Mandato da Vereadora Soninha Francine

“TUDO ERRADO!” – Blog da Soninha

13 de setembro de 2019

A Soninha visitou o Complexo Zaki Narchi, que vai fechar em breve. Ela escreveu um loooooooooooongo relato sobre a visita:

“Assunto: TUDO ERRADO.

Subtítulo: Visita da Comissão de Direitos Humanos ao Complexo Zaki Narchi, conjunto de centros de acolhida na Zona Norte de São Paulo.

1) O conceito original: um galpão gigantesco (❌) foi dividido em 3 serviços socioassistenciais, o Zaki I, II e III, e abriga também um Centro Pop (Centro de Referência Especializado em População em Situação de Rua). O primeiro é para “pernoite rotativo”, o segundo tem vagas fixas 16h e o terceiro, 16 e 24 horas. A ideia é que houvesse uma progressão linear, em que os usuários tivessem direito a uma estrutura melhor à medida que fossem ganhando autonomia (trabalho, estudo, etc). (❌)

Comentários: lugares gigantescos não prestam para acolhimento, a não ser em emergências tipo calamidade (incêndio, alagamento, desabamento, fluxo intenso e súbito de refugiados); é estúpido oferecer uma estrutura MAIS precária para quem está MAIS desorganizado; as progressões não são lineares e definitivas. Alguém consegue um emprego e perde; reata com a família e rompe outra vez; para de beber e tem uma recaída. Aí fica “progredindo” e “regredindo”, o que reforça uma autoimagem de fracasso que já é “tatuada” no morador de rua, pelos outros e por si mesmo. ↗️↘️↩️⤴️🔀❌

Acrescente-se a isso o fato de que o galpão fica em um lugar inóspito, escuro e muito próximo a um lugar dominado pelo crime organizado, que tem todo interesse na clientela em potencial.💰🔪💣❌

2) O começo do fim: o Zaki vai, progressivamente, fechar, começando pelo II e o III. O contrato com as Organizações Sociais que fazem a gestão do serviço se encerra no dia 21, então esse é o prazo final para saída de todos os usuários.

Não foi um aviso de última hora, mas por má vontade, incompetência, negação, esperança vã ou maus hábitos, está sendo tratado como se fosse. “Fomos pegos de surpresa”, dizem vários dos envolvidos. Mesmo com toda a antecedência do mundo, seria difícil encontrar vagas para 300 pessoas nos outros serviços existentes. ⏳❌

3) Os “sistemas de monitoramento e controle”: SMADS (Secretaria de Assistência Social) não tem uma “central de vagas”, embora seja responsável por serviços para dezenas de milhares de pessoas. Os fluxos são todos muito precários, dependendo demais de boa vontade e honestidade. Alguns controles são feitos no PC: papel e caneta.

Alguém liga para um serviço e pergunta “quantas vagas sobraram para hoje à noite”? Coisa de louco, porque a resposta pode estar errada (e tem casos em que o formulário fica em branco, porque “ninguém atendeu” 😱)☎️📝🗄📋❌

Olhando para o Sistema na tela do computador, aparecem vagas disponíveis em alguns centros de acolhida, então parece até que vai haver lugar para todo mundo, “é só” redistribuir as pessoas. SÓ QUE:

– Com a fragilidade do controle, às vezes a informação na tela está errada; ❎
– Com a fragilidade dos fluxos de encaminhamento, a subjetividade conta muito, e pode ser que alguém responda “xi, essa vaga acabou de ser ocupada”, porque não quer receber alguém do Zaki Narchi. 🚧🏷🔒⚠️⏏️

4) A falta de compreensão sobre as PESSOAS – 1: pode haver uma vaga disponível e um serviço disposto a receber uma pessoa – só que no Butantã, enquanto toda a vida do sujeito (trabalho, tratamento odontológico, atendimento em Saúde Mental) gira em torno da Vila Guilherme. Porra, esses são fatos objetivos, mensuráveis… Como ignorar na hora de fazer os encaminhamentos?

5) A falta de compreensão sobre as PESSOAS – 2: um dos conceitos-chave em Assistência Social é VÍNCULO. Com a assistente social e os educadores, com os trabalhadores da cozinha, limpeza e segurança, e isso nem sempre é levado em consideração. Ok, nem sempre é possível “estancar” as mudanças de RH. Mas os usuários também tem vínculos uns com os outros, e isso NUNCA é levado em conta. Desde o Censo, a abordagem do SEAS, o acolhimento, o encaminhamento. Ali no Zaki você tem adultos que ajudam, poiam e amparam os idosos, em uma relação de amizade, solidariedade, companheirismo. Aí vai um pra cada lado?!! Um perde o apoio e o outro perde o prazer de ser apoio. Poxa vida.

Conclusão provisória (preciso encerrar e sair para um compromisso). O que fazer? Analisar CASO A CASO. Ao longo do tempo, por meio da construção verdadeira de um PIA, Plano Individual de Atendimento, ou, na emergência, com escuta qualificada e atenção verdadeira. A questão é COMPLEXA, o problema é de grande dimensão, as soluções não são suficientes ou satisfatórias – mas tudo fica melhor ou menos ruim quando se trata as pessoas com a atenção devida.

Estamos atuando para isso.”

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Last modified: 13 de setembro de 2019

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