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“Uns não compreendem ‘os outros’, de jeito nenhum” – Por Soninha Francine

9 de março de 2020

Cadeia é foda.

Já estive em várias. Saio sempre profundamente sensibilizada com os apenados. Os presos. As presas.

Quando dou uma palestra sobre um livro que escrevi (“Por que sou budista”), diversidade sexual, política e cidadania; quando participo de uma oficina de artesanato ou compro objetos produzidos por eles; quando conheço projetos de inserção profissional baseados em crochê, tapeçaria, moda, ou culinária; quando visito conhecidos e conheço seus colegas de “raio”; quando vejo filmes baseados em fatos reais ou leio os livros do Drauzio; quando participo de mutirões e festividades dentro de presídios; quando conheço egressos em busca de emprego…

…Eu quase nunca sei o que foi que a pessoa fez para ser presa.

Tenho curiosidade, sim. Mas evito perguntar. Não sei por que; talvez seja porque não vou mais conseguir olhar para aquela pessoa, ouvir, conversar, dar aula, cumprimentar, dividir um lanche sem ser assombrada pelo que ela fez.

Isso faz de mim uma pessoa imune a preconceitos e julgamentos, totalmente despida da discriminação? Capaz. Eu pensava que era, até ser pega no pulo (por mim mesma).

Estava no programa da Katia Fonseca alguns anos atrás, na TV Gazeta, junto com uma artesã que produzia utensílios e enfeites com coadores de café usados. “Sou voluntária em um presídio”, ela disse. Fiquei ainda mais encantada com seu trabalho. “Qual?”. “Romão Gomes”, respondeu.

Minha máscara de “compassiva”, “solidária”, “sem discriminação” caiu ali. Romão Gomes é o presídio da Polícia Militar, isto é, para policiais que tenham cometido crimes. E eu, que achava bonito ser voluntário na cadeia “comum”, me peguei achando que trabalhar com PMs condenados e presos não era tão belo assim. Toma!

“Fazer o bem sem olhar a quem” é muito, muito difícil. Cada um de nós decide um “quem” que conseguimos compreender e perdoar.

Alguns, normalmente identificados com o pensamento de esquerda, conseguem compreender “os bandidos”. Analisando as condições em que uma pessoa cresceu – família, comunidade, sociedade – compreendem os sentimentos e desejos que desequilibram, a falta de estrutura, a agressividade, a violência, os valores distorcidos etc. Conseguem entender um moleque que esfaqueie uma pessoa por causa de um celular ou relógio.

Outros, normalmente identificados com a direita, conseguem compreender “a polícia”, ou melhor, os policiais acusados de abuso. Analisando as condições em que vivem, as ameaças que sofrem, as péssimas condições de trabalho, as pressões a que são submetidos, são capazes de compreender por que um PM chuta um cara caído.

Mas uns não compreendem “os outros”, de jeito nenhum. Não acham que as condições e contexto atenuam a violência cometida pelo “outro lado”. E acham que compreender o “outro lado” é igual a passar a mão na cabeça ou até defender a própria violência.

Está tudo “em cartaz” de novo com “o caso Drauzio Varella”. Pra variar, virou um caso de “esquerda” x “direita”… Felizmente, com mais nuances do que o “normal” nesses embates. Há muitas camadas de debate: o médico e voluntário, atuando como repórter no Fantástico, deveria ter informado o crime cometido pela pessoa em quem deu um abraço? A Globo deveria ter informado? A compaixão pela pessoa trans em sua solidão na cadeia é resultado dessa “desinformação”? Se não fosse uma pessoa trans, não teria gerado empatia na “esquerda”? Alguém que tenha cometido crimes tão graves não merece empatia jamais? Nem perdão? Pra que serve o jornalismo, para que serve a Justiça, para que servem os voluntários, para que serve o sistema prisional afinal?

Como já admiti, não tenho sempre a mesma reação quando eu sei o que a pessoa fez. – esteja ela na cadeia, no hospital, na faculdade, na igreja ou debaixo do viaduto. Já conheci autores de crimes diversos e percebo que meu sentimento em relação a eles é totalmente influenciado por quem são no presente… Se são pessoas que me parecem arrogantes, desonestas, agressivas, não consigo esquecer o crime. Se são gentis, sensíveis, generosas, mal consigo acreditar no crime. Como pessoas às vezes são agressivas, às vezes gentis, tenham cometido crimes ou não, confesso que eu também reajo conforme o momento delas, e o meu momento.

Credo, quanta relativização. Mas prefiro ser assim do que ter opiniões rígidas, prévias e prontas sobre tudo. Eu sou assim.

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Last modified: 10 de março de 2020

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