Mandato da Vereadora Soninha Francine

Evento em SP discute acolhimento da população LGBT pelas religiões de matriz africana

4 de julho de 2018

Apesar de serem as religiões que mais acolhem a população LGBT e de sofrerem também com a intolerância e preconceito, casas de candomblé e demais religiões de matriz africana ainda são espaços de reprodução de opressão, principalmente para transexuais

A área externa da Câmara Municipal de São Paulo, localizada na região central da cidade, virou palco para a celebração da diversidade e discussão em torno da receptividade das religiões de matriz africana à população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Travestis,Transexuais ou Transgênero) no último sábado (30/6/2018).

Ricardo Campagnola, Soninha e Cassio Rodrigo

O assunto foi tema do Fórum de Discussão “O acolhimento da população LGBT pelas religiões de matriz africana”, projeto financiado pela Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo por meio do Proac (Programa de Ação Cultural), proposto e idealizado por Ricardo José Campagnhola Vieira.

O evento foi realizado em parceria com o mandato da vereadora Soninha Francine (PPS) e recebeu autoridades religiosas, Ialorixás (mães de santo), Babalorixás (pais de santos) e os sacerdotes, Reverendo Benedito Carlos Alves dos Santos, da Igreja Anglicana e o Reverendo Cristiano Valério, da Igreja da Comunidade Metropolitana -ICM, igreja cristã inclusiva, para debaterem o tema.

Soninha compôs a mesa de abertura e explanou, entre outras questões, sobre a importância da política para corrigir os rumos da sociedade, por meio do voto, da representação, da mobilização para a criação de leis e políticas públicas e também do acompanhamento do mandato e cobrança aos representantes eleitos.

“Tomo o maior cuidado quando vou falar da atitude de pessoas equivocadas, agindo supostamente em nome de uma doutrina religiosa, mas inspirada por divisão e ódio, em não chamar isso de fundamentalismo. Por que muitas vezes nos referimos a pessoa intolerante, que professa uma determinada religião como ‘os fundamentalistas’. Mas não são fundamentalistas aqueles que praticam o ódio. Por que o fundamento da religião não é esse. Estes são ‘deturpacionistas’, talvez leitores literais de textos metafóricos, existem vários fatores que levam pessoas a se equivocarem. Cuidado esse que se deve ter também em relação aos muçulmanos. Quando se comete um atentado e tiram vidas em nome do Islã, isso não é fundamental. Isso não é ser um muçulmano fundamentalista, mas um muçulmano ‘deturpacionista’. Portanto ao discutirmos, política, religião, educação sexual, preconceito, discriminação e intolerância, temos que marcar posição e dizermos que isso não é fundamental em nenhuma religião”, afirmou Soninha.

População LGBT e religiões de matriz africana

O Brasil é o País que mais mata LGBTs no mundo, registrando uma morte a cada 19 horas. Foram 445 homicídios contabilizados no ano passado, de acordo com relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), que reúne e monitora dados sobre a mortalidade da população LGBT há 38 anos.

O povo de santo, por sua vez é o que mais sofre com a intolerância religiosa. O “Disque 100″, telefone de denúncias criado pela Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, registrou entre os anos de 2011 e 2015, 697 casos de intolerância religiosa.

Já, dados do Centro de Promoção da Liberdade Religiosa e Direitos Humanos (Ceplir) publicados em 2016, apontam que dos 1.014 casos registrados entre julho de 2012, ano de criação do centro, e agosto de 2015, 71% foram contra religiões de matriz africana.

As religiões de matriz africana são as que mais acolhem homossexuais e a população LGBT, mas nem tudo são flores nesta relação que reúne duas bandeiras de luta pelo direito de existir, por respeito e contra a discriminação e a intolerância.

Yalorixás e babalorixás que compuseram as mesas dos painéis de discussão, transexuais e heterossexuais, expuseram em seus depoimentos uma das principais formas de violência que a população LGBT, em especial os transexuais, ainda enfrentam dentro das casas religiosas de matriz africana: são impedidos de vivenciar plenamente sua identidade de gênero.

Alegando motivos religiosos, muitos sacerdotes e sacerdotisas, principalmente das casas mais tradicionais, oprimem transexuais e não permitem que se consagrem yalorixás ou babalorixás ou utilizem seus nomes sociais e indumentária religiosas de acordo com o gênero com o qual se identificam, exigindo deles que assumam o gênero biológico (de nascimento).

