Mandato da Vereadora Soninha Francine

Bem x Mal? Nunca é tão simples. 

10 de fevereiro de 2020

Semana retrasada assisti ao espetáculo Shen Yun, presença frequente no meu Insta. Saltos acrobáticos impressionantes; movimentos firmes e suaves, rígidos e leves. Os figurinos ressaltam os gestos e acrescentam desenhos no ar. Tem um número das “mangas de água” (acho que é esse o nome) que é incrível.

Ao longo do espetáculo, alguns trechos destoam: são os que narram a perseguição das autoridades chineses ao Falun Gong. Infelizmente, são coreografias caricatas, do Bem contra o Mal; vários espectadores se mostraram incomodados com a arte panfletária.

“Arte panfletária” me lembra discussões intermináveis na faculdade de cinema e no grupo de teatro do qual fiz parte. Eu era totalmente a favor da arte engajada – que não necessariamente precisaria ser um filme ou peça com “teor político”. O entretenimento bem feito era aquele que deixava alguma coisa a mais além da mera distração. Exercitei isso bastante na MTV: ao anunciar um videoclipe, eu podia escolher entre falar da superstição do vocalista de só fazer shows com cuecas brancas ou do contexto social do país de origem da banda. Sem ser chata, sem ser “papo-cabeça”, sem ser… panfletária.

A história do Falun Gong é uma guerra de versões. As autoridades chinesas alegam que era uma prática perigosa, que se fazia passar por atividade inocente mas, na verdade, promovia verdadeira lavagem cerebral. Seus adeptos refutam qualquer conotação política e denunciam a repressão sofrida. Fato é que a prática foi banida na China e, a partir de outros países, os praticantes criticam o governo.

Em entrevista à TV que acompanha o Shen Yun pelo mundo, falei sobre o deslumbramento causado pelas coreografias, o enlevo causado pela manifestação de espiritualidade em forma de beleza cênica, e lamentei a postura equivocada na repressão ao Falun Gong, desejando que o conflito fosse pacificado em pouco tempo.

Alguns representantes da comunidade chinesa sentiram-se profundamente incomodados. Argumentaram que eu não conheço o caso o suficiente para tomar posição; que o criador do Falun Gong se atribui poderes fabulosos, levando as pessoas a decisões terríveis.

De fato, o que sei sobre o Falun Gong é o que  disseram pessoas da minha confiança… e me soou bastante provável em um regime de governo como o chinês, que tem baixa tolerância a opositores internos. Mas embatuquei pensando: e as narrativas sobre “Lula, o Salvador” x “as forças do Mal que não admitem a inclusão dos mais pobres” etc? Quantos, fora do Brasil, acreditam que realmente o governo Lula levou os pobres ao paraíso e por isso ele foi tão perseguido?

De todo modo, eu não acho que banir alguma coisa do país seja a melhor solução para o que quer que seja. (E aí o diabinho da minha consciência diz “nem o nazismo??” Ok, tem coisa que só banindo).  Posso não gostar de boa parte das posições do fundador do Falun Gong (e não gosto), mas vejo que muitos praticantes não tem a menor intenção de confrontar o governo chinês ou coisa parecida. Enfim, quero deixar claro o seguinte: repudio sempre a violência, venha de onde vier – governo ou oposição, progressistas ou conservadores, esquerda ou direta etc. Defendo o direito das pessoas pensarem diferente de mim, de preferência com reciprocidade.  Desaprovo o “uso desproporcional da força”. E não gosto de maniqueísmo, simplismo, polarizações – as coisas são sempre mais complexas do que parecem.

Não quero ser compreendida como alguém que abomina o governo chinês por erros cometidos. Aprendi isso com meu mestre budista, que precisou abandonar o Tibete sob a ameaça concreta de ser preso e executado durante o processo violento de anexação do território tibetano. Perguntado sobre o que achava do movimento “Free Tibet”, dizia: “Só não se pode incitar a raiva contra os chineses”.

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Last modified: 10 de fevereiro de 2020

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