Mandato da Vereadora Soninha Francine

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“Mas como o PT saiu de mim, eu não vou fazer como o PT faria”

15 de outubro de 2018

Eu saí do PT porque descobri, em resumo do resumo, que o partido dizia uma coisa e fazia outra. Não era um ou outro membro que se desviava de nosso propósito original, como eu pensei por um tempo, um problema a que qualquer reunião de pessoas está sujeita: a instituição estava desvirtuada. Eram as lideranças do partido que comandavam a zorra toda. Nós forjávamos mentiras nas reuniões da bancada: “Vamos dizer que o prefeito vai privatizar a Saúde”. Eu descobri que oposição também mente…

Antes de ser vereadora achava que isso era um defeito que só ocorria em governos. O PT mentiu e mente sobre o que fez, sobre o que os outros fizeram e sobre o que não fizeram. Uma tristeza. Semeou o ódio em meio ao discurso do “nós somos do amor, eles são do Mal!”. Tudo que fosse contra o PT era “contra os pobres”, “contra as conquistas sociais”, coisa de “ricos que não querem perder seus privilégios”. Muita gente que não é elitista, machista, racista, de direita foi chamada assim – e parte dessas pessoas começou a detestar a esquerda por causa disso… Se ser contra Black Blocs quebrando tudo é ser de direita, então eu sou de direita. Se achar absurdo alguém cagar na foto de uma pessoa é ser de direita, sou de direita. Se achar que o Lula cometeu crimes e merece ser preso é ser de direita, ok. Etc etc etc.

O PT cometeu erros horríveis no governo e na oposição. Fomos os radicais intransigentes, que não nos misturávamos com ninguém, não queríamos nada menos que a revolução. Para depois entrar no governo e fazermos os piores acordos com os piores tipos e montarmos um esquema de corrupção para benefício próprio e perpetuação no poder que não teve igual na história deste país.

Nesse nosso radicalismo de oposição, nunca aceitamos compor com o “menos pior”, o mais ao centro, o mais moderado, o mais democrático. Era tudo ou nada. Apoiar um candidato na eleição indireta contra o candidato dos militares, porque essa era a única maneira de derrotá-los? NÃO, é tudo igual, é tudo farinha do mesmo saco, o vice é o Sarney porque vai continuar tudo igual.

Eu saí do PT… e o PT saiu de mim sim. Eu sou de esquerda e não acho que o PT representa a esquerda (Eike, Pasadena, Sergio Cabral, Odebrecht… Nada a ver com socialismo e inclusão). Eu sou defensora dos Direitos Humanos e o PT fez muito mais o discurso do que a verdadeira garantia dos Direitos Humanos (José Eduardo Cardoso, Ministro da Justiça: “Se eu fosse para uma cadeia no Brasil, me matava”). Eu defendo direitos LGBT e os maiores avanços institucionais nos últimos anos vieram via Judiciário, ou aconteceram em governos tucanos (juro).

Eu milito por moradia digna e vejo que o Minha Casa foi uma farsa que movimentou o mercado imobiliário para a classe média mas não fez xongas por milhões de famílias com renda baixíssima. Eu sou ambientalista e o PT fez aquelas usinas medonhas, e a Transposição do São Francisco. Eu defendo os Direitos das Mulheres e tenho vergonha de algumas declarações do Lula (apedrejar adúlteras é uma questão cultural). Eu defendo a democracia e a Venezuela é uma ditadura abjeta.

Mas como o PT saiu de mim, eu não vou fazer como o PT faria. Eu vou fazer como o Mario Covas, que apoiou a Marta Suplicy contra o Maluf. Mesmo achando o PT horrível em muitas coisas, mesmo achando que a quinta vitória seguida do PT seria um absurdo depois do que foi feito por eles neste país, eu acho que no mano a mano, no par ou ímpar, no esse-ou-aquele, Bolsonaro, pelas ideias que defende, pelas políticas públicas que condena e portanto ameaça, pela absoluta falta de experiência em governar, é uma alternativa pior que o Haddad.

Não acho que os eleitores de Bolsonaro são todos fascistas, racistas, LGBTfóbicos, militaristas, anti-democráticos, falsos moralistas etc. Muita gente decente em todos os sentidos acha que ele vai dar um jeito na bagunça do governo. Eu não acho. Muita gente boa de verdade, trabalhadora, pobre, vítima de violência e discriminação, vítima direta ou indireta de crimes cometidos pelo PT, acha que ser machista etc é o “de menos”, e que ser honesto e fazer um bom governo “compensa” os defeitos “pessoais”. Eu não acho que dá pra separar uma coisa da outra; que dá pra ser um bom líder político é intolerante ao mesmo tempo…

Eu não acho que os que vão votar nulo são alienados ou irresponsáveis. Acho que estão no seu direito legítimo de dizer “nem um nem outro”. “Perdi; sou minoria na urna; sou oposição a qualquer um dos dois”. Não são fascistas envergonhados nem comunistas não assumidos.

Vou votar no Haddad. E se ele ganhar, vou continuar na luta para que o Brasil tenha governos decentes, criticando tudo que tiver que criticar. E se o Bolsonaro ganhar, vou continuar na luta para que o Brasil tenha políticas decentes, criticando tudo que tiver que criticar, defendendo o que precisar defender.

Lutando, por exemplo, para que as pessoas discutam ideias em vez de atacarem as donas das ideias. Pelo direito de pensarem diferente do que eu penso!

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Last modified: 15 de outubro de 2018

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