Mandato da Vereadora Soninha Francine

“Eu sou muito mais do que uma mulher sem braços”

19 de junho de 2019

A Daniele Amaral tinha tudo para desistir e deixar de acreditar que poderia continuar sua vida normalmente. Aos quatro anos de idade, a então menina da pequena cidade de Pau d’alho do Sul, interior do Paraná, perdeu os dois braços em um maquinário agrícola.

Ao invés de desanimar ela fez exatamente o contrário: se adaptou e mesmo sem dois dos principais membros do corpo humano conseguiu estudar, se formar na faculdade, trabalhar, casar, ser dona de casa e até mesmo dirigir com os pés!

Hoje em dia ela dá palestras e tem um canal no Youtube com mais de 200 mil inscritos. Olha só um dos vídeos:

Abaixo você pode ler um relato que a Dani escreveu para o site Futilidade. Vale muito a pena:

“Meu nome é Daniele Amaral, tenho 24 anos e sou apaixonada por tudo o que o Futilidades e o papo sobre auto estima representa. É incrível ver como esse espaço ajuda tanta gente, e principalmente como estamos vendo cada vez mais belezas reais espalhadas por aí. Por isso gostaria de dividir com vocês minha história.

Aos 4 anos de idade eu sofri um acidente com um maquinário agrícola e perdi os dois braços. Meu pai era agricultor e morávamos em um distrito chamado Pau d’alho do Sul, interior do Paraná. Foi um episódio muito difícil pois eu só sobrevivi por milagre, já que o hospital mais próximo ficava há 70 km de distância e no caminho perdi muito sangue. Mas após 50 dias de internação e várias cirurgias, deixei o hospital com um novo desafio para mim e toda minha família.

1998 – 4 anos. Eu e minha mãe no Hospital Universitário de Londrina onde fiquei internada após o acidente
Eu sempre achei que não ter os braços não era algo que me incomodava, mesmo sendo um desafio pra fazer qualquer coisa, eu sabia que podia que me adaptar. Hoje olhando para trás consigo ver que o processo de aceitação foi um pouco mais lento.

Aceitar a minha condição foi algo rápido, afinal era algo imutável e eu sempre procurei pensar que deveria fazer o melhor com o que eu tinha e do jeito que podia. Assim frequentei a escola, fiz faculdade, trabalhei, casei e constantemente estou aprendendo coisas novas. O difícil sempre foi aceitar a maneira como as pessoas reagiam à minha deficiência. O que chega a ser ridículo, pois se eu podia me aceitar dessa forma, por que as pessoas não podiam?

Ano de 2006, eu estava com 13 anos. Na escola sempre fui conhecida por ser muito extrovertida, era a menina que tomava frente pra tudo. Hoje vejo que eu era exibida mesmo rs’

Teve uma época que eu evitava lugares com crianças para não ser apontada por elas. Mais tarde na escola eu fingia não me importar quando em uma discussão de adolescentes alguém me “xingava” de SEM BRAÇO. Quem me conhece sabe que nunca deixei de dizer o que pensava por medo de ofensas. Eu discutia, mas em casa tudo isso doía…

Dói muito quando alguém te olha e só consegue enxergar uma característica física. E é essa dor que muitas vezes nos faz tentar parecer como todo mundo…

Nunca achei que minha deficiência era um problema, mas nunca deixei que as pessoas a vissem, cresci só usando roupas com mangas, meu vestido de formatura da faculdade foi refeito para poder ter mangas, meu vestido de casamento também. Praia? Só com bolerinho por cima do biquíni, e se alguma vez eu o esquecesse e quisesse postar uma foto, só se fosse tapando o que os outros não gostavam de ver.

2007, 14 anos. Viagem da escola ao parque aquático. Só usava biquíni dessa forma.

Inconscientemente eu concordava com tudo o que me fazia sofrer em silêncio: Sem braço, estranha, aleijada, esquisita! E cada vez mais eu só queria ser “normal”, ser “padrão” em tudo. Não queria mais meu cabelo natural – afinal, cabelo cacheado é feio, é armado, todo mundo tem cabelo liso! Comecei a fazer progressiva. 1,75m de altura? Isso é demais, não pode usar salto! Quadril grande? Bora emagrecer!!

2014, 21 anos. Foi um drama achar um vestido de formatura que tivesse mangas, e que não ficasse curto. A sorte sempre foi ter uma mãe costureira que desmancha uma barra aqui, corta um pedaço dali e faz uma manguinha assim.

Foi então que aos poucos percebi que essas críticas só me afetavam porque eu concordava com elas, então eu entendi que tudo isso eram só características físicas e que não definiam quem eu realmente sou. Quando alguém me chamava de sem braço doía, mas eu já não sofria mais porque eu não sou só isso, eu não tenho braços, mas isso não significa que sou menos que ninguém! E esse pensamento me fez enxergar melhor outros aspectos. Se eu quiser usar salto, eu vou usar sim! Se quiser ter cabelo cacheado, vou ter sim! E minhas curvas fazem parte da minha genética, do meu biotipo, então minha dieta e academia serão para ter saúde e enaltecer o corpo que eu tenho.

2017 – Foto de Rafael Theto Anunciação

2017- Foto de Rafael Theto Anunciação

Falando assim, parece que esse processo aconteceu do dia pra noite, não é? Mas não foi assim, tudo acontece com o tempo, foram processos diferentes para aceitar cada coisa. Faz 20 anos que eu perdi os braços e só esse ano que consegui sair com blusas sem mangas, porque um amigo muito querido meu fez uma pintura minha e pediu que fosse sem mangas. Eu não quis, mas ele fez mesmo assim, e nesse desenho eu vi que não preciso dos braços para ser bonita, e que o que eu tenho de diferente é o que me torna especial, é a minha alma que me faz voar…

2016 – Foto e Pintura por Rafael Theto Anunciação

Só entendi que as crianças apontam o dedo pra mim depois que minha sobrinha nasceu, entendi que elas tem curiosidade com o que é diferente. Hoje quando alguma me chama de sem braço eu mostro meu bracinho e explico o que aconteceu, imediatamente elas se encantam. Hoje minha sobrinha com 4 anos de idade tem total naturalidade comigo, o que só me faz ver que quanto mais convivemos com o que é diferente, mais natural isso fica, daí a importância de termos mais mulheres reais em campanhas e etc, mas isso é assunto pra outro post.

Não estou aqui para ser vista como mulher maravilha ou algo do tipo. Pelo contrário, sou exatamente como vocês, sou humana e já sofri muito com inseguranças e constantemente me pego com cobranças exageradas, mas se tivesse descoberto o poder do autoconhecimento lá atrás tudo seria mais fácil. Por isso quero dividir isso com vocês!

Nada pode te abalar quando você sabe quem você é! O que as pessoas dizem, ou o que você mesma diz sobre si não tem importância se você reconhece seu valor!

Cultivem amor próprio, autocompaixão e gratidão porque dessa forma vocês verão a vida com olhos muito mais coloridos! “

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Last modified: 19 de junho de 2019

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