Mandato da Vereadora Soninha Francine

Na imprensa

Confira aqui as principais notícias que saíram na mídia envolvendo a vereadora Soninha Francine:

Assista agora a participação da vereadora Soninha Francine na edição do programa Com Brasil Debate do dia 31/07.

Pode parecer inacreditável, mas é verdade: até fevereiro deste ano, as sessões ordinárias da Câmara Municipal de São Paulo (CMSP) tinham entre os assuntos em pauta a discussão de projetos de lei (PLs) da segunda metade da década de 1990.

Tais PLs eram os que, depois de aprovados pela Câmara, receberam vetos do prefeito da época de sua apreciação e retornaram ao Legislativo, a fim de que os vereadores decidissem pelo seu arquivamento ou transformação em lei.

No entanto, a sucessão de novos PLs e outras demandas do Legislativo ao longo dos anos fizeram com que tais vetos não fossem novamente apreciados pelos vereadores e continuassem na pauta durante todo este tempo.

800 PLS EM ANÁLISE

No começo dos trabalhos legislativos deste ano, o vereador Eduardo Tuma (PSDB), presidente da CMSP, e os líderes partidários entraram em acordo para “limpar” da pauta da Câmara os cerca de 800 projetos de lei de legislaturas passadas que receberam vetos do Executivo.

Entre 12 de fevereiro e 26 de março, 330 projetos anteriormente vetados foram apreciados, separadamente, em plenário pelos atuais vereadores: 119 projetos tiveram a deliberação adiada e, em 211, o veto foi mantido, fazendo com que, nesses casos, os PLs fossem arquivados, saindo definitivamente de tramitação no Legislativo paulistano.

“Os vereadores podem se manifestar contra a manutenção de um veto, caso queiram discutir mais a matéria, e solicitar o adiamento de determinado item”, detalhou, em uma das sessões ordinárias da Câmara, a vereadora Soninha Francine (PPS), que fez uma síntese dos 800 projetos que estão sendo analisados.

QUANDO TODOS SERÃO APRECIADOS?

De acordo com a assessoria de imprensa da Câmara Municipal de São Paulo, não há um prazo determinado para concluir a análise dos vetos desses 800 PLs.

Já foram colocados para votação em plenário os PLs com vetos da década de 1990 e agora estão, paulatinamente, sendo apreciados os projetos de lei vetados nas décadas seguintes.

Assessores parlamentares consultados pelo O SÃO PAULO informaram que há um acordo para que, em alguns casos, os PLs vetados pelo Executivo de vereadores que atualmente exerçam mandato na CMSP sejam apreciados, caso assim seja o desejo do parlamentar.

TEMÁTICA SUPERADA

Soninha Francine, durante a já referida sessão ordinária, disse que, em um dos casos, votara pela manutenção do veto de um projeto de lei do qual foi coautora. “A lei dizia a respeito da obrigação do poder público de divulgar na internet o nome de todos os servidores, a função exercida, o que em 2008 era uma medida de transparência inovadora, mas hoje em dia já ficou superado”, exemplificou, enfatizando, ainda, que “concordar com a manutenção de um veto não significa concordar que a ideia original era ruim ou mesmo que o Executivo tinha razão, mas, sim, que, às vezes, o tempo superou tanto o projeto quanto as razões alegadas de veto”.

LEGISLAÇÃO ULTRAPASSADA

Em alguns casos, o que o projeto de lei propunha na época de sua tramitação já está ultrapassado perante as legislações atuais.

Um exemplo é o projeto de lei 197/2013, de autoria do então vereador Nelo Rodolfo (MDB), que dispunha sobre a obrigatoriedade de especificação e divulgação do valor calórico dos alimentos oferecidos em cardápios dos estabelecimentos especificados, bem como a necessidade de advertência da presença de glúten e de lactose, no âmbito do município de São Paulo.

Caso a atual legislatura derrubasse o veto a esse PL, feito pelo então prefeito Fernando Haddad (PT), a legislação municipal teria pouco efeito prático, uma vez que, desde 2017, uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) – portanto, válida em todo o País – obriga os fabricantes de alimentos a informar no rótulo dos produtos a presença de lactose.

POUCA RELEVÂNCIA SOCIAL

Entre esses 800 projetos em apreciação, há alguns de pouca relevância para o todo da sociedade, como aqueles PLs que dispõem sobre a mudança de nomes de vias públicas e que, após aprovados pelo Legislativo, foram por alguma razão vetados pelo Executivo municipal da época. Esse foi o caso do PL 328/2005, de autoria do então vereador Ushitaro Kamia (PDT), que dispunha sobre a denominação de rua Deputado José Adolpho Chaves de Amarante, no Jardim Cachoeira, a uma via que à época era conhecida como rua Particular. O veto a esse PL foi mantido pelos atuais vereadores.

PLS ANTIGOS TRANCAM A PAUTA?

Embora a quantidade de 800 PLs com vetos acumulados de legislaturas passadas seja significativa, esses projetos de lei não “trancam a pauta”, ou seja, não impedem a apreciação de novos PLs, uma vez que os antigos estão na lista de pautas das sessões ordinárias (que acontecem regularmente em dias úteis), enquanto os novos são, geralmente, apreciados em sessões extraordinárias, realizadas em dias e horários diversos daquelas.

A Praça Memorial Vladimir Herzog, localizada atrás da Câmara Municipal de São Paulo (SP), recebeu neste sábado (6) a escultura “Troféu Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos”, feita pelo artista Elifas Andreato. Instalada em comemoração ao Dia do Jornalista, celebrado neste domingo (7), a peça é uma réplica em tamanho ampliado do troféu entregue anualmente, desde 1979, aos profissionais e veículos de comunicação que realizam trabalhos relevantes na defesa da democracia e dos direitos humanos.

Chamado pelos amigos por seu nome de batismo, Vlado, o jornalista que dá nome à praça foi assassinado em 1975 após se apresentar voluntariamente às autoridades do DOI-CODI, centro de inteligência e repressão da ditadura civil-militar (1964-1985). À época, integrantes do Exército alteraram a cena do crime e divulgaram uma fotografia para reforçar a versão de que Herzog teria cometido suicídio. Após o fim do regime, a hipótese foi descartada e o comunicador entrou para a lista oficial de mortos pela ditadura.

A inauguração reuniu representantes de partidos políticos, entidades de defesa dos jornalistas, além de colegas e familiares de Vlado, que criticaram a intensificação dos ataques contra jornalistas desde as últimas eleições presidenciais e relembraram o legado deixado por Herzog.

“Me sinto honrado por ter sido escolhido para fazer as obras. Construímos esse monumento não só em memória do Vlado, mas também de mais de mil jornalistas que ganharam o Prêmio Vladimir Herzog. Talvez o Brasil seja o primeiro a consolidar essa reafirmação de que a imprensa é fundamental e de que a democracia ainda é a grande luta a ser travada”, afirmou Andreato.

Na praça, já estavam expostas outras duas obras produzidas pelo artista: o mosaico 25 de outubro, que contesta a versão divulgada pela ditadura de que Herzog havia se suicidado, e uma reprodução da escultura Vlado Vitorioso, criada por Andreato em 2008 a pedido das Nações Unidas para celebrar os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Em dezembro, deverá ser instalada uma placa com o nome de todos os ganhadores do Prêmio Vladimir Herzog desde sua criação.

A peça instalada neste sábado foi construída a partir de recursos de uma emenda parlamentar encaminhada pela vereadora Soninha Francine (PPS). Segundo ela, “a construção dessa praça está acontecendo ao longo de várias legislaturas. A Câmara teve inúmeros presidentes diferente e de partidos diferentes. Esse é um sinal de que existem coisas fundamentais, existem princípios de base que não devem ser afetados por mudanças de governo”.

Eleição de Bolsonaro é motivo “para acabar com a acomodação”

Ivo Herzog, filho de Vlado, ressalta que a comemoração aconteça em um momento de intensificação dos ataques contra os jornalistas e em que o governo, liderado por Jair Bolsonaro, tenta “reescrever os livros [didáticos e de história]”.

“O contexto atual, com o governo atual, que fala em reescrever os livros, torna literalmente vital espaços como esse, que são parte de uma luta para que não haja um revisionismo. Esse espaço, além da questão da memória, é um instrumento de defesa contra o que estão tentando nos impor”.

Segundo ele, a eleição de Bolsonaro “é mais um motivo para a gente acabar com essa acomodação, porque nós abrimos o flanco e essa coisa aconteceu. A gente tem uma falência no processo de educação, as pessoas não sabem o que aconteceu nesse país. E essa praça, que no início do projeto do Ítalo [Cardoso (PT)] era um local de memória, hoje é mais que apenas um local de memória. É um local de resistência”.

Para o jornalista Sergio Gomes, da Oboré Projetos Especiais, “esse território é de luta pela liberdade de expressão e, sobretudo, pelo direito à informação – que antecede a liberdade de expressão. Mais do que nunca, é importante reunir os jornalistas”. Gomes é um dos principais articuladores por trás da criação da praça, inaugurada em 2013.

Além da nova obra, 19 instituições que representam os direitos e interesses dos jornalistas assinaram o manifesto “Aqui, agora, em nome do futuro”. Para Marina Iemini Atoji, gerente-executiva da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), uma das instituições que assinaram o documento, é importante celebrar o Dia do Jornalista porque “muitas pessoas tentam descredibilizar o trabalho do jornalista, atacando os profissionais da imprensa. [A data] é uma forma de reiterar que não se pode aceitar esse tipo de violência”.

Herzog nasceu em Osijek, na então Iugoslávia, em 1937, filho de um casal de judeus. Durante a Segunda Guerra Mundial, o território estava sob comando da Alemanha Nazista, e a família fugiu – primeiro para a Itália, depois para o Brasil. Naturalizado brasileiro, ele formou-se em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo, dirigiu o departamento de telejornalismo da TV Cultura, foi professor de jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da USP e militou no Partido Comunista Brasileiro (PCB).

