Mandato da Vereadora Soninha Francine

Tá ruim, mas é bom

5 de outubro de 2018

Eleições são sempre cercadas de expectativa e apreensão. Esta atingiu níveis inéditos de tensão – ou será que o tempo ameniza o estresse das anteriores?

Eu sou de 67, então minha primeira eleição direta foi em 85. Deu Jânio Quadros para prefeito de São Paulo, para tristeza e desapontamento de muita gente que lutou pela volta da democracia e que responsabilizava, em parte, a renúncia de Jânio pelos anos difíceis que tivemos depois do Golpe de 64.

Em 90, para surpresa de muitos, Erundina teve 30% dos votos (incluindo o meu!!) e uma mulher nordestina do PT se elegeu prefeita em São Paulo. Era um sonho. Não havia segundo turno, por isso era possível se eleger sem a maioria absoluta dos votos válidos. Ela fez coisas muito positivas, mas enfrentou oposição fortíssima e, frequentemente, injusta e perdemos a eleição seguinte para o Maluf, que depois emplacou o Pitta. Retrocedemos em vários aspectos, sem falar na ampla roubalheira. Todo governo é afetado por atos de corrupção, mas quando vem “de cima” é muito pior.

Para presidente, a primeira eleição direta também foi tensa. Tanta gente lutou tanto tempo pela democracia, tantos fariam jus à faixa presidencial, mas um jovem político com discurso de arauto da honestidade, em um partido pequeno e sem muita projeção, ganhou a disputa.

Depois veio FHC, duas vezes. A cada derrota do Lula, eu sofria. Torcia tanto por ele… Ficava trespassada de raiva da mídia, dos institutos de pesquisa, dos ricos, dos poderosos. Aí veio Lula. Fui pra Paulista comemorar. Na segunda eleição, fiquei feliz em derrotar os tucanos, que eu ainda considerava o fel da terra, mas não estava contente com o PT, nem um pouco. Minha esperança de que o partido tivesse só passado por uma crise e fosse recuperar o ideal original desmoronou ainda naquele ano e eu saí.

Em 2010, fiz campanha pelo Serra. Não podia acreditar que o PT ia ganhar outra eleição com uma candidata sem projeção partidária, sem liderança política e com péssima experiência em administração pública – ela era a “Mãe do PAC”, o programa fajuto de crescimento, antro de corrupção e obras inacabadas, imagine se isso era credencial para ser presidente da República. Sem falar em todas as mentiras – “tiramos xxx milhões da pobreza”! Pagando um benefício de R$70 por filho por mês não se tira ninguém da pobreza…

Dilma ganhou, fez um governo fraquíssimo, com as mesmas figuras horríveis e corruptas de sempre (e mesmo assim teve coisas melhores que o Lula, como a privatização de aeroportos!). Bagunçou as contas públicas para produzir ilusões de bonança e ganhar a eleição… e ganhou. Mas as coisas ficaram tão ruins que o país entrou em derrocada monstro – inflação, recessão, desemprego, crise energética – e veio o impeachment. Para alguns, a medida justa para punir um crime de responsabilidade. Para outros, um jeito de se desincumbir de um governo do qual fazia parte e fazer média com a população insatisfeita. Para outros, um golpe, uma traição. Fato é que o impeachment foi votado pelo mesmo mix de honestos e desonestos de sempre; a maioria que garantia aquela mixórdia tinha, em parte, passado a condenar a mixórdia… Sinceramente ou fingidamente.

Olha quantas dores vivemos. E agora vem a possibilidade, mesmo com 13 candidatos em campo, de nos vermos diante da escolha PT-outra-vez x Um cara sem experiência nenhuma em governar, em um partido sem expressão e presença, que se apresenta como o super-herói contra o mal e faz um discurso de ódio e agressividade (ou alguém vai dizer que ele não faz?? Eleitores do Bolsonaro podem até acreditar que ele fala da boca pra fora, que é gozador ou sei lá o que – mas é um “discurso gozador” de ódio, “da boca pra fora” com ódio…).

Eu vou votar em Geraldo Alckmin para presidente pela primeira vez. Em 2006, votei no Lula pela última. Alckmin, para mim, é o político mais indicado para dar um rumo correto à máquina pública federal, com eficiência, modernidade e civilidade.

Mas o assunto aqui não é o voto em um ou outro candidato. É o direito de VOTAR. A gente passa raiva, tristeza, briga no Facebook, sai de grupo da família, perde o sono, mas… Não poder se manifestar é muito pior. Eleição pode ser um jeito esquisito de escolher um presidente – a pessoa escolha quem ela acha que vai ser melhor, com base em sabe Deus o que; não tem prova, currículo mínimo obrigatório, concurso, período de experiência, necessidade de comprovar o que quer que seja, vale o voto da maioria e pronto. E qual seria um jeito melhor??? Se não for o povo, quem vai escolher o presidente?

(Um dia podemos discutir parlamentarismo, mas hoje tá meio em cima).

E seja quem for o próximo presidente – o meu favorito, o meu “menos pior” – um Congresso melhor fará toda a diferença do mundo. Por favor, votem com muita consciência para Senador e deputado… Tem tanta opção, dê-se ao trabalho de escolher com calma… Pergunte a quem você conhece e confia, pesquise!

Eleição é ruim mas é bom. E passa. Segunda-feira saberemos muito mais sobre nosso futuro, teremos algumas certezas e um milhão de dúvidas. Façamos o melhor no domingo e, principalmente, em todos os outros dias, para ter um país melhor do que temos hoje. Porque, felizmente, governos têm muito poder para melhorar ou piorar a vida da gente, mas o que a sociedade constrói para si pode ir além do que um governo é capaz de fazer. Quanto já fizemos de positivo APESAR de nossos governos?

Força, pessoal.

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Last modified: 6 de dezembro de 2018

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