“Quando uma mulher travesti é impedida de ser tratada no feminino e retiram esse direito de ter seu nome social dentro de uma crença ou religiosidade, isso também é intolerância religiosa”, afirma Mãe Bárbara de Oyá, sacerdotisa com 28 anos de candomblé, mulher trans e ativista da causa, que compôs a mesa “O Ori e a diversidade sexual: sua representação”, juntamente com o Babalorixá Júnior Marques de Oxóssi e o coordenador estadual de políticas para a diversidade, Cássio Rodrigo.

“Quando você chega na igreja os dirigentes vão dizer que você não pode ter aquela identidade de gênero, por que seu genital determina quem você é. Quando chega no Candomblé e fala que tem outra identidade de gênero, você ouve: ‘como vamos fazer seu ori, o seu orixá não permite que você tenha essa identidade’”, diz a Yalorixá.

“Identidade de gênero é algo que causa espanto e incompreensão e gera segregação. Essa segregação nunca será divina. O orixá se liga a você através do seu ori, não através do seu genital”, explica Mãe Bárbara, que na infância foi diagnosticada com disforia de gênero, condição classificada como transtorno mental até 18 de junho último, quando a OMS (Organização Mundial da Saúde) publicou nova versão da Classificação Internacional de Doenças (CID, na sigla em inglês), retirando a transexualidade da lista de transtornos mentais.

Mãe Bianca Di Capri, yalorixá com 27 anos de candomblé, ativista da causa LGBT e presidente do GUTT – Grupo Unificado de Travestis e Transexuais de São Paulo, que participou da mesa “Identidade de Gênero nas religiões de matriz africana e afro-brasileiras”, ao lado de Mãe Silvia e Pai Rodney William Eugênio, também sofreu momentos dramáticos por conta da condição de transexual, tendo sucumbido às drogas e até mesmo considerado o suicídio.

“Por que uma travesti ou transexual que já perdeu o nome de nascimento quando fez o santo não tem o direito de à sua vida, à sua vivência, à sua verdade de acordo com a sua condição?”, questiona referindo-se ao orukó, nome que o yawo (filho de santo) recebe do orixá ao ser iniciado no candomblé.

Mãe Silvia, ativista da causa LGBT, artista plástica e escultora, explica que apesar do nome e identidade de gênero feminina, popularizou-se como Babalorixá, devido ao conservadorismo das casas na época em que foi iniciada.

“Fui feita [no candomblé] em 1980. Em uma época na qual nem se falava em travesti. Éramos chamadas de pederastas. Existia Mãe Edi e Condessa, que se intitulavam Yalorixás. Mas elas eram grandes. Eu era pequena. Seria massacrada”, conta.

“Nas casas por onde passei me disseram: você pode ser o que quiser, você é filha de Oyá. Mas lá fora, você será sempre babalorixá. Cheguei a ser expulsa de uma casa por ser transexual. O orixá reconhece aquilo que você é. Ele não tem discriminação. Quem discrimina são as pessoas. Ou você se deprime, ou se rebela ou passa a fundar seu próprio axé. Foi o que fiz”, relata.

Com quase 40 anos de candomblé, a sacerdotisa afirma que a pessoa deve lutar para ser respeitada pelo que ela quiser, seja yalorixá, babalorixá ou qualquer outro título ou condição.

“A pessoa vai ser respeitada pelo que ela quiser. Tem que ser respeitada em todas as situações, dentro e fora das religiões de matriz africana. Nossa religião, o candomblé foi muito boa para nos trazer o orixá, para abraçar a diversidade, mas não estava pronta para o transexualismo”, avalia a yalorixá, que ajuda LGBTs contra situações de abuso e discriminação e faz questão de divulgar a lei estadual 10.948/2001, que dispõe sobre as penalidades contra a prática de discriminação em razão de orientação sexual.

“Estou preocupada em defender minhas irmãs. Estou preocupada em defender uma causa. Em defender aquilo que é certo. O mundo já está tão cheio de desamor. Como alguém pode implicar com quem nunca prejudicou ninguém, que só quer dar amor?”, questionou.

“Todo travesti que passa dos 35 anos é um sobrevivente”,

afirma Pai Rodney, bacharel em Ciências Sociais, Mestre em Gerontologia e Doutorando em Ciências Sociais e Babalorixá do Ile Obá Ketu Axé Omi Nlá, mencionando a média de vida dos transexuais no país.

“Para pisar no chão de um terreiro temos que estar o tempo todo descontruindo uma fala machista, racista, homofóbica e transfóbica. Eu tenho filhas trans na minha casa que são respeitada como as mulheres que são e eu não vou, depois de todo sofrimento que elas enfrentam, obrigá-las a usarem calças.