São Paulo – O coral da Guarda Civil Metropolitana abriu com músicas de três períodos do país: São Paulo, São Paulo, interpretada pelo grupo Premeditando o Breque, O Bêbado e a Equilibrista (João Bosco/Aldir Blanc), imortalizada por Elis Regina, e Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, com pitadas de Carinhoso, de Pixinguinha. Era o começo do ato, na manhã deste sábado (6), que marcou a inauguração de estátua com réplica do Troféu Vladimir Herzog, na praça de mesmo nome, localizada atrás da Câmara paulistana. Concebido há 40 anos para premiar jornalistas que se destacam na área de direitos humanos, o troféu, criado pelo artista plástico Elifas Andreato, homenageia o jornalista morto no DOI-Codi paulista em 1975. Ivo Herzog, filho de Vlado, manifestou tristeza pelo momento que o país atravessa, mas disse também ter esperança em uma “virada”.

Ivo lembrou que, como muitos, considerava a candidatura Bolsonaro um “fogo de palha”, assim como havia a expectativa de que a ditadura não voltaria. “A gente vê o comportamento desse governo muito parecido com o daquela época”, afirmou durante o evento. Um governo particularmente doloroso para a família, por ser defensor da ditadura iniciada em 1964, que teve o jornalista Vladimir Herzog como uma de suas vítimas. Então diretor de Jornalismo da TV Cultura, Vlado apresentou-se para depor no DOI-Codi em 25 de outubro de 1975, também um sábado, e terminou aquele dia morto sob tortura.

Ivo e o irmão André nasceram na Inglaterra, onde Vlado trabalhava pela BBC. O jornalista estava para retornar ao Brasil quando veio o AI-5, em dezembro de 1968, inaugurando o período mais agudo da ditadura. Herzog foi aconselhado a ficar mais um tempo na Europa, mas disse – segundo lembrou Ivo – que o ato institucional era “mais um motivo para voltar”. Por isso, lembrou Ivo, é momento de resistir.

“A gente abriu os flancos e essa coisa (vitória de Bolsonaro) aconteceu. Hoje (a praça) é mais que um local de memória, é um local de resistência”, disse o filho de Vlado, fazendo menção à ascensão do conservadorismo. “Está acontecendo no mundo todo, mas eu acredito que o Brasil vai ser o primeiro país a dar uma resposta firme e virar esse jogo, no sentido pró humanidade, liberdade, pró respeito”, acrescentou Ivo, que nos últimos dias defendeu a renúncia do chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, pela afirmação – contrariando a lógica – de que o nazismo é uma ideologia “de esquerda”.

Lutas e sonhos

Na praça localizada atrás da Câmara Municipal, estavam, entre outros, o jornalista Juca Kfouri, o cineasta João Batista de Andrade, o ex-deputado José Genoino e o ativista Darci Costa, do Movimento Nacional da População de Rua. O local, que tem esse nome desde 2013, já contava com uma versão ampliada da estátua Vlado Vitorioso e uma mosaico feito por crianças do Projeto Âncora reproduzindo a obra 25 de Outubro (uma representação da tortura com a data da morte de Herzog) e agora tem uma réplica do troféu, todas obras de Elifas.

A peça inaugurada hoje, véspera do Dia do Jornalista, foi feita com recursos de emenda parlamentar apresentada pela vereadora Soninha (sem partido), que apresentou o evento, com participação dos também vereadores Eduardo Suplicy (PT) e Eliseu Gabriel (PSB), além do ex-parlamentar Ítalo Cardoso. Representantes das faculdades de comunicação da Cásper Líbero, da Universidade de São Paulo (USP) e da Pontifícia Universidade Católica (PUC) também falaram durante o ato.

“O Vlado ofereceu a vida dele para que todos se levantassem. Elifas emprestou a sua arte para dar conteúdo a isto aqui”, disse Ítalo. Para Eliseu, a inauguração foi “uma vitória em meio a tantas coisas que têm acontecido” – ele defendeu o jornalismo para se contrapor às chamadas fake news. Criador da editora Oboré, o jornalista Sérgio Gomes também foi homenageado – e chamado por Ivo de “alma” do Instituto Vladimir Herzog. “Precisamos cuidar com carinho deste espaço que conquistamos, pois ele guarda nossas melhores lutas e nossos melhores sonhos”, diz Sérgio.

Autor de vários trabalhos referenciais, Elifas Andreato confessou-se deprimido com o momento brasileiro, mas também falou em resistência contra quem diz que não houve ditadura. “O que estamos fazendo aqui? Estamos mostrando as provas históricas. Esse regime torturou, estuprou, matou, censurou a imprensa”, afirmou, minutos antes do descerramento da réplica, exatamente às 11h58. Em seguida, o coral cantou o Hino da República, que traz os versos “liberdade, liberdade!/ abre as asas sobre nós”, lembrados durante o ato por Vanira Kunc, viúva do jornalista Audálio Dantas, morto há quase um ano – ele era presidente do sindicato da categoria em São Paulo na época em que Vlado foi assassinado no DOI-Codi.

Ivo Herzog perdeu o pai, Vladimir Herzog, para a ditadura militar que controlou o Brasil de 1964 a 1985. Em novembro de 1975, o jornalista foi assassinado em uma cela e os militares tantaram contar a história de que ele havia se enforcado com uma corda presa na janela a menos de dois metros do chão. O filho do jornalista analisa que o Brasil do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) vive momento similar hoje ao tentar reescrever a história.

“A minha vida toda, até bem recentemente, imaginava que coisas que aconteceram na Segunda Guerra Mundial, como o movimento nazista, nunca mais poderia voltar a acontecer, que ditadura não poderia voltar a acontecer. Eram certezas e essas certezas estão deixando de existir”, diz Ivo, sobre ações do governo que nega a existência de um regime totalitário no passado recente.

Ele se refere a ações como a de o governo atual enviar documento à ONU (Organizações das Nações Unidas) apontando que não houve uma quebra na democracia em 1964, quando os militares tomaram o poder em um golpe de estado, alegando que o presidente havia abandonado o país – João Goulart ainda estava no Brasil e, posteriormente ao golpe, viajou em direção ao Uruguai. E o fato de Bolsonaro ter apoiado que os militares comemorassem os 55 anos do golpe, completados no dia 31 de março passado.

Herzog ainda cita a tentativa de o MEC (Ministério da Educação) rever os livros de história e de tentar reescrever o passado, ensinando que não houve ditadura. “Querem reescrever livros de história… Se a gente não trabalhar forte, não lutar forte, pode e está sendo implantado um modelo fascista no Brasil com pensamento único, revisionista, de massacrar e eliminar as pessoas quem pensam diferente”, aponta.

Ivo participou da inauguração de mais uma obra do artista Elifas Andreato na Praça Memorial Vladimir Herzog, espaço que fica no centro de São Paulo, atrás da Câmera Municipal. A peça reproduz o troféu entregue pelo Instituto Vladimir Herzog aos jornalistas vencedores do prêmio que leva o nome do pai de Ivo. O troféu significa o reconhecimento da sociedade brasileira aos profissionais da imprensa que, por meio de seu trabalho cotidiano, colaboram com a promoção da Democracia, da Liberdade e dos Direitos Humanos, segundo o Instituto.

Para Ivo, uma homenagem que surge em momento importante para mostrar o que ocorreu nos anos de chumbo.

“Infelizmente, não sei se a gente chegou tarde, mas uma parcela importante da população está celebrando a violência, um discurso de ódio, a intolerância. ‘Se você pensa diferente da gente, será eliminado’, ‘Se ele livro diz o que não concordamos, ele tem que ser apagado’… É muito assustador o que está acontecendo”, admite.

A inauguração da obra contou com a presença de jornalistas companheiros de Herzog, estudantes de jornalismo, militantes e políticos. A vereadora Soninha (PPS) apresentou a solenidade, com discursos de Ivo Herzog, do também vereador Eduardo Suplicy, do ex-parlamentar Eliseu Gabriel e de Vanira Kun, companheira do jornalista Audálio Dantas, falecido em maio de 2018.

O artista Elifas Andreato explicou que a obra, além de exaltar Vlado e os mais de mil jornalistas que já receberam o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, é resistência. “Vivemos uma ameaça de que o horror volte e se realize. Eles negam que existiu tortura, censura, sequestro, morte, estupro na ditadura. O regime matou. E hoje reavivem esta memória. A praça serve para as pessoas verem estas obras e entenderem o porquê elas foram construídas”, explica.

Existe a promessa de que a parede que separa a praça da Câmara Municipal seja preenchida com azulejos com os nomes dos mais de mil jornalistas que receberam o Prêmio Vladimir Herzog até hoje e será ampliada anualmente, conforme cada nova premiação.

Foi entronizada hoje na Praça Memorial Vladimir Herzog, ao lado da Câmara Municipal de São Paulo, a réplica do troféu Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. A atividade teve a adesão de várias entidades ligadas aos jornalistas e ao exercício da profissão – entre elas a Associação Profissão Jornalista – e marcou também a celebração do Dia do Jornalista (7 de abril).

Entregue desde 1979, o prêmio é concedido anualmente a profissionais e veículos de comunicação que se destacaram na defesa da democracia, da cidadania e dos direitos humanos e sociais. Seu nome é uma homenagem ao jornalista Vladimir Herzog, morto sob tortura pela ditadura militar, em 1975.

A Praça Memorial Vladimir Herzog foi inaugurada em 2013 e desde então vem se constituindo em um espaço de reafirmação da liberdade de expressão e dos direitos humanos. O local já conta com a escultura Vlado Vitorioso e um mosaico feito por crianças do Projeto Âncora reproduzindo a obra 25 de Outubro (uma representação da tortura com a data da morte de Herzog). Todas de autoria do artista plástico Elifas Andreato.

“A praça é mais que um local de memória, é um local de resistência”, comentou Ivo Herzog, diretor do Instituto Vladimir Herzog e filho do jornalista assassinado. Diversos jornalistas e estudantes participaram da cerimônia, que contou com apresentações do coral da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo.

