Mandato da Vereadora Soninha Francine

Dia de São José

19 de março de 2019

Estudei em um Colégio de Irmãs de São José – embora fosse batizado com o nome da mãe de Maria, Santana.

Eu era feliz lá. As freiras eram adeptas da Teologia da Libertação: “Se você segue o que Cristo diz e acredita que somos todos irmãos e iguais, o que isso significa no mundo de hoje”? Singificava, concordávamos, lutar por igualdade no mundo, na sociedade, no “antes da morte”. Vinha agradavelmente ao encontro do que minha mãe já tinha me influenciado a acreditar: não dá para se conformar com injustiça, desigualdade, miséria.

A visão da História era mais crítica que o comum naquela época. Nos anos de primário ainda celebrávamos a Princesa Isabel como a grande responsável pela libertação dos escravos; mais crescidinhos, já estudávamos o complexo cenário econômico que nos tornava muito mais interessantes com mão-de-obra remunerada. Os Bandeirantes eram heróis ou mercenários? Tudo discutíamos, nada era dogmático.

Nem a religião!

Nem todas as professoras de religião eram freiras. Mesmo quando eram, chamavam a atenção: “a Bíblia tem alegorias, metáforas. Adão, Eva, a serpente representam ideias, são simbólicos de uma época e um pensamento. O homem não surgiu de um sopro de Deus no barro. O que não quer dizer que ele não estivesse Presente em todos os momentos da História”. Eu me lembro da Irmã Maria Clara escrevendo um “P” com giz dentro de um círculo enquanto dizia “Deus estava PRESENTE”.

Aprendíamos a usar a tabela Ogino Knaus para calcular os dias férteis, com todas as margens de erro a serem observadas (“o espermatozóide dura até 24 horas; o óvulo, cinco dias. E o dia da ovulação propriamente pode ser um pouco antes ou um pouco depois”). No fim das contas, era melhor considerar que durante uma semana inteira era propícia para engravidar.

Elas não estavam, naturalmente, nos ensinando os melhores dias para procriação, mas os dias a evitar relações sexuais. Não diziam. Não precisavam dizer.

Fiz muita “agitação política” no Colégio. Desde a terceira série era convidada para fazer os discursos nas Comemorações Cívicas (21 de Abril, o 13 de Maio, 7 de Setembro…) e os redigia eu mesma. Sinal que elas gostavam das minhas críticas e ponderações rs. Mas criaram um monstro, fazer o que? Eu vivia questionando professores e diretoria sobre esta e aquela regra completamente incompatível com o que elas nos ensinavam (por exemplo, “só entra no Colégio quem estiver com o tênis XYZ oficial” – um troço caro, horrível, duro e pesado).

Lembro do Colégio Santana no mínimo uma vez por semana, tal foi o significado dele na minha vida. Minha avó, minha mãe e minhas filhas estudaram lá – estas, em uma época em que o Colégio já estava muito mais voltado para “aprovação no vestibular” do que para “formação integral” (uma coisa não exclui a outra!). Mas estudei lá do Pré ao 3º Magistério, terminei o 2º grau grávida de 7 meses e muitas amigas queridas daquela época apareceram por aqui para dizer “AVÓ???!!!”

Hoje, especialmente, lembrei porque é dia de São José. Dia de missa na capela do Colégio, coisa mais linda. E a gente cantava, acompanhadas ao violão pela Irmã Terezinha, uma música da Rita Lee:

José (Joseph)
Rita Lee

Olha o que foi meu bom José
Se apaixonar pela donzela
Entre todas a mais bela
De toda a sua galileía

Casar com Deborah ou com Sarah
Meu bom José você podia
E nada disso acontecia
Mas você foi amar Maria

Você podia simplesmente
Ser carpinteiro e trabalhar
Sem nunca ter que se exilar
De se esconder com Maria

Meu bom José você podia
Ter muitos filhos com Maria
E teu oficio ensinar
Como teu pai sempre fazia

Porque será meu bom José
Que esse seu pobre filho um dia
Andou com estranhas ideias
Que fizeram chorar Maria

Me lembro as vezes de você
Meu bom José meu pobre amigo
Que desta vida só queria
Ser feliz com sua Maria

Bom Dia de São José para vocês.

Foto: Soninha na formatura do pré no Colégio Santana.

*Texto escrito em 2014, no Facebook pessoal da Soninha. Veja aqui.

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Last modified: 19 de março de 2019

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