Mandato da Vereadora Soninha Francine

Seu lixo é mesmo lixo?

24 de outubro de 2018

“Em média 20 mil toneladas de ‘lixo’ são produzidas todos os dias na cidade de São Paulo.”

A afirmação é verdadeira, mas tem um erro conceitual. Essa montanha chamada de lixo, na verdade é composta de vários tipos de resíduos, em sua maioria recicláveis, inclusive cerca de 51% de matéria orgânica nesse volume.

Sim, as cascas de frutas, verduras e legumes, os restos de comida e de poda de árvores e tantos outros tipos de resíduos orgânicos que a cidade produz podem ser reciclados por meio da compostagem e se transforem em adubo.

O Seminário ‘Compostagem Urbana: porque o orgânico também é reciclável’ discutiu na segunda-feira (22) o que está sendo feito na cidade de São Paulo pelo poder público, empresas e sociedade civil, para que os resíduos orgânicos deixem de ser enviados para aterros sanitários.

O que é compostagem?

O engenheiro ambiental Vitor Vieira, da Morada da Floresta, abriu o debate explicando o que é a como funciona o processo da compostagem.

“Existem vários métodos, para várias realidades. Desde a composteira doméstica, que pode ser com minhocas (vermicompostagem) ou não, até métodos para maior volume, como os cilindros de compostagem termofílica, reatores de compostagem e leiras (estáticas ou revolvidas). Cada tipo tem um tempo, um espaço necessário. O reator, por exemplo, é muito mais caro e precisa de combustível, enquanto os pátios com leiras não, mas precisam de uma área maior.”

Ele destacou a enorme deficiência que existe no cenário nacional em relação ao tema.

“Em todo o Brasil apenas 0,3% do resíduo orgânico é destinado para compostagem. Isso causa uma pressão enorme nos aterros, emissões de gases no transporte desses resíduos por quilômetros e muitos outros impactos.”

Segundo ele, a compostagem é a quarta etapa na gestão do resíduo orgânico:

  1. Prevenção – não deixar a comida no prato, por exemplo;
  2. Minimização – aproveitamento total dos alimentos, como talos e cascas;
  3. Reuso – destinar alimentos impróprios para pessoas à fabricação de ração animal, ou o envio daqueles alimentos impróprios para venda às ONGs.

Compostagem em quintal

Papel do poder público

Rafael Golin, coordenador de Resíduos Orgânicos da Autoridade Municipal de Limpeza Urbana (AMLURB), trouxe um panorama sobre o grande desafio que é a gerir o resíduos paulistanos.

“Na nossa cidade temos 96 distritos, divididos em 32 subprefeituras. Cada uma representa uma cidade de médio a grande porte. São no total mais de 3,5 milhões de domicílios que geraram, em 2017, 5.6 milhões de toneladas de resíduos de todos os tipos por dia”.

Traçando uma breve linha do tempo, ele demonstrou como a questão do lixo é antiga na cidade, assim como o conhecimento de que há fins mais nobres para estes materiais do que o aterro sanitário.

“O prefeito Fábio Prado, em 1936, já falava da venda de lixo. Quando a coleta municipal começou em 1870, 80% do resíduo era orgânico. Em 1925 tivemos a instalação das estações zimotérmicas, que transformavam o resíduo orgânico e depois o resultado era vendido aos produtores rurais no cinturão verde da cidade. Isso perdurou até 1950. Em 1960 veio a lei que terceirizou a coleta e em 1962 proibiram a entrega de resíduo orgânico in natura nas chácaras, que era uma prática comum (entregava-se em carroças, com burros). Depois vieram as usinas de compostagem da Vila Leopoldina (já desativada) e de São Matheus. Finalmente, em 2015, iniciamos as operações do pátio de compostagem de FLV (frutas, legumes e verduras) da Lapa, que trabalha com os resíduos de feiras livres”.

Além do pátio da Lapa, atualmente já está em operação outro espaço na região da Sé. Juntos os dois compostam cerca de 10 toneladas por mês de resíduos de feiras livres e poda da cidade. De agosto de 2015 a junho de 2018 aproximadamente 3,3 mil toneladas de material entraram no sistema, resultando em 663 toneladas de composto.

Segundo ele, as ações desenvolvidas estão ligadas à meta 24 do Plano Metas 2017/2020.

“O objetivo são 17 pátios até o final desta gestão. Ainda assim, trabalhamos o resíduo mais nobre. Só vamos escalar impacto quando trabalharmos com o resíduo domiciliar. No total de resíduos orgânicos da cidade as feiras livres representam 1,5% e os restos de poda 1%.”

Os pátios de compostagem da cidade de São Paulo utilizam método de baixo custo desenvolvido pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), de leiras estáticas. Para o coordenador, os espaços cumprem também um papel pedagógico.

“Temos muitas universidade fazendo estudos e ajudando na melhoria do processo e isso dá embasamento para replicar o modelo. 630 pessoas já visitaram o pátio. São donas de casa, curiosos, deputados federais, representantes de prefeituras de outras cidades, crianças. Um pátio de 10 toneladas resolveria o problema de 70% do municípios do Brasil, mas em São Paulo está longe de ser a solução. Ainda assim ele cumpre um papel transformador de educação ambiental. Muda as pessoas, faz com que enxerguem o lixo de outra forma.”

E as empresas?

Fernando Beltrame, presidente da ECCAPLAN Consultoria em Sustentabilidade, trouxe para o debate aspectos da relação das empresas com a compostagem. Ele ajuda organizações privadas a desenvolverem projetos de gestão dos resíduos orgânicos.

“O sistema de gestão de resíduos das empresas normalmente é um monte de caçamba; o caminhão passa e leva para o aterro.”

Ele destacou entraves com o poder público, como o cadastro da AMLURB para transportadores de resíduos sólidos, que exige que os veículos devem ser do tipo coletor compactador, o que, segundo Fernando, impossibilita a compostagem do resíduo.

“Hoje em São Paulo, se a empresa se cadastra como grande gerador de resíduo, está automaticamente conectado à prestadora de serviço de coleta e paga esse custo. É preciso rever porque a empresa que faz a própria gestão não tem um amparo regulatório.”

Contêineres comuns nas empresas

Políticas Públicas

A vereadora Soninha Francine encerrou o encontro refletindo sobre o papel do poder público na construção de políticas públicas que deem escala à compostagem.

“A sociedade civil consegue fazer a sua parte e já existe mercado para isso. Mas o Estado precisa determinar que a iniciativa, a partir de um determinado momento, deixe de ser apenas experimental ou questão de boa vontade. Precisa transformar em norma, criar condições legais, estabelecer regras técnicas e tributárias”

Ela convidou a todos para seguirmos debatendo e trabalhando juntos no tema.

Veja aqui as fotos do Seminário

Assista à íntegra do evento:

CompartilharShare on Facebook
Facebook
Tweet about this on Twitter
Twitter

Last modified: 26 de outubro de 2018

Comments are closed.

X