Fonte: Rede Brasileira de Notícias

A Câmara Municipal de São Paulo realizou nesta sexta-feira (22/03), a 5ª edição do Prêmio Sabotage, premiação que reconhece o trabalho de artistas que se destacaram no cenário do Hip-Hop paulistano e que contribuem para o processo de inclusão social, musical e cultural dos jovens na cidade de São Paulo. Presente à solenidade, o Secretário Municipal de Cultura, Alexandre Youssef, disse que é a primeira vez que o Prêmio Sabotage foi incorporado ao Mês do Hip-Hop em São Paulo. São dele as palavras: “Precisamos divulgar, integrar e ampliar este prêmio e as ações da cultura Hip-Hop em toda a agenda cultural de São Paulo, porque essa é uma cultura que também é a cara da cidade”, afirmou Youssef.

A vereadora Soninha (PPS), autora da iniciativa na Câmara, disse que a premiação é uma forma de honrar o trabalho do rapper.

“Temos que lembrar quem foi o Sabotage, o que ele representava para os jovens e continua representando até hoje, mesmo depois da sua morte precoce e violenta. Temos que honrar sua construção”

Entre os 77 inscritos desse ano, na categoria Breaking, um menina de apenas 8 anos que chegou a final junto com os veteranos B-Girl Miwa e B-Boy Jotta chamou a atenção na sessão solene, já na sua chegada entre os adultos. Conhecida como B-Girl Angel, é a mais nova B-Girl, em relação a idade, presente no circuito de campeonatos no Brasil, junto com o irmão B-Boy Eagle, de 12 anos, fazem parte da On House Crew e são treinados pelo Coach, B-Boy e Produtor Eder Devesa.

A pequena, que é nova na idade mas grande no talento e nos sonhos, já se prepara junto com Eagle para representar o Brasil, no próximo mês de Maio, em Portugal, na final mundial da Porto World Battle. Os irmãos, moradores da cidade de Itanhaém, são conhecidos nos eventos por todo Brasil e pela imprensa, já tendo participado dos melhores campeonatos de Breaking do país, destaque para: Rival vs Rival, Master Crew, Breaking Combate, Quando as Ruas Chamam (Brasilia), World B-Boy Classic, Tattoo Experience, Cidade vs Cidade, São Vicente Festival, Battle Break SP, The King Of The Night, Battle Force na Streetopia da Nike, Battle in The Cipher, entre outros.

Angel declarou: “Fiquei muito feliz de chegar na final entre B-Boys e B-Girls que admiro muito e tem tantos anos de dança. Tenho muito para aprender com eles! Fiquei feliz de representar a nova geração nesse prêmio, é grande a responsabilidade! Agradeço a Deus, ao meu pai, minha mãe, aos meus avós e ao Tio Dunda, que me treina. E a todos que me ajudam ou já me ajudaram na minha dança.”, conclui.

A menina tem grande sonhos e um deles é ir para as Olimpíadas e ser uma atleta olímpica, porém, sem nunca perder a essência das ruas! São dos pais de Angel as palavras: “Ela e o irmão sonham alto sim! E acho isso muito importante, estar ligado em cultura, arte e dança. Sobre o Prêmio Sabotage 2019, foi algo inesperado, emocionante, ficamos muito felizes! Pois sabemos que tem muita gente boa e ter o trabalho reconhecido sendo tão nova é uma grande responsabilidade! Angel representou uma nova geração que está chegando com toda a força! Ensinamos sempre aos nossos filhos ter foco e determinação! B-Boy Eagle, por exemplo, irmão de Angel, é uma criança surpreendente, dedicado e persistente na dança, ele sabe onde quer chegar, sabe que tudo vem por meio do esforço e da dedicação! É um dançarino acima de tudo! E isso abre um leque de infinitos movimentos, não fica preso na mesmice.

Angel é pura energia, gosta de movimentos difíceis e tem muita personalidade quando dança, carinhosamente chamada de “Senhorita Power Move” por seu treinador! Hoje em dia, damos muita atenção aos treinos e escolhemos alguns eventos para participar, não temos pressa, pois sabemos que o preparo e o trabalho devem ser bem feitos e o aprendizado sólido para durar toda a vida! A possibilidade de ir para uma Olimpíada e ser um atleta olímpico é uma grande oportunidade, vejo como uma conquista para essa geração, algo que não deve ser desperdiçado! Temos muito trabalho pela frente, que Deus nos ajude sempre e abençoe a grade família Hip Hop!”.

“Mulheres em Pauta – a violência precisa acabar” foi o tema da Audiência Pública da Comissão Extraordinária de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania. Infelizmente com poucos interessados, o evento tratou como oferecer segurança adequada e acolhimento às mulheres vítimas de violência.

Um dos assuntos debatidos foi a possibilidade de trocar de secretarias que cuidam dos serviços de atendimento ao público feminino vítima de agressões.

Segundo Celina Simões, da União de Mulheres do Campo Limpo, os CRMs (Centros de Referência da Mulher) estariam sendo transferidos para a pasta de Direitos Humanos e Cidadania, enquanto as Casas de Passagem de Curta Duração migrariam para a de Assistência e Desenvolvimento Social.

“Isso não foi discutido conosco, que estamos na base, atendendo às mulheres lá nos bairros. E sabemos que existe uma demanda muito maior do que os serviços atualmente oferecidos”.

Para a defensora pública Nalida Coelho Monte, do NUDEM (Núcleo Especializado de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher), os Centros de Referência da Mulher são fundamentais para a prevenção e enfrentamento da violência contra a mulher, com abordagem e atendimento multidisciplinar. A reclamação também foi alvo da fala de Márcia Plínio Soares, do Fórum Defesa da Vida do Jardim Ângela.

A coordenadora de Políticas para Mulheres da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania, Ana Cristina de Souza, apresentou dados e explicou como funciona o atendimento nos CRMs. E também mencionou os problemas do setor.

“É de conhecimento de todos que a rede apresenta dificuldades e fragilidades, mas temos somado esforços com outras instâncias do poder público para tentar sanar ao máximo as necessidades que se apresentam. Precisamos também de representantes da área de Assistência e Desenvolvimento Social para darmos as devidas respostas sobre esses assuntos. Se fôssemos discutir isso hoje, ficaríamos sem respostas”.

A vereadora Soninha, que foi vice-presidente da CPI da Mulher (relembra aqui), sugeriu que seja realizado um levantamento de todas as legislações, portarias, decretos, entre outras ferramentas, para que se encontrem as lacunas e possam ser cobradas as execuções de eventuais iniciativas que não saíram do papel.

Sessão Plenária

Mais cedo, os vereadores discutiram uma série de Projetos de Lei (PLs) vetados em legislaturas passadas. Dos 98 itens analisados, 34 tiveram o veto mantido e foi adiada a votação de outros 64.

Desde o início do ano, o Plenário da Câmara iniciou a avaliação de mais de 800 projetos vetados, que constavam na pauta das Sessões Ordinárias. Os PLs são considerados desatualizados em relação à legislação atual, alguns deles tendo sido elaborados nas décadas de 1990 e 2000.

A Soninha e sua assessoria debruçaram-se nesses vetos e estão analisando um por um – são mais de 800! Desde fevereiro, a Casa colocou em votação um total de 302 Projetos de Lei anteriormente vetados. Desses PLs, 200 tiveram o veto mantido, enquanto foi adiada a análise dos outros 102.

O projeto de lei que regulamenta a instalação de antenas de telecomunicações em São Paulo enfrenta um impasse na Câmara de Vereadores por conta do valor da outorga a ser paga pelo licenciamento dos equipamentos.
O texto, aprovado em primeira votação em 2013, precisa passar de novo pelo plenário.

Uma proposta do vereador Paulo Frange (PTB) estipulou pagamentos entre R$ 1.000 e R$ 2.000, valores considerados insuficientes por um grupo de parlamentares.

As empresas desembolsam hoje R$ 500 por antena, em média, segundo o SindiTeleBrasil (das operadoras).
“Existe um acordo informal de líderes para votar ainda neste ano. O texto não foi colocado na pauta pela divergência sobre a taxa, mas isso deveria ser debatido em plenário”, afirma Frange.

“O presidente da Câmara, Milton Leite [DEM], é quem tem poder para pautar o tema, mas quer negociar um valor maior com as empresas”, diz Soninha Francine (PPS).

“Fizemos um acordo [com a Câmara] para pagar até R$ 2.500, com renovação a cada cinco anos, mas fala-se em outorgas de até R$ 8.000 a cada três anos, o que é inviável”, diz Lourenço Coelho, da Abrintel (do setor de antenas).
“Com valores altos, a conta não fecharia em áreas mais afastadas, que já têm problemas com a lei atual [que restringe instalação de aparelhos em locais com ruas estreitas]”, diz Ricardo Dieckmann, do SindiTeleBrasil.

“Cobrar de R$ 1.250 a R$ 2.500 é razoável. A prefeitura teria recursos para ampliar postos de wi-fi públicos”, diz Julio Semeghini, secretário de Governo.

Procurado pela coluna, Milton Leite (DEM) não comentou o assunto.

A Soninha esteve no programa Transalouca, da Rádio Transamérica, e falou de temas como o lançamento de seu livro, população em situação de rua, drogas e muito mais!

A vereadora Soninha Francine e o publicitário Alexandre Borges foram os representantes da esquerda e da direita no debate semanal do Pânico, nesta quinta-feira (23). Concordando em certos pontos e discordando em outros, a dupla debateu principalmente qual deveria ser o papel do estado na vida da população e até onde o liberalismo é o futuro para o país.

 

“Eu sempre pensei em escrever um livro com o título “Quase tudo que eu queria deu errado, e tudo bem”. Contar os perrengues da minha vida, sonhos, planos abortados, até chegar – em vários momentos, inclusive o atual”. É assim que Soninha Francine começa sua entrevista com o Glamurama para falar sobre o momento que vive com o lançamento do livro “Dizendo a que veio”. Atrevida, feminista, jornalista, ex-VJ, budista e tudo mais, ela se apaixonou por um morador de rua, e por essa paixão lutou muito.

