Mandato da Vereadora Soninha Francine

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“Dependência é coisa séria, não é apenas uma questão de “força-de-vontade”

7 de março de 2019

Durante alguns meses – pouco mais de quatro – tive a honra de participar da discussão sobre políticas públicas para a cracolândia. Acreditem: era um sonho. Ter o poder de interferir nas decisões governamentais sobre um dos problemas mais complexos da cidade/sociedade.

Alguns definem a cracolândia como “território de liberdade”. Fiquei chocada quando ouvi, depois compreendi o que querem dizer com isso. De fato, na cracolândia se pode, fundamentalmente, usar crack – na cadeia não pode; na quebrada, corre-se o risco de ser espancado ou executado a mando das “autoridades” (o crime). Quem é usuário encontra na cracolândia a possibilidade de consumir a pedra que, para um dependente, traz o alívio de uma compulsão horrivelmente dolorosa. O crack reorganiza o cérebro da pessoa de modo a se tornar a única forma de satisfação, e tornar a vida insuportável sem ele. Um usuário-dependente não resiste ao cheiro, à lembrança, à visão de uma pedra.

Mas liberdade e dependência são palavras que não ornam. A tal liberdade de usar, perambular, ficar no meio da rua, sentar, deitar, pirar vem acompanhada de uma crescente perda da autoestima, de horizontes, de outros desejos, ligações afetivas, conexões significativas com outras partes do mundo que não aquela. A vida se reduz, se estreita, se resume (e abrevia). A dignidade se perde em meio à luta pela sobrevivência – e a pedra é condição para suportar sobreviver, mais do que comer. Dá pra aguentar a fome, mas não a compulsão. “Tem buceta pra treta” é um dos recursos usados para fumar… Roubar celular (tem quem compre), fio de cobre (tem quem compre) etc. é outro… Que p. de liberdade é essa?

Andar pela cracolândia é uma experiência de alta intensidade, que eu RECOMENDO. Ver a vida que pulsa ali. Se alguém acha que o Estado está ausente, ou que só aparece na forma de polícia, engana-se profundamente. Há serviços públicos em profusão, municipais e estaduais. Tem o prédio do Recomeço, tem os Atendes, Consultório na Rua, SEAS. Em meio ao fluxo, circulam assistentes sociais, orientadores educativos, psicólogos, psiquiatras, clínicos, enfermeiros, agentes comunitários de saúde… Um formigueiro de gente de crachá, colete, avental. ONGs conveniadas, outras não. Garis. Seguranças dos serviços. Motoristas. E a Guarda Civil Metropolitana, na maior parte do tempo apenas postada, olhando. E tem pastores e pastoras, artistas, voluntários. Tem o trânsito de moradores e de alunos indo às escolas; de funcionários da Porto e dos comércios da região, de músicos e frequentadores da Sala São Paulo e do Memorial da Resistência. Tem usuários alegres e usuários tensos, alertas e catatônicos, afetuosos e ressabiados, sossegados e enfurecidos. E tem os vendedores de pedra, sentados nas barracas como quem vende café e bolo. Essa é a parte que me embrulha o estômago com raiva: a cracolândia é livre para o crime organizado. É como se em alguma parte da cidade se vendessem carros roubados ou armas contrabandeadas a céu aberto, a qualquer hora do dia e da noite. Bizarro.

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O que eu defendia para a cracolândia, naquilo que o então prefeito chamava de “Programa Redenção”? Minha posição principal era que a Assistência Social precisava estar muito mais PRESENTE. Que equipes e serviços de acolhimento tinham de atender 24 horas no território, recebendo imediatamente quem procurasse apoio. Teríamos de oferecer banheiro, banho, camas limpas, um lugar digno para comer, descansar, acordar, lavar as roupas, passar o dia ou a noite. No momento da exaustão, da fragilidade, do pedido de ajuda, teríamos de estar a postos. A partir do primeiro e imediato acolhimento, haveria um leque de possibilidades, incluindo uma bela retaguarda de Assistência Social e Saúde fora do território. Cada caso seria analisado em suas necessidades e potencialidades, e acompanhado ao longo do tempo – e de um longo tempo.

