e forma jovens com mais senso de cidadania.”
• Juca Kfouri - Apresentador e Jornalista Esportivo.
- “Jornalista por quê? Se eu fosse vereador incrementaria a cidadania por intermédio do esporte”.
• “Magic” Paula – Diretora do Centro Olímpico de São Paulo, ex-jogadora de basquete
- “Sei que existem problemas no esporte, sei o que quero fazer, mas,
por onde começar?”. A favor do esporte como INCLUSÃO. “Dar treino de
basquete? Acabaria excluindo muita gente. O que aprender com o esporte?
O que eu carrego na minha vida hoje? Convivência em grupo, ganhar e
perder, hierarquia, disciplina.”
- “O esporte pode muito mais do que
formar o atleta. A maioria não vai ser atleta, mas vai carregar a
bagagem que o esporte conseguiu de forma lúdica, recreativa.”
- “Hoje o Centro Olímpico é excludente. Ficam os melhores, os que
têm talento, jeito para a coisa. O Centro Olímpico tem hoje, 754 jovens
em 10 modalidades. Se 5 ou 10 tornarem-se atletas defendendo o Brasil,
é muito.”
-
“Eu não conheço esporte sem ser na escola. Eu tive o privilégio
de ser sócia de um clube - depois da escola ia para o clube.”
-
“Nas escolas o esporte não é encarado como matéria tão importante
quanto a matemática, etc. Em Cuba, os jovens despertam para o esporte
já na escola.”
- “É preciso adaptar os espaços que a cidade tem.”
-
“Os administradores dos CDMs (Centros Desportivos Municipais) têm de
ser pessoas com conhecimento do esporte, com gosto pelo esporte, com
experiência e visão. Assim, nos CDMs seriam descobertos os talentos.”
- “Professores matam os talentos – ‘eu que fiz, vou mandar para outro lugar’” (referindo-se ao egoísmo dos professores).
-
“Tem de abrir espaços esportivos. Ex.: Sambódromo que é usado uma vez
por ano. Por que não abrir para quem faz, para quem é sério? ONGs??”
-
“Skate não é esporte olímpico, mas quero falar com o Alexandre Vianna,
para abrirmos um espaço no Centro Olímpico. Uma pista não é tão caro
assim.”
- “Há muito tempo não tem concurso na Prefeitura; não dá
para ampliar modalidades. Idéia: agregar o que temos de bom com o que
outros têm de bom. Ex.: a gente dá lanche e condução, a Confederação dá
professor e equipamentos (vôlei de praia e etc). Por que não colocar
pessoas sérias?”
• Dona Eva – Líder comunitária, Presidente da ONG Novo Glicério
- “Saí de Catanduva em 1968, tenho 50 anos. Nessa época o pessoal ia
buscar as meninas para trabalhar (empregadas, faxineiras). Vim, fiquei
dois anos e não deu certo. Fui para a rua e caí na prostituição. Um
dia, descendo a Brigadeiro, o Senhor me mandou um anjo para me oferecer
um trabalho: ‘eu preciso de uma menina esperta que nem você’, disse a
mulher. Eu dormia na rua, hoje eu tenho lar, família, crio um menino
(tinha uma quadrilha no meu bairro, a mãe dele foi presa, grávida de 2
meses. Eu fazia trabalho social na cadeia, e peguei o menino para
criar. Hoje ele tem 7 para 8 anos). Fui morar na baixada do Glicério,
vi um quadro triste lá: crianças saindo da escola e não tendo para onde
ir. Meu prédio tem 24 andares, 16 quitinetes por andar. Em cada “kit”
há, em média, de 4 a 3 filhos. Estamos a cinco minutos da Praça da Sé e
não temos uma área de lazer. Então, eu via todas estas crianças saindo
da escola e não tendo para onde ir. Eram aviõezinhos e ganham R$80,00
por dia. Aí vai querer estudar e trabalhar para quê?
Como eu tive uma oportunidade, pensei, ‘e se eles também tivessem?’
No
jornal do meu patrão vi uma matéria de quando as Chiquititas chegaram
no Brasil. Vi também, sobre uma escolinha de futebol no Centro Olímpico
– o Zé Maria, Mirandinha, era o diretor. As crianças gostavam de
futebol, então resolvi ligar para o Centro Olímpico e o próprio
Mirandinha atendeu. Expliquei a situação para ele, e ele me perguntou:
‘quantas crianças você tem?’ Disse que eu tinha 50. Ele marcou a data
para o teste dos meninos, mas não pagavam a condução. Eu não podia
pagar, então fomos todos para o ponto, parávamos os ônibus e pedíamos
para deixá-los passar por baixo. Como eram muitos, tínhamos que
colocá-los aos poucos em cada ônibus, alguns motoristas nem paravam.