A história desse amor tão improvável, entre uma mulher de classe média e um sem-teto alcoolatra, é um dos relatos da obra, que ainda apresenta seu lado mais pessoal ao contar detalhes da infância, a gravidez na adolescência, depressão e a experiência com a leucemia da filha caçula.

Detalha ainda os bastidores de seu convívio com protagonistas da política brasileira, como José Serra e João Doria, a pressão e as lutas internas pelo poder na Prefeitura de São Paulo. Política, inclusive foi a pauta principal do nosso bate-papo, em que ela revela que apesar de querer mais tempo como vereadora, sua maior pretensão é ser prefeita. De olho na conversa!

Glamurama: O que tem no livro que você ainda não contou nas entrevistas que deu?
Soninha: Detalhes. Os “bastidores” de algumas situações bem conhecidas na política e na vida pessoal ou alguns momentos específicos não revelados antes.

Glamurama: Acha que o Brasil tem jeito?
Soninha: Quando desanimo, olho para avanços incríveis que tivemos nas últimas décadas, apesar dos imensos problemas. A pauta LGBT, por exemplo, tem conquistas e mais conquistas! Quando nem assim me animo, olho para casos extremos – a Alemanha foi palco de atrocidades na Segunda Guerra, Muro de Berlim, e hoje é um lugar exemplar em muitas pautas (meio ambiente, energia, direitos civis, entre outras).

Glamurama: Ainda pretende se candidatar a algum cargo?
Soninha: Quero ter mais um tempo como vereadora, e minha maior pretensão é ser prefeita.

Glamurama: Se fosse presidente do Brasil, quais medidas adotaria?
Soninha: Em um mundo em que uma presidente pudesse tomar algumas decisões sem precisar do Congresso, eu estabeleceria regras para regulamentar o comércio de maconha, de modo a tirar essa atividade muito lucrativa das mãos do narcotráfico (e reconheceria imediatamente a autoridade dos médicos para receitar remédios devidamente testados à base de canabidiol, sem submetê-los a procedimentos ridículos); deixaria de considerar culpadas de homicídio as mulheres que interrompem uma gravidez até oito semanas após a fecundação; determinaria que estupro e homicídio são crimes e não atos infracionais, independentemente da idade dos autores. Mas como nada disso é tarefa de presidente, embora as pessoas perguntem isso aos candidatos o tempo todo, vou ser mais realista: de cara mudaria o nosso regime tributário para deixar mais recursos nas cidades, em vez de concentrar uma parte brutal para a União.

Glamurama: No seu ponto de vista, o que é mais urgente para o país hoje em dia?
Soninha: URGENTE deter a violência. Estamos em uma escalada medonha que tem de ser revertida. Jovens sem perspectivas, as pessoas perdendo cada vez mais o respeito umas pelas outras – idosos, crianças, ninguém escapa do desprezo pela vida. O tecido social está comprometido demais, precisamos de um grande pacto em torno de um projeto de reconstrução de valores!

Glamurama: Já tem candidato para essa eleição? Na sua opinião qual será o resultado?
Soninha: Ainda preciso decidir porque existem várias candidatas e candidatos que apoio… E acho que, embora a campanha seja curtíssima, o resultado vai ser muito diferente do que as primeiras pesquisas apontam! Além de milhões de eleitores indecisos, outros que já tem certeza de seu voto vão mudar de opinião.

Glamurama: O que acha do Bolsonaro brigando pela liderança nas pesquisas?
Soninha: As pessoas escolhem o Bolsonaro muito mais por rejeição para determinadas situações (concretas, imaginadas ou simbólicas) do que por outras razões. Odeiam a esquerda, e em grande parte porque associam à corrupção e “pouca-vergonha”, não sabem identificar com clareza o que significa ser de esquerda. Tem gente que realmente pensa como o Bolsonaro e aprova sua trajetória, mas tem quem acredita que ele representa moralidade, eficiência, honestidade, etc… e nem sabe exatamente o que já fez, como é e o que pretende. Minha convicção é de que os que realmente pensam como ele e seu vice (“não merece nem ser estuprada”; “herdamos a indolência dos índios e a malandragem dos negros” e outras barbaridades) não são nem de longe a maioria dos eleitores do Brasil. Quanto mais conhecer, mais gente honesta e consciente vai concluir que ele não é a solução de nossos graves problemas.

Glamurama: Como foi sua experiência de secretária de assistência social da administração Dória? E sua relação com ele?
Soninha: Foram dois capítulos diferentes. No primeiro – de novembro de 2016 a janeiro de 2017 -, o prefeito me ouviu bastante, não só em relação à Assistência Social mas também outros assuntos, mobilidade, por exemplo, e acatou várias sugestões e pedidos. Depois passou a não acreditar mais em mim – principalmente nas dificuldades ou impossibilidades que eu apontava, que ele considerava serem resultado de limitações minhas. Então foi difícil ser Secretária sem ter muito respaldo do chefe; mesmo assim, consegui fazer algumas coisas importantes, daquelas que dão fruto com o tempo – e saí de lá sabendo dez vezes mais sobre a Assistência Social no município do que seria possível saber sem ter dado esse mergulho.

Glamurama: Falar do amor com o Paulo em um livro não é assunto fácil. Qual a importância de se abrir sobre esse relacionamento?
Soninha: Ter um relacionamento que foge da “regra”, alcoolatra, reprovado na família e na sociedade são situações que causam sofrimento em muitas pessoas. Quem sabe a minha história pode ser um alento para leitoras e leitores, tanto quanto a vida de outras pessoas me serviu como inspiração.

Glamurama: Como é a relação entre vocês? Ele superou o alcoolismo?
Soninha: União instável [brincadeira]. Moramos juntos, dividimos tudo, fazemos planos, brigamos. Casamento, sabe como é. Alcoolismo é uma doença crônica sujeita a ter crises ocasionais, e elas acontecem. Como dizem, “não existe ex-alcoólatra”. O Paulo pegou verdadeira aversão à pinga, com a qual viveu uma relação diária e intensa por 20 anos, e nunca mais tomou. Mas é difícil resistir ao álcool mais suave, como um vinho ou licor, que estão nas situações mais “inocentes”.

Glamurama: Como foi construir essa relação cheia de desafios e preconceitos?
Soninha: Pode parecer bonito de longe, mas muitas vezes foi feio. Houve momentos em que não estava suportando lidar com ele, com o alcoolismo, com a instabilidade emocional, com o tumulto – e não tinha para onde correr e pedir “apoio moral”. As pessoas que normalmente me ouviriam estavam “contra” mim…

Glamurama: O fato de ser um desafio e tanto aumentou seu interesse por ele?
Soninha: Apesar de ele ter ostensivamente me ignorado quando o conheci, sabia que lá no fundo ele tinha sido afetado por mim. Desafio seria só descongelar aquele coração empedernido.

Glamurama: O que sua família acha dessa relação? Como tem sido lidar com isso?
Soninha: Algumas pessoas acham “valente” da minha parte. Outras não conseguem entender e reprovam completamente. Tem também quem não compreende muito bem o que foi que eu vi nele, mas concluem que precisam se conformar com minha escolha. Na prática tento descobrir primeiro se meu marido será aceito, tolerado ou rejeitado em cada situação, e decido se vou ou não às reuniões de família, etc. Já perdi algumas festinhas por causa disso… Prefiro não ir do que ter de ir sozinha.

Glamurama: Não pensou que poderia ser arriscado colocar um morador de rua dentro de casa com uma filha jovem?
Soninha: Acharia arriscado colocar uma pessoa desconhecida, mas ele não era “um morador de rua”, era o meu amigo e namorado. É verdade que já coloquei pessoas razoavelmente “estranhas” pra dentro de casa – um ex-interno da Febem ameaçado pela bandidagem, meninos pedindo esmola em noites de frio – e coloquei todo mundo em risco, mas esse não era o caso.

Glamurama: O que aprendeu com o Paulo e o que acha que ele aprendeu com você?
Soninha: Aprendi a cuidar melhor de mim e da casa, por incrível que pareça. Ele aprendeu a ser menos radical no julgamento de outras pessoas, a compreender as dificuldades dos outros. E vem ampliando o repertório de referências: filmes, lugares, cultura e arte em geral.

Glamurama: Qual a maior diferença entre ele e os outros caras com quem se envolveu?
Soninha: Ele não tem um pingo de ciúme de outros homens, o que é maravilhoso, mas fica puto com o trabalho invadindo os horários que seriam “nossos” pelo celular ou computador. Quanto às diferenças: ele me pôs na linha (aparência, organização), coisa que os outros nem tentaram. Hoje escolho roupa antes de sair de casa – antes vestia a primeira camiseta da pilha e pronto – e paro de usar um tênis bem antes de ele se desfazer por completo.

Glamurama: Já tinha percebido que sua vida ia caminhar para esse lado, que sua cara metade não estava no universo que frequentava?
Soninha: Sempre vivi em universos diferentes e soube que não seria capaz de adivinhar de qual deles viria meu próximo amor!

Glamurama: O que acha que aconteceu para se apaixonar por uma pessoa com outro repertório?
Soninha: Eu acho sinceramente que, a menos que uma pessoa tenha um gosto muito exigente, a gente pode se apaixonar por qualquer um.

Glamurama: Quais seus projetos atuais?
Soninha: Tenho tratado muito do Rio Pinheiros buscando unir forças e trazer recursos para obras de despoluição dos córregos que o alimentam, oferta de moradia para quem vive “pendurado” nas margens e implantação de Parques Lineares, além de outras intervenções. Também apoiamos a implantação de hortas urbanas, reciclagem e compostagem. Estou conduzindo um debate sobre o funcionamento dos Conselhos Tutelares na Comissão da Criança e Adolescente, presidindo a CPI dos Valets, analisando o PL da Política Municipal de Drogas e estudando profundamente o orçamento da cidade para ver de onde dá pra tirar recursos pra ter mais dinheiro para tudo que a gente quer fazer. Adianto uma conclusão: vai ter de ser daqui mesmo, do Legislativo (Câmara Municipal e Tribunal de Contas). A gente vive com um orçamento folgado enquanto a cidade toda está no aperto – não dá.