O Candomblé precisa manter sua vocação inclusiva. Não podemos permitir que além de toda violência sofrida fora dos muros de nossas casas, elas sofram violência também dentro das nossas casas”, completou o Babalorixá.

A mesa “Intolerância religiosa e políticas públicas” foi composta pelo Reverendo Cristiano Valério, da ICM (Igrejas da Comunidade Metropolitana), pelo Reverendo Benedito Carlos Alves dos Santos e também pelo Pai Rafael, Fundador do Ijo Ifa Oturupon Ika e Ile Igbe Loogunede Sola, que discutiram o tema sob a mediação de Débora Bittencourt Malheiros, Secretária Geral e presidente do Comitê Gestor do Fórum Inter-Religioso para uma Cultura de Paz e Liberdade de Crença do Estado de São Paulo, ligada à Secretaria da Justiça e da Cidadania.

Em sua fala, o Teólogo, pastor da ICM São Paulo, coordenador de desenvolvimento de Igrejas da Comunidade Metropolitana, gay e ativista LGBT, Reverendo Cristiano fez um breve resgate da histórico, geográfico e cultural do cristianismo, situando as religiões cristãs como sendo também de matriz africana.

“Gosto de dizer que sou de uma tradição religiosa de matriz africana. Quero lançar um desafio aqui: qual personagem da bíblia não é negro? Quem estuda geografia bíblica vai ver que o espaço geográfico do paraíso, mito da criação em Gênesis está localizado na África. A origem da humanidade é a África”, afirma.

O pastor falou ainda sobre a responsabilidade de cada um para a erradicação da intolerância e de toda forma de preconceito.

“Nós não somos meros objetos da religião e dos discursos religiosos, somos sujeitos deles. O nosso lugar é o de sujeito de nossas falas e, portanto, sou responsável por tudo aquilo que comunico enquanto religioso. Esse é momento de perceber que não somos mais obrigados ou obrigadas ou nunca deveríamos ter sido, a reproduzir opressão, homofobia, transfobia e se nós fizermos isso em algum momento, é por que de alguma forma consentimos isso”, disse o Reverendo.

“Nossa luta não é contra partido A ou B ou contra espaço A ou B, mas contra a homofobia, transfobia e intolerância”, encerrou o religioso parafraseando trecho da bíblia.

Ex-padre da Igreja Católica Apostólica Romana, o Reverendo Benedito Carlos Alves dos Santos, entrou para a vida religiosa aos 15 anos de idade. Deixou a igreja católica no ano passado para ingressar na Igreja Anglicana, entre outros aspectos, pelo fato de ser uma igreja inclusiva.

Além das questões pessoais, o reverendo relata que como padre romano tinha também dificuldades para acolher religiões de matriz africana, devido ao preconceito.

Ele também criticou falas que rotulam as religiões cristãs como “religião dos colonizadores” e defende a unidade entre LGBTs de diferentes religiões e de todas as minorias contra o preconceito.

“Se não buscarmos fazer da nossa vida unidade, como então podemos fazer acontecer alguma transformação no nosso meio? Temos que buscar nossa unidade e tudo isso passa pela fraternidade”, expôs.

“Na terapia só há mudança possível quando o indivíduo toma consciência de quem ele é. E é isso que precisa ser feito na sociedade. Tomarmos consciência de quem somos para que possamos efetivar as mudanças necessárias”, avalia Reverendo Benedito Carlos.

Um dos componentes do último painel do evento, Pai Rafael, fez sua fala em torno da política, comentou episódios de intolerância religiosa contra os povos de matriz africana, igrejas inclusivas e também contra igrejas católicas, como por exemplo, terreiros que são expulsos de comunidades, entre outros casos, e fez um apelo para que a comunidade das religiões de matriz africana passe a ocupar as casas de leis do país, que se mobilizem, articulem e cobrem o cumprimento das leis já existentes.

Também chamou a atenção para a proximidade das eleições e a necessidade de eleger representantes afinados com as necessidades da população LGBT e dos povos das religiões de matriz africana e afro-brasileiras.

“Faço uma convocação e um pedido: vamos fazer fila e lotar o gabinete da Soninha [Francine], por que não podemos deixar essa casa passar em branco”, afirmou.

Apresentações culturais

O Fórum contou ainda com a participação dos artistas Silvani Moreno e Daniel Pereira, da Companhia Alcina, que no intervalo para o brunch apresentaram a história “Lágrimas de Ewa” e encerrou com a Curimba do Centro Espírita Urubatan do Pai João.

*Este artigo foi publicado originalmente no site do PPS.

**Veja o álbum de fotos no Facebook da Soninha.

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Last modified: 4 de julho de 2018

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