Pois o TEMPO, ou “os tempos”, foram o principal ponto de discórdia entre mim e o prefeito. Eu tinha clareza da necessidade dos dois: o acolhimento imediato, “housing first” – primeiro de tudo um lugar DIGNO para uma pessoa, que restaure a dignidade inerente a todo ser humano. Aí a gente vê se vai fazer tratamento de Saúde assim ou assado, se vai aderir a um programa xis ou y ou não vai. Porque temos de estar preparados para um loooongo processo de certeza e dúvida, convicção e descrença, esperança e desalento, firmeza e fragilidade, adesão e abandono. A Assistência Social e a Saúde, junto com Trabalho, Direitos Humanos, Habitação, Cultura, Esporte e Meio Ambiente têm de ter uma estrutura robusta para oferecer um atendimento rico e resiliente. E esse é o segundo tempo, o de meses.

Mas o prefeito (assim como o então Secretário-Adjunto, que venceu a disputa de ideias junto a ele) até compreendeu a primeira parte, mas não a segunda (terceira, quarta…). Eles acreditavam em uma progressão infalível: com a desintoxicação em leito hospitalar e a oferta de vaga no “Trabalho Novo”, rapidamente a pessoa teria condições de reorganizar a vida e sair da rede socioassistencial.

Arrã.

Depois de uma passagem por unidade de saúde (Hospital ou CAPS) para desintoxicação inicial, o processo MAL COMEÇOU. É dificílimo lidar com a vontade de usar de novo, cacete. Quer o compromisso seja com a abstinência ou com o uso moderado – como em “fumava trinta pedras por dia, agora fuma três” – O PROCESSO É LONGO e o bagulho é louco.

Amig@, pense em todos os compromissos que você, com o coração pleno de convicção, já assumiu: acordar cedo. Caminhar. Correr. Parar de fumar. Emagrecer. Cortar gorduras saturadas. Beber menos. Trabalhar menos. Arrumar seu quarto. Visitar os pais. Não dá certo o tempo todo… Mas se você (se) prometeu acordar cedo, ou jurou para os amigos que vai se juntar a eles na academia, e falhou um dia, ou uma semana, o mundo não cai na sua cabeça. Não é o caso de quem tem uma “recaída”, um “lapso” ou, como diz o Drauzio Varella, uma recidiva. A trajetória não é retilínea, ascendente, sem lombadas e valetas.

Dependência é coisa séria, não é apenas uma questão de “força-de-vontade”. Diga para sua diabetes, hipertensão ou hepatite que “é só querer”… A determinação positiva tem participação no tratamento de qualquer problema de saúde, mas basta????

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Enfim, minha proposta era: 1- atendimento imediato pela Assistência Social em espaços de acolhimento dignos e “restauradores”, como quem acolhe um refugiado, um peregrino, uma pessoa precisando de cuidados; 2 – desenho de um projeto pessoal, com acompanhamento multiprofissional e o acionamento de uma rede governamental e não-governamental, de tal modo que todos – mulheres e homens de todas as idades, procedências, condição familiar, de saúde, econômica, escolaridade – tenham possibilidades. Universalidade e singularidade; oportunidades que não excluam ninguém nem presumam que todas as pessoas cabem em um só formato.

Saí do governo e o prefeito também. Bruno Covas decidiu, em vez de publicar um Decreto instituindo o Redenção e seus procedimentos, enviar para a Câmara um Projeto de Lei instituindo a Política Municipal sobre Álcool e outras Drogas – portanto, abrindo um espaço para modificações e ampliando o escopo da política. O PL 271/2018 está na Câmara e hoje às 13h faremos uma Audiência Pública sobre ele dentro da Comissão de Direitos Humanos.

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O que eu achei do projeto?
R.: Um bom começo! No próximo textão eu explico.

 

Por Soninha Francine

Foto: Foto: Aloisio Mauricio/Fotoarena/Estadão Conteúdo
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Last modified: 7 de março de 2019

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