(Por Morgana Bressiani)

É comum, entre quem trabalha ajudando pessoas em situação de rua, acabar fazendo amizade com esses homens e mulheres que enfrentam tantas dificuldades. Mas a vereadora de São Paulo Soninha Francine (PPS), de 50 anos, deu um passo além: apaixonou-se por Paulo Sergio Rodrigues, que conheceu quando fazia trabalho voluntário embaixo do Minhocão, e o levou para casa para morar com ela.

Paulo, de 43 anos, nasceu em uma família pobre do Paraná e estudou só até a 4ª série. Morou em barracos em áreas de risco e desenvolveu alcoolismo na juventude, o que o levou a morar na rua por 20 anos.

Já Soninha ficou conhecida como VJ do canal MTV nos anos 1990, antes de se tornar vereadora pela primeira vez, em 2004. Formou-se em cinema na USP e tentou se eleger como deputada federal e prefeita de São Paulo. Foi secretária de Assistência e Desenvolvimento Social da prefeitura na gestão de João Doria por quatro meses, até abril do ano passado.

Apesar dos históricos de vida bem diferentes, os dois estão juntos há 4 anos – entre indas e vindas. Não se casaram formalmente, mas moram juntos e ela se refere a ele como marido.

No último dia 9 de agosto, ela lançou o livro Dizendo a Que Veio, pela editora Tordesilhas, no qual conta a história.

Em entrevista à BBC News Brasil, Soninha conta que a editora a procurou logo depois que seu relacionamento com Paulo veio a público, em 2017, em uma matéria do jornal O Estado de S. Paulo. Até então, só os amigos muito próximos sabiam do histórico do companheiro dela.

Todo mundo ficar sabendo “foi um alívio”, segundo a vereadora.

“Porque eu não saía apresentando o Paulo por aí com essa explicação: ‘desculpa qualquer coisa, ele morou 20 anos na rua’. Eu achava meio inadequado você apresentar seu marido e pedir desculpa”, diz ela, em conversa com a reportagem em seu gabinete na Câmara Municipal de SP.

“Não queria que julgassem. Não queria que olhassem nem com condescendência, nem com aversão.”

A vereadora conta que a convivência de Paulo nos ambientes em que frequenta com ela não era muito fácil. “O fato é que o jeito dele se comportar destoa. Ele não tem o traquejo social. Ele fica impaciente, reclama, fala alto, não tem modos”, afirma.

“Ele lembra muitas vezes uma criança, no sentido da inocência, de que nem sabe que normalmente a gente não se comporta desse jeito. É díficil”, diz.

O começo

Soninha conta que não previa as dificuldades que poderia enfrentar quando se apaixonou.

“No começo, sinceramente, eu não pensei nos problemas a mais que eu teria por estar me apaixonando por uma pessoa naquela condição”, diz ela.

Quando o conheceu, Paulo não foi entre os mais receptivos: não foi simpático, era o mais sujo da roda, rosto inchado. Mas foi se abrindo com o pessoal que fazia o trabalho voluntário e se cuidando: tomou banho, fez a barba para um passeio à praia, ganhou cuecas novas de Soninha.

“Eu percebi que tava apaixonada por ele… E aí você faz o quê quando se dá conta de que foi embora para casa pensando naquela pessoa? E no dia seguinte está contente porque vai encontrá-la, e se ele não está você fica triste. Minha primeira sensação de ‘caramba, lá vou eu’ foi a mesma de estar se apaixonando por qualquer um.”

Embora diga que “nunca sabe explicar porque algumas pessoas nos apaixonam e outras não”, ela conta como foram ficando mais próximos, descobrindo coisas em comum: que ele amava a música Losing my Religion, do REM, que achava Os Intocáveis um filme maravilhoso. Que ele era caridoso e cuidava dos outros: lembrava os amigos da rua de tomar o remédio, chamava ajuda quando alguém passava mal, guardava os cartões de benefício para os amigos não perderem.

Os dois conviviam bastante por causa do trabalho voluntário de Soninha, e ela começou perceber que o sentimento era recíproco.

“Uma mulher que morava na rua, que tinha um perfil diferente de outros moradores ali, que tinha feito faculdade de publicidade e tal, me falou: ‘Eu preciso te avisar uma coisa. O Dig Dig (apelido de Paulo) é apaixonado por você!’ Tipo, cuidado.”

Paulo tinha pegado uma foto dela de uma campanha eleitoral passada e ficava olhando para a imagem, chamando a atenção dos outros moradores da rua.

“Aí eu criei coragem e falei: ‘Denise, eu também. Eu sou apaixonada pelo Dig Dig'”, conta a vereadora, rindo.
Denise ficou em choque. “Cê é louca!”, respondeu.

Só quando Soninha percebeu que algo entre eles poderia realmente rolar que veio o “drama”. “Eu pensei: e agora? Como a gente vai fazer pra namorar? Eu vou me despedir dele e ele vai ficar aqui? Eu vou namorar com ele aqui, a gente vai dividir um cobertor aqui debaixo do Minhocão?”, conta ela.

O primeiro beijo foi de fato debaixo do viaduto. Depois a solução foi levar Paulo para a casa dela quando queriam ficar juntos. Mas isso só acontecia nos dias em que Julia, a filha mais nova de Soninha e única ainda a morar com a mãe, estava na casa do avó ou do namorado.

Nos outros momentos, ele voltava para rua. Depois acabou indo morar com ela.

Como conta no livro, não era a primeira vez que tinha levado para casa alguém que precisava de ajuda. “Crianças ensopadas de chuva, adultos com frio, famílias desalojadas, um ex-interno da Febem ameaçado de morte”, escreve ela. Soninha afirma que sempre quis cuidar, mas nunca antes tinha querido “dormir de conchinha.”

Apresentando à família

A família de Soninha, quando soube, se dividiu entre a preocupação e a desaprovação.

“Minha mãe e minha filha mais velha marcaram uma consulta psiquiátrica para ver se eu sabia bem o que eu tava fazendo. Elas achavam que eu tava fora… que eu tava vivendo alguma fantasia”, conta ela à BBC News Brasil.
Quando o médico afirmou que a paciente sabia o que estava fazendo, as três filhas aceitaram – mesmo que não necessariamente aprovassem, no começo.

“A minha mãe, não. Não se conformou, continuou sofrendo muito. E não aceita ainda até hoje. Ela reagiu super mal, foi bem, bem, bem negativo”, diz Soninha.

A vereadora diz achar que foi mais fácil para a filha do meio, Sarah, que é evangélica. “Uma coisa de abrir os braços e aceitar as pessoas como elas são.”

Soninha não compartilha a religião da filha, mas seu lado espiritual – ela é budista – foi um fator importante para entender e lidar com o novo relacionamento.

A filha mais velha, Raquel, passou a lidar melhor com a situação depois que o novo marido da mãe parou de beber.
“Ele passou pela vivência do ayahuasca (bebida psicotrópica usada em rituais) e parou de tomar pinga. E os relatos da Julia, que mora comigo, de que ele estava entrando em uma outra fase também ajudaram.”

Lidando com o alcoolismo

Antes dessa nova fase, no entanto, o alcoolismo de Paulo gerou uma série de problemas.

“A minha filha caçula viveu a treta toda, porque ela mora comigo. Ela realmente viveu os perrengues. Da gente trancar o Paulo para fora de casa porque ele estava loucão, intratável, então dá escândalo, grita, aí você chama a polícia”, conta ela.

Soninha não só pensou em desistir, como o fez: terminou com Paulo várias vezes.

Ela diz que nunca sofreu violência física, mas “chegou bem perto disso”, a ponto de ficar preocupada com sua segurança.

Seu trabalho fazia com que ela tivesse muito contato com a questão da violência doméstica, mas viver o problema na pele a deu uma nova perspectiva sobre o assunto. “Como é difícil, como as pessoas julgam. A minha sorte é que em todos os momentos em que precisei eu soube como e tinha como pedir ajuda”, diz ela.

Soninha diz que o último término só não foi definitivo porque Paulo realmente fez um esforço para ficar sóbrio. “Eu sei quando alguém está querendo me enganar, mas era o caso. Ele sinceramente estava querendo melhorar”, afirma.
“No começo eu aceitei ajudar, porque ele estava tendo crise de abstinência. Não ia voltar”, conta ela. Mas acabaram voltando. Ela explica com poucas palavras: “Foi o meu amor”.

Hoje, afirma ela, ele também cuida dela. “Ele cozinha, me ajuda a me organizar. Minha casa sempre foi uma zona, com ele lá agora fica tudo arrumado.”

Paulo agora trabalha em um centro de acolhida para pessoas em situação de fragilidade. E já não acha mais novidade andar de metrô, ir ao teatro, ao cinema.

“Outro dia ele estava lendo em voz alta e tanto eu quanto eles ficamos surpresos com a fluidez. Leu sem travar. Antes a leitura dele era truncada”, conta ela.

Vida profissional

A melhora do companheiro veio no momento certo, já que Soninha estava tendo problemas no trabalho.
Na época ela era secretária de Assistência e Desenvolvimento Social da Prefeitura, mas acabou demitida por causa de desentendimentos com seu subsecretário, Felipe Sabará – que era amigo pessoal do prefeito João Doria.

“O Felipe dava ordens diferentes das que eu tinha dado, escondia coisas de mim. O Doria queria as coisas com prazos que não eram possíveis, de maneiras que não trariam o resultado esperado. E o Felipe prometia exatamente isso, mesmo que não fosse viável”, afirma ela.

Depois da sua demissão, Doria fez um vídeo em que dizia que a “demanda” do trabalho não combinava com o “espírito” da secretária. Soninha, ao seu lado, ficava em silêncio.

