Mandato da Vereadora Soninha Francine

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Por Que Não Querem – Por Soninha Francine

20 de agosto de 2019

Tenho uma oferta irrecusável: férias de frente para o mar em acomodações cinco estrelas.

Condições:

Cada dormitório acomoda 200 pessoas em beliches. Você não poderá escolher seus vizinhos de quarto.
Há um banheiro para cada 50 pessoas.
Hora do banho: das 18h às 19h.
As luzes se apagam às 22h e são acesas às 6h.
Seus pertencem ficarão em um bagageiro, ao qual você terá acesso em horários determinados.
Não é permitido entrar antes das 16h e após as 22h. Depois de entrar, você não pode mais sair, sob pena de perder sua vaga.
É obrigatório sair depois do café da manhã – não se pode permanecer após às 8h00. – Não há tomada ao lado da cama para carregar seu celular.
Você não poderá levar sua namorada – ela ficará em outro local, exclusivo para mulheres.
Não aceitamos crianças, adolescentes, cães ou gatos.

Você… Aceitaria?

Eu preferiria acampar na areia, com meu marido, minha filha, meu cachorro.

Tirando a parte das “cinco estrelas”, essa é a realidade da maioria absoluta dos albergues (oficialmente, “Centros de Acolhida”) da cidade de São Paulo e, provavelmente, de outras grandes cidades também. As acomodações são, em geral, simplórias. Na melhor das hipóteses, colchões, cobertores e banheiros estarão limpos. Muitas vezes estarão em péssimo estado de conservação e higiene, por falta de, ou apesar dos cuidados da equipe encarregada.

Um lugar com centenas de pessoas exige regras disciplinares condizentes com a dificuldade de convívio nessa escala. Até em centros de prática budista, a falta de consideração de algumas pessoas no dormitório causa conflitos – falam alto, mexem ruidosamente em suas bagagens, deixam o banheiro bagunçado etc. Imagine como é manter a ordem e o convívio pacífico em um espaço onde as pessoas não foram para disciplinar a própria mente…

Regras são necessárias para que um convívio nessas condições seja possível. Entretanto, o regime imposto é mais assemelhado a um quartel ou colégio interno, do que um espaço de refúgio e acolhimento. E não funciona – apesar do rigor intransigente, albergues são palco de furtos, brigas, agressões, comércio de substâncias ilícitas, vandalismo.

Conclusão: lidar com seres humanos em escala industrial não funciona. Em casos de emergência, para atendimento a catástrofes ou situações de perigo iminente, como na Operação Baixas Temperaturas, galpões de grande capacidade são aceitáveis, mas como linha de atuação permanente, não. Felizmente, isso está ficando cada vez mais claro. Ainda há pessoas e instituições que se gabam de ter feito “milhares de acolhimentos” – quando na verdade ofereceram “milhares de leitos”, precários e provisórios. Mas já se desenha um horizonte com mais repúblicas e outros tipos de moradia temporária e menos albergues.

Mesmo na emergência das Baixas Temperaturas, levar as pessoas para um local onde elas podem dormir e no dia seguinte devolvê-las bem cedo para a rua não é exatamente sinônimo de “acolhimento”. Meu marido, ele mesmo um ex-morador de rua, certa vez viu um rapaz saindo nu de um albergue, embrulhado no cobertor, com as roupas velhas na mão, perguntando onde podia jogá-las no lixo. Acabou convencido a vesti-las de novo.

“Por que as pessoas em situação de rua não querem ir para albergues?”, perguntam alguns. Espero ter sido capaz de demonstrar que são os albergues que não querem pessoas em situação de rua.

Sonia Francine, jornalista, foi secretária de Assistência e Desenvolvimento Social da cidade de São Paulo entre 2016 e 2017, e é vereadora pelo Cidadania.
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Last modified: 20 de agosto de 2019

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