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“Acabou. Fim da maloca. Espero que cada um encontre um quarto com porta, cama, colchão e janela” – Por Soninha

4 de outubro de 2019

O pai das minhas filhas mais velhas serviu Exército em Brasilia. Era o pior dos pesadelos de boa parte dos jovens que completavam 18 anos – mais ainda os que, como ele, tinham cabelos bem abaixo dos ombros e curtiam Deep Purple. A cabeça raspada era o sinal visível do sacrifício a que eram submetidos. Um ano perdido, a essa altura da vida, era muita coisa. Adeus amigos, mãe, irmão, namorada, adeus banda, trabalho, lazer.

Foi mandado para a Cavalaria, em pleno governo Figueiredo. Diz que até o cara mais durão chorava à noite. Ninguém suportava. Já suportei desafios imensos querendo sair correndo – trabalhos extremamente cansativos, longos retiros espirituais – mas estava lá porque QUERIA. Imagine ser obrigado.

Mesmo assim, anos depois, ele às vezes se lembrava com saudade daqueles tempos. Por alguma razão, a gente tem essa sensação de nostalgia até de fases difíceis da nossa vida.

Hoje estava marcada a desocupação dos baixos de um viaduto onde meu marido morou, e que ele ainda frequenta. Amigos queridos vivem lá. Ele adora almoçar com eles, fazer um pagode batucando em baldes, assistir futebol e novela. Brincar com crianças, cães e gatos. Compartilhar as agruras e alegrias.

O lugar é belo e horrível. Não tem banheiro, claro – mas tem um cubículo cercado de madeirite onde se toma banho com panela de água esquentada no fogão. Sim, tem fogão. E sofá, tapetes, cadeiras, mesa, potes, armário, tendas. Tem varal, lâmpada e gato. Gato de luz (a eletricidade chega quando as luzes da rua se acendem à noite) e gato de quatro patas. Antes, os animais eram importantes para afugentar os ratos, mas algumas faxinas deram um jeito nisso. Mesmo assim, o viaduto tem vãos com lixo, roupas descartadas porque lavar já não vale mais a pena, e pessoas que se acostumam com sujeira a pouca distância. Bastam algumas áreas demarcadas para ficar, comer e dormir e pronto – a feiura “logo ali” faz parte da paisagem, não incomoda.

O belo é o convívio (quase sempre). A divisão de tarefas, a cumplicidade, solidariedade. Até mesmo a alegria! Meu marido deixou a caixa de som “bluetooth” alguns dias com eles, que se esbaldaram ouvindo música no celular. Um olha a criança enquanto o outro faz o corre para o almoço, um cozinha enquanto o outro vai comprar pinga. Um toma banho, faz a barba, faz a fogueira para assar o amendoim que vai vender no farol; outro pede o celular emprestado para ligar para a mãe ou para os filhos.

Ali não é lugar pra se viver. Mas se viveu por bastante tempo, e além da amizade dos conviventes, tem a vizinhança – nem todo mundo é hostil! Empregados das lojas do shopping, o advogado do prédio da frente, o casal do Morro Doce que vem no fim-de-semana fazer malabares. Tudo isso termina agora – e assim como o Exército, o colegial, um emprego, “foi ruim mas foi bom”. Quem já não tem muita coisa perde a rotina com pessoas amigas – mano, quanto vale isso?

Eles sairão de lá com auxílio da Habitação, talvez consigam alugar um quarto cada um na região central. Dificilmente continuarão juntos (a menos que fossem todos pra mesma pensão ou República). Separação e fim fazem parte da vida, mas geralmente quem perde um vínculo tem outro “pra compensar”. Termina a escola, vem a faculdade. Sai da casa dos pais, tem os amigos. Separa do marido, tem os amigos. Briga com amigos, tem a namorada. Mas quem mora na rua já tinha perdido todos os outros…

Fiz o enterro de alguns amigos que viveram ali. Alguns voltaram para suas cidades, pra “casa de mainha”. Outros sumiram no mundo. Comemorei Natais e outros aniversários. Dormi, dancei, tomei café da manhã. Tomei multa por parar o carro ali dentro… Acabou. Fim da maloca. Tenho o celular de alguns, inclusive um muito querido, que conheço de outras malocas… Espero que cada um encontre um quarto com porta, cama, colchão e janela. Mas que, sem que precisem voltar para debaixo de algum outro viaduto, a gente sempre se encontre por aí.

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Last modified: 4 de outubro de 2019

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