“As pessoas falam do vídeo, mas, sinceramente, esse vídeo nem foi o que me incomodou. O que me incomodou foram dois meses em que o trabalho foi muito difícil”, afirma ela.

Apesar das rusgas com o tucano (que ficaram no passado, diz ela) Soninha continua tendo um bom relacionamento com nomes do PSDB, como o candidato à presidência Geraldo Alckmin e o ex-ministro José Serra.

São amizades que causaram estranheza quando ela saiu do PT e foi para o PPS, já que o partido recentemente tem sido mais associado ao conservadorismo – e Soninha ficou conhecida por defender ideias liberais, como a causa LGBT e a descriminalização do aborto e da maconha.

“Acho que isso é muito injusto com eles. O governo de São Paulo teve muitos avanços em diversidade”, afirma ela. “Tivemos avanços em direitos humanos. A questão da (brutalidade da) polícia é um problema em todo lugar, não acho que é o Alckmin.”

Acostumada a aparecer nos jornais por questões políticas, Soninha não hesita quando questionada sobre como a história do seu relacionamento afetou sua imagem e sua carreira política.

“Tem dos dois. Quem já não gostava de mim usou isso pra dizer: ‘lá vai a louca, maconheira’. E teve quem entendeu, deu apoio. Nunca deixei de fazer ou falar o que acredito por causa de imagem”, conclui.

E como Paulo lida com tanta exposição? “Varia. Tem hora que ele sente muito orgulhoso de ter a história contada, tem hora que fica um pouco chateado.”

A jornalista falou sobre o lançamento da autobiografia “Dizendo A Que Veio – Uma Vida Contra O Preconceito”, obra que aborda o namoro com o ex-morador de rua Paulo Sérgio Martins, de 43 anos.

Anna Virginia Balloussier
São Paulo

No mesmo 2005, a vereadora Soninha Francine (PPS-SP), 50, conheceu dois tucanos que, para o bem ou para o mal, ganhariam um capítulo à parte em sua vida.

Pois José Serra e João Doria mereceram capítulos literais em “Dizendo a que Veio – Uma Vida Contra o Preconceito” (Tordesilhas, 176 págs., R$ 29,90), livro recém-lançado pela jornalista e ex-VJ da MTV. Com o primeiro, a melhor das relações; com o segundo, nem tanto.

“Esse Tipo de Amigo” é o título das páginas dedicadas à sua relação com Serra.

O primeiro contato foi no Carnaval de 13 anos atrás. Ele, à época à frente do Executivo paulistano, recebeu-a no camarote da prefeitura e se apresentou como um admirador de seu trabalho.

Disse-lhe que queria que fosse candidata a vereadora pelo PSDB, mas ficou decepcionado ao saber que ela disputaria o cargo… pelo PT, seu partido antes de migrar para o PPS.

“Achei o cúmulo”, lembra Soninha no livro. Afinal, ela se julgava de esquerda, e, na sua cabeça, os tucanos seriam o outro polo. Mas Serra jurou que, como ela, pertencia ao lado canhoto da régua ideológica.

A vereadora narra a evolução “daquela amizade inesperada e improvável”. “O Serra me levava em consideração, me consultava, me ouvia. Cheguei a dizer para amigos: ‘Estou apaixonada por ele!’ Burra…”

Já o tucano gostava de sua “espontaneidade”, seus “modos heterodoxos”, sua “sinceridade”, conta Soninha. “O que não quer dizer que não queria me consertar.”

Soninha conta que dele já ouviu: “Mas você é tão bonita, precisa andar com esse tênis horroroso? Penteia o cabelo, passa um batonzinho”.

Tamanha proximidade deu margem para fofocas sobre que tipo de amigos os dois eram. Na obra, ela fala sobre o boato de que eles tinham um caso. “Começaram a falar que eu era amante dele.”

O disse-me-disse foi longe demais, narra Soninha. “Havia um grupo de vereadores que me encarava com aquele olhar malandro, de boteco.” Um deles, Antonio Carlos Rodrigues (PR), chegou a usar a tribuna para fazer uma piada sobre o assunto. “Vocês querem saber onde está o Serra? Perguntem pra Soninha.”

Ela definiu 2010 como “o pior ano de sua vida”. Foi quando editou o site oficial do amigo, que entrava em sua segunda corrida pelo Palácio do Planalto —a primeira, em 2002, perdeu para Lula; nesta, seria derrotado por Dilma.

O eleitorado mais à direita tratava sua posição contra a legalização do aborto “como se fosse a coisa mais importante do mundo”, a esquerda revidou e tascou-lhe a pecha de “reacionário”. Soninha já afirmou, em entrevistas à imprensa, ter feito um aborto.

No meio disso tudo, a “história horrenda da bolinha de papel”, como ela descreve o dia em que Serra foi golpeado por um objeto durante um comício. Soninha reforça a versão serrista para o episódio, de que o dia foi de uma violência incomum. “Formaram um verdadeiro corredor polonês.”

Naquela campanha tão estressante, diz, ela voltou para os 49 kg, o peso de seus 14 anos. “Ouvi muitas vezes: para, Soninha, você defende mais o Serra do que ele mesmo. Sim, sou esse tipo de amigo.”

João Doria

Soninha conheceu João Doria por intermédio de Luana Piovani. Não foi amor à primeira vista.

A atriz a convidara para um jogo de futebol beneficente na mansão do empresário, no Jardim Europa, um dos mais nobres bairros paulistanos. “Entrei e fiquei embasbacada. Mano, o que alguém produzia para ter tanto dinheiro?”
“A entrada do carro já era gigante”, relata Soninha. “Depois dela vinham uma baita casa, campo de futebol, quadra de tênis, piscina e vestiários maiores do que os que eu tinha visto em qualquer academia.”

Era 2005, dois anos antes de Doria, então apresentador do programa “Show Business”, flertar com a política ao criar o Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros –vulgo Cansei.

O evento seria apartidário, mas antes da partida o anfitrião fez um discurso no qual saudou Geraldo Alckmin como “futuro presidente do Brasil”. Soninha não ficou nada contente.

“Eu, serrista que só, achei mais um motivo para não ir com a cara dele”, conta. Na época, Alckmin e Serra eram dois nomes tucanos ventilados para a disputa presidencial de 2006. O primeiro acabou ganhando o direito de ser candidato —e perdendo aquele pleito para Lula (PT).

Foram mais de dez anos até seus caminhos cruzarem de novo. Doria, agora sim, já entrara definitivamente na política: tinha acabado de vencer as prévias para ser o candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo. “Lembro de uma tucana que ficou revoltada: por que o PSDB escolheu justo o candidato que é o mais coxinha?”

O tucano acabou conquistando sua simpatia. Fez campanha para ele e, certo dia, ouviu do novo aliado: “Eu vou ser prefeito, e você vai trabalhar comigo”. Que seja feita a tua vontade.

Soninha topou o convite para ser sua secretária de Assistência Social. Não demorou muito, contudo, para a relação entre os dois degringolar. “A capacidade de ouvir era uma das qualidades que mais me fizeram gostar de Doria, e que ele vinha perdendo velozmente.”

Também não havia química entre ela e Filipe Sabará, seu adjunto na pasta. Doria o tratava como queridinho, Soninha concluíra. “Eu dizia que não era possível resolver problemas complexos tão rápido, ele garantia que era.”
No livro, ela desvincula o desgaste no relacionamento com Doria ao dia em que o chefe criou a “Lei Soninha” para quem chegasse atrasado nas reuniões do secretariado.

Era um evento de limpeza urbana, quando o então prefeito e seus secretários se vestiram de garis antes do nascer do sol. “Nervosa”, ela queria levantar às 4h30, mas apagou. Quando despertou, já eram 6h.

Um dia, Doria a chamou para voltar à mansão que conhecera uma década antes, levada por Luana Piovani. Desta vez, para ser dispensada pelo ex-apresentador da versão brasileira de “O Aprendiz”, o programa do bordão “você está demitido!”, consagrado por Donald Trump.

Para demiti-la, Doria propôs gravar um vídeo. Soninha estava ao lado do prefeito na gravação e na hora não falou nada. “Eu não desfaço a cara de tristeza, o meu desapontamento”, diz no livro.

Adriana Farias

A vereadora Soninha Francine (PPS) lança sua autobiografia Dizendo a que veio – uma vida contra o preconceito (Editora Tordesilhas) na quinta (9), na Livraria da Vila, na Alameda Lorena, 1731. Na obra, a ex-apresentadora e ex-secretária de assistência social da prefeitura aborda o namoro com o ex-morador de rua Paulo Sérgio Martins, de 43 anos, e outras polêmicas vividas ao longo de seus 50 anos de idade.

Confira abaixo a entrevista:

Amor difícil

“Eu revelo a parte dura do relacionamento, a que a minha vizinhança conhece, a dos conflitos”. Paulo interrompe e diz: “Quando eu estava chapadão né. Você acha que uma pessoa que morou 20 anos na rua vai ficar de boa numa casa?”. Soninha acena com a cabeça e prossegue. “As pessoas acham curioso o começo, se espantam, conheceu na rua? Sentiu atração por ele? ‘Ai que lindo foram morar juntos’, dizem. Lindo? Namoramos há quatro anos e nos dois primeiros foi bem difícil pelo fato dele ser alcoólatra. Cheguei a um ponto de precisar chamar a polícia e ir para delegacia várias vezes porque ele chegava bêbado em casa, agressivo e ameaçando. Eu não queria que chegasse ao ponto de um dia ele me machucar. Também foi complicada a aceitação por parte da minha família e amigos. Minha mãe imaginava coisas horrorosas até que iria me encontrar morta dentro de casa. Achavam que eu tinha perdido totalmente a noção e me exigiram fazer uma consulta psiquiátrica [não foi identificado sinais de doença mental].

Paulo já está há um ano e meio sem beber graças a um tratamento com ayahuasca que fez em um sítio em Juquitiba. A gente pensa em fazer os votos de casamento em um templo budista.”