O
treino da meninada ficou marcado para todas as terças e quintas-feiras.
Eu já não podia acompanhá-los, tinha que fazer faxina, então os
motoristas não os deixavam passar por baixo e eles acabavam chegando
atrasados nos treinos. Como no Centro Olímpico não podia chegar
atrasado, eles acabaram perdendo a vaga.”
- “Eu trabalhava como faxineira e metade do salário ficava no projeto.”
-
“Na Taça São Paulo, ficamos em 4º lugar. Na hora da inscrição disseram
para mim: ‘não fale que é da Baixado do Glicério. Se é droga, crime, é
da Baixada’. Eu pensei: ‘não, o que é bom é da Baixada também’. Levei
três times. Competiam junto com os times do São Paulo, Palmeiras, S.
Caetano. Quando entramos, a Comunidade Esportiva Glicério foi super
aplaudida. De 800 meninos, o nosso ganhou o torneio de embaixadinha.”
-
“Em 2002, tivemos morte, toque de recolher no Glicério. Eu tentava
falar com as autoridades, mas não conseguia. Se eu fosse a Xuxa,
conseguiria.” (Aproveitou reportagem de crime para falar na TV): “ Se
Geraldo (Governador de SP) me conhecesse, ele ia me ajudar. Meu
trabalho é para evitar que isso aconteça. Mas as TVs diziam que só
faziam entrevista se fosse para falar de crime, PCC e etc. O Jornal da
Tarde quis falar comigo, mas pensei: ‘na TV aparece eu falando, no
jornal não sei não’” (referindo-se ao fato de que no jornal poderiam
colocar informações que ela não dera). “O JT insistiu por uma semana,
então aceitei: ‘se for sair o que eu falei, tudo bem’. Título da
matéria: ‘Vida de favela na Baixada’. Mas no dia seguinte a Primeira
Dama mandou um carro em minha casa, pois havia lido a reportagem.”
- “Alguém me deu oportunidade. Sem ela, onde eu estaria? Presa? Morta?”
- “Não entendo de futebol, mas gosto. Não gosto de novela, gosto de programa esportivo.”
- “Hoje consegui parte do terreno onde ficavam os tanques (carros da polícia) para fazer esporte.”
- “Cada porta que bateram virou degrau da escada. Cheguei onde cheguei subindo nos ‘nãos’.”
• Neilton Moura – Técnico da Seleção Brasileira de Atletismo.
- Estudou em escola pública e em 1975, seu professor de educação
física o levou para conhecer a pista de atletismo do Ibirapuera. A
pista foi construída para sediar os Jogos Pan-americanos, que acabaram
acontecendo no México. João do Pulo ganhou o Pan.
- “Eu era alto e
forte para 14 anos, meu treinador queria que eu fosse saltador. ‘É
assim e assado’, ele tentava me explicar. ‘Eu sei como é, já vi na TV’.
Fui para a pista e saltei. Como fui melhorando minhas marcas, consegui
bolsa na Universidade. Chegou a idade de competir na elite, vi que não
era o caso.”
- “Fiz parte do programa ‘Adote um Atleta’, idealizado
por Caio Pompeu de Toledo – atleta mais fisiologia, nutrição,
psicólogo, dentista....”
- Na juventude, pôde ser estagiário no próprio Centro Olímpico.
- Terminou a faculdade, foi trabalhar no Centro Esportivo de Sto. Amaro, que tinha pista oficial e ótima.
-
O Centro Olímpico organizava eventos entre Centros Esportivos
Municipais e assim revelava talentos. “É mais importante ter um monte
de crianças jogando a bola para cima do que a bola caindo na cesta”.
-
Nesta época, 83, 84, a Secretaria de Esportes de SP tinha o “Campeonato
Colegial”. Ele ia convidar garotos para o Centro Olímpico. Quando a
escola se classificava para a final, tinha o direito a um ônibus para
levar os alunos ao Ibirapuera. A arquibancada ficava lotada, com amigos
assistindo os eventos.
CORTARAM O ESPORTE ESTUDANTIL POR CAUDA DO CUSTO...
-
Foi trabalhar em empresas que se associavam a esporte. Ex.: USP –
XEROX, que tinha um programa que visava proporcionar atividades
esportivas à crianças da região. Ideal do Lobo – reitor: abrir as
portas da Cidade Universitária para a comunidade. Fazer esporte e usar
o hospital, faculdade de psicologia, educação física e etc. Graduados e
pós-graduados trabalhavam no projeto com pesquisa. A equipe se tornou a
melhor do Brasil.