Demissão por João Doria (PSDB)

“João Doria não via minha autoridade e só dava ouvidos ao Filipe Sabará, então adjunto e hoje titular da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social. Por eu ser mulher, o trato era ruim. Até as três mulheres de confiança que o Filipe chamou para compor a equipe também foram embora. Ele prometia ao prefeito resultados e números em pouco tempo e eu dizia que não era possível. Exemplo: empregar 20 000 moradores de rua em um ano, sendo que cada um tem sua complexidade. Foi uma convivência interna terrível. O prefeito queria que eu escrevesse uma carta dizendo que eu preferia voltar para a Câmara, mas não era verdade, eu queria continuar na secretaria mesmo sofrendo horrores. Aí a gente fez o vídeo da demissão [em abril de 2017], mas eu achei má ideia. Eu estava com aquela cara de bunda e já tinha chorado algumas vezes de raiva e frustração porque mal havia começado na secretaria. O fato de ser casada com um ex-morador de rua pesava contra mim. Eu tinha alguns indícios de que o Filipe dizia isso para o prefeito de que eu não tinha condição de separar as coisas. O Doria falava isso para mim às vezes como qualidade pela sensibilidade e coração, mas que atrapalhava o serviço por eu ser humana demais. A imagem que o Filipe projetava para o prefeito é que ele era um cara prático, da resolutividade, e eu tinha essa coisa emocional.”

José Serra (PSDB)

“Até hoje acham que a gente teve um caso, mas nada passou de uma amizade intensa. Uma amizade improvável por tudo, pela diferença de idade, estilo, partido, lugar. No começo eu o detestava tanto que quando ele aparecia na TV eu colocava chifrinhos na cabeça dele. Mas ele me surpreendeu com suas decisões políticas. Enquanto prefeito tucano abriu um CEU em Heliópolis, um reduto petista.”

Saída do PT em 2008

Hoje, a bancada do PT na Câmara tem uma postura um pouco mais consequente do que tinha antes muito em função da liderança. Hoje, o PT tem um líder que é o Antônio Donato, que foi presidente da Câmara na gestão Fernando Haddad (PT) e já na minha época ele era um lastro de sensatez. Naquela época a liderança da bancada era muito radical do tipo ‘a gente tem que ferrar os tucanos’. Era o João Antonio que hoje é o presidente do Tribunal de Contas do Município. E que instituição é essa, né, que tem cinco conselheiros nomeados politicamente e não são cargos de carreira. O mais importante era que o governo do PSDB não tivesse sucesso, não desse bons resultados, enxergavam esse como sendo o papel da oposição. O PSDB era o mal que não poderia prosperar porque se não as pessoas iam achar que o PSDB era bom. Muitos vereadores tinham esse pensamento. O Donato, que foi meu colega, muitas vezes baixava a bola e eu lembro ele dizer em reunião de bancada: ‘Gente, nós já fomos governo. A gente sabe que não dá para ser assim’. A nossa bancada era muito inconsequente e a gente não estava nem aí. Se desse errado era melhor. Agora eu vejo que a bancada do PT ainda faz um discurso de oposição contundente para marcar posição, isso é forte no PT, mas eles não levam isso as últimas consequências, eles aceitam modificações no texto, não é tanto aquele de 2005 a 2008 do somos contra de qualquer jeito e vamos atrapalhar no que puder.

Maconha

Militantes políticos, de direita e de esquerda, quando eles se sentem afrontados por alguma coisa que eu digo já vem a ofensa de ‘maconheira retardada’. [Em 2001, Soninha deu uma entrevista falando que usava maconha. Ela foi demitida da TV Cultura e o programa que apresentava tirado do ar]. O MBL perguntou para o Doria porque escolheu essa ‘maconheira comunista’ para trabalhar com ele. É impressionante como isso afeta as pessoas, como guardam, deixam isso reservado numa hora de conflito e divergência. Fico chateada quando vem da esquerda. Neste mandato não aconteceu de vereadores me xingaram, já no outro (2005 a 2008) diziam: ‘o que esperar de alguém que fuma maconha?’. [No livro, Soninha diz que deixou de fumar em 2003]. A maconha a ser fumada não é tão ruim para sociedade quanto o fato dela ser vendida por bandidos, isso precisa ser dito até hoje, o uso da maconha não transforma uma pessoa em alguém horrível, criminoso, fora da lei, depravado. Faz mais mal a maconha ser monopólio do crime, que controla a produção e a venda.

Outros tópicos

No livro, Soninha também fala sobre a gravidez na adolescência, a luta contra uma depressão, o envolvimento com o budismo, como a experiência no curso de cinema da USP foi valiosa para sua formação política e a leucemia enfrentada por Julia, 21, uma de suas três filhas.

A Soninha conversou por quase uma hora com o jornalista Marcelo Bonfá. O “Pingue-Pongue com Bonfá” abordou a vida pessoal da vereadora, família, namoro, carreira política e muito mais!

Parte I

Parte II

Parte III

No fim de maio, os vereadores de São Paulo aprovaram um projeto de lei que prevê dois benefícios a eles mesmos e aos demais servidores da casa: um auxílio-saúde de 180 reais até 1 079 reais, dependendo da idade, e um auxílio-alimentação para os servidores de 573,45 reais.

O projeto é de 2013, mas foi reapresentado agora na forma de um texto substitutivo. O impacto nos cofres da Câmara Municipal, cujo orçamento anual é de 500 milhões de reais, será de 38 milhões de reais por ano.

Os benefícios foram aprovados pelos vereadores por 32 votos a 8.

O texto previa ainda um reajuste da gratificação especial para os 145 servidores com os maiores salários da casa, no valor de 16 000 reais. Com isso, eles receberiam remunerações de até 40 000 reais. No entanto, essa parte do projeto foi vetada em junho pelo presidente da Câmara Milton Leite, quando ele ocupou o cargo de prefeito em exercício. Os outros dois benefícios, auxílio-saúde e auxílio-alimentação, foram sancionados por ele.

O auxílio-alimentação é automático, e será depositado na conta dos servidores, e o auxílio-saúde será pago como reembolso – o servidor ou o parlamentar devem solicitá-lo à secretaria da Câmara.

Na época da aprovação, a assessoria da Presidência da Câmara Municipal de São Paulo divulgou a seguinte nota: “Os benefícios previstos no substitutivo ao PL 152/13 foram um pedido do sindicato dos servidores do Legislativo. O auxílio-saúde foi pleiteado também pelos vereadores, sendo assim incorporado mediante solicitação individual dos parlamentares”.

Veja como cada vereador votou:

A favor

1. Adilson Amadeu (PTB)
2. Adriana Ramalho (PSDB)
3. Alfredinho (PT)
4. Amauri Silva (PSC)
5. André Santos (PRB)
6. Arselino Tatto (PT)
7. Atílio Francisco (PRB)
8. Celso Jatene (PR)
9. Conte Lopes (PP)
10. Dalton Silvano (DEM)
11. David Soares (DEM)
12. Edir Sales (PSD)
13. Eliseu Gabriel (PSB)
14. Fabio Riva (PSDB)
15. Gilson Barreto (PSDB)
16. Isac Felix (PR)
17. Jair Tatto (PT)
18. João Jorge (PSDB)
19. Milton Ferreira (Pode)
20. Milton Leite (DEM)
21. Noemi Nonato (PR)
22. Ota (PSB)
23. Patrícia Bezerra (PSDB)
24. Quito Formiga (PSDB)
25. Reginaldo Tripoli (PV)
26. Reis (PT)
27. Ricardo Nunes (MDB)
28. Ricardo Teixeira (PROS)
29. Rodrigo Goulart (PSD)
30. Sandra Tadeu (DEM)
31. Toninho Paiva (PR)
32. Zé Turin (PHS)

Contra

1. Eduardo Suplicy (PT)
2. Fernando Holiday (DEM)
3. Janaína Lima (Novo)
4. José Police Neto (PSD)
5. Paulo Frange (PTB)
6. Sâmia Bomfim (PSOL)
7. Soninha Francine (PPS)
8. Toninho Vespoli (PSOL)

Em março de 2014, Paulo Sergio ainda morava em sua maloca debaixo do Viaduto Presidente João Goulart, na Praça Marechal Deodoro, região central de São Paulo. Apaixonado por cantar pagode, era chamado pelos outros 11 amigos com quem dividia o espaço de Dig Dig, por causa da música Somente Você, do Raça Negra (Dig, dig, dig iê…).

Sua maloca tinha como teto o concreto do Minhocão. Ele diz que, apesar de tentar manter o asseio limpando a calçada, as coisas que mais detestava fazer eram tirar a barba e tomar banho.

No fim de uma tarde Soninha Francine – hoje vereadora paulistana pelo PPS – chegou na maloca e começou a conversar com seus amigos. Paulo, bêbado como sempre, observava. No início, não gostava dela e a chamava de “baixinha, sapatão e folgada”.

O sentimento virou afeição. Um dia, ela pediu a Paulo que a acompanhasse até o ponto de ônibus. Ele estranhou. Lá, se abraçaram, e ele pediu um selinho a Soninha, que retribuiu. “Ela chegou na maloca e eu lá, todo feio, com barba grande, falhada, e preta.” Passou a noite toda pensando nela, sem imaginar que havia beijado a futura secretária municipal de Assistência Social e ex-VJ da MTV.

Paulo Sergio Rodrigues Martins, de 42 anos, nascido no Paraná, só conversou com a reportagem a pedido de sua companheira Soninha, de 49 anos. Foram dois encontros. O primeiro na casa em que eles moram, na Pompeia, zona oeste – que dividem com a filha mais nova de Soninha, de 20 anos, dois cães e cinco gatos. O segundo foi na Câmara, enquanto ela estava no plenário. Ele ficou pouco à vontade nas entrevistas.

Tem dificuldades com datas e em recuperar eventos, já que ficou cerca de 20 anos nas ruas, entre idas e vindas da casa da mãe, e sempre bebendo muito. “Não sei o quanto bebia. Ficava nessa vida: acordava com pinga, dormia com pinga, não comia nem dormia direito.” Não se lembra, por exemplo, da sua primeira noite na rua, embora lembre a primeira vez em que bebeu álcool: aos 17 anos, em um pagode com seus primos mais velhos, que já usavam cocaína.

Morar na rua foi algo gradual. Começou a sair para beber e usar drogas na sexta e só voltava na segunda para a casa. Quando chegava muito mal, a mãe não o deixava entrar. Acabou não voltando mais e fazendo parte do grupo de mais 16 mil pessoas que vivem nas ruas na cidade. Não gosta de albergues, seja pelas filas, regras de horários, impessoalidade ou a restrição da autonomia, sem falar nos furtos.

Tem dois filhos, com 17 e 18 anos, e voltou a vê-los com mais frequência após a reabilitação. Nos seus 20 anos de rua, fez bicos esporádicos em obras. Não gosta de falar sobre o passado, mas conta que já viu vários amigos morrerem de frio, e também a história sobre um que morreu em seus braços, esfaqueado por dívida de drogas. Paulo divide o mundo entre o lado de dentro e o de fora. O lado de fora, diz ele, tem uma grande lição às pessoas: serem mais solidárias.

Após o beijo no Minhocão, começaram a namorar escondidos. Até que ela decidiu levá-lo para sua casa. A relação era conturbada pelo consumo excessivo de álcool por Paulo. “Todo dia tinha briga. Não cheguei a agredir fisicamente, mas de falar ‘abobrinhas’. No dia seguinte me arrependia”. Foram três anos de tentativas e recaídas. Paulo já tinha tentado internação, recorrido ao Centro de Atenção Psicossocial e a remédios. “Internar não é para mim. Tomar remédio é o mesmo que nada. Aqui na esquina tem bar: ia tomar remédio e cachaça ao mesmo tempo”.

Paulo tinha crises de enxaqueca, por beber demais ou pela abstinência, e até convulsões. Após três anos de pressão dos familiares e amigos, Soninha, no começo do ano, terminou com ele e proibiu que a visitasse na secretaria municipal.

Ele foi levado por um amigo a tomar chá de ayahuasca em um sítio em São José do Rio Preto, no interior paulista, do grupo Mentes Livres, que faz tratamento terapêutico especializado em dependência química. “É muito gostoso. A coisa mais importante e mais impressionante de tudo de bom que aconteceu na minha vida é esse chá”, afirma. Não sentiu os efeitos da bebida na primeira vez, mas se sentiu mais aliviado. Voltou para Soninha e começou a tomar remédios para abstinência. Foi passar uma semana em tratamento com o chá, mas ficou um mês. “Tomei o chá, e ele foi mostrando as coisas mais ainda. Tentava vomitar o mal que tinha em mim e não saía nada.” Na última vivência diz ter chorado, vomitado mais de 20 vezes, suado. Trouxeram um copo d’água para acalmar, mas ele confundiu com pinga.

Paulo jogou a água no fogo, e saiu jogando tudo que se parecesse com pinga na fogueira. Após o ritual, ele disse que havia perdido totalmente a vontade de beber.

E faz mais de quatro meses que não tem recaída. Diz que hoje entra em bar e pede tranquilamente só um café. Os voluntários do Mentes livres recomendam “manutenção” com o chá a cada 15 dias, o que Paulo faz acompanhado de Soninha, que experimentou há pouco o chá pela primeira vez.

Das ruas sente falta só dos amigos e dos pagodes. Questionado sobre como ficaria a vida sem Soninha, responde: “Difícil… Consigo imaginar, sabe como? Lá para fora (e aponta para a janela). Sem ela, não sei… Posso ficar na rua, mas de um jeito diferente. Vou procurar coisas melhores. Não vou voltar para o álcool.”

Ele se divide em acompanhar a vereadora e trabalhos de pedreiro na casa de conhecidos dela. Os 20 anos de uma vida resumida ao imediatismo da próxima dose ou prato de comida talvez dificultem planos de médio e longo prazo. “Meu sonho é trabalhar e construir uma família, ficar sossegado com a Soninha. Quero progredir, estou planejando voltar a estudar. Meu passado eu não quero mais não”.

Paulo também gosta de acompanhar os debates no plenário da Câmara, embora admita que não entende quase nada do que é dito. Ao se dirigir até a grande janela que dá para o Viaduto Jaceguai, na frente do Legislativo, ele diz: “Há uns dez anos eu dormia ali, jogado na frente daquela mureta branca. Nunca imaginei que um dia entraria neste prédio”.

RAFAEL ITALIANI
DA REDAÇÃO

Parte dos integrantes da nova Mesa Diretora da Câmara Municipal de São Paulo tomou posse na tarde desta segunda-feira (1/1). O vereador Milton Leite (DEM) foi reeleito presidente da Casa no último dia 15 de dezembro, com 47 votos. O ato também teve a presença do vice-presidente do Legislativo, Eduardo Tuma (PSDB), do 2º vice-presidente, Rodrigo Goulart (PSD), e da 1ª suplente Soninha Francine (PPS).

Para conduzir as atividades do Legislativo no próximo ano, o democrata disse que pretende prosseguir com ações que garantam a economia dos recursos da Câmara. O objetivo é que o dinheiro possa ser investido em outras áreas, como Saúde e Educação.

Leite destacou os trabalhos da Casa em 2017 e quer dar celeridade a projetos importantes em 2018, como as alienações do Autódromo de Interlagos e do Complexo Anhembi (é necessária uma segunda norma com os parâmetros urbanísticos da área), além da concessão do Serviço Funerário da cidade, e o Arco Jurubatuba, na zona sul. “Esta Casa estará borbulhando a partir de fevereiro”, afirmou o presidente da Casa.

Economia

Em 2017 a Câmara economizou cerca de R$ 90 milhões na gestão do Palácio Anchieta. O dinheiro foi devolvido aos cofres municipais e será utilizado em investimentos na área da Saúde. O democrata enalteceu o trabalho de contenção de gastos. “Esperamos economizar algo mais no Orçamento de 2018”, disse Leite.

Trocar os vasos sanitários, lâmpadas, e melhorar o sistema de ar-condicionado para deixar a Câmara mais sustentável, reduzindo os custos financeiros. Essa é a bandeira da vereadora Soninha. Ela afirmou que pretende buscar o apoio da Mesa Diretora e de outros gabinetes para modernizar o prédio.

“Eu sempre fui intrometida, sempre gostei de estudar as pautas da Mesa Diretora. Agora vou participar disso. Uma das minhas obsessões é tornar o prédio sustentável. Sozinha não tinha condições de fazer isso”, disse a parlamentar. “O gasto de uma descarga de um vaso sanitário antigo é o quádruplo das novas”, disse, como exemplo.

Ela terá o apoio de Goulart. Veterinário por formação, o político também milita por causas ambientais. “A Soninha sempre dá grandes opiniões para gente. Outros vereadores também estão preocupados com a sustentabilidade, como o Reginaldo Tripoli (PV). Acho que essa é mais uma das bandeiras que podemos defender na Mesa Diretora”, afirmou.

Eduardo Tuma

O vereador Eduardo Tuma pretende trazer mais novidades para a Câmara a partir de 2018. A meta do tucano é trabalhar em conjunto com o Governo do Estado para instalar no prédio um posto do Poupatempo e outro da Polícia Civil.

“Seriam abertos para a população em geral. Na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) já existe um posto da polícia, que está em funcionamento. O plano é para 2018, mas precisamos esperar a determinação do presidente Milton Leite”, disse. Os trabalhos no Plenário do Legislativo Paulistano serão retomados no dia 1º de fevereiro.

Veja a composição da nova Mesa Diretora

Presidente: Milton Leite (DEM)
1º vice-presidente: Eduardo Tuma (PSDB)
2º vice-presidente: Rodrigo Goulart (PSD)
1º secretário: Arselino Tatto (PT)
2º secretário: Celso Jatene (PR)
1º suplente: Soninha (PPS)
2º suplente: George Hato (PMDB)
Corregedoria: Souza Santos (PRB)

ANDREA GODOY
DA TV CÂMARA

Médicos, pesquisadores e pacientes que defendem o uso medicinal da Cannabis participaram do “Fórum de Cannabis Medicinal”, realizado na Câmara Municipal de São Paulo, nesta segunda-feira (11/12). O objetivo é discutir o direito à saúde com a utilização legal da substância.

No Brasil, a utilização medicinal da maconha está restrita a um único remédio à base de Cannabis, que é importado e foi liberado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, e a poucas famílias que obtiveram habeas corpus preventivos para fazer o plantio e uso medicinal da erva sem o risco de prisão.

Para ampliar o uso da maconha medicinal, médicos, pesquisadores, pacientes e sociedade civil organizada discutem sobre a necessidade de uma regulamentação. O designer Gilberto de Castro, que sofre há 20 anos com esclerose múltipla, conta que melhorou muito com o uso da substância.

“Por causa das dores da esclerose múltipla eu uso a Cannabis para aliviar e ela também tem se mostrado eficiente no controle da evolução da doença. Em 2014 eu estava de cama e só andava de cadeira de rodas (…) Parei com todos os medicamentos de farmácia e estou usando só Cannabis e quimioterapia normal para conter a evolução da esclerose múltipla. Hoje estou andando”.

No Fórum, pesquisadores mostraram que a maconha sempre foi utilizada de forma medicinal na história, mas que no século passado passou a ser marginalizada. Também foram apresentadas pesquisas que comprovam os benefícios da erva no controle de sintomas de doenças.

A médica Paula Dall’Stella, pós graduada em neuro-oncologia, defende o uso. “A Cannabis é uma planta com mais de 500 compostos químicos, entre eles 120 canabinóides, que tem uma interação sinérgica entre si”.

A médica psiquiatra e psicanalista Eliane Guerra Nunes afirma que há muitos estudos a esse respeito. “Na área da psiquiatria existem vários trabalhos e artigos, inclusive brasileiros, que falam que é bom para a depressão, como antipsicótico, neuroprotetivo e antioxidante”.

A vereadora Soninha Francine (PPS), que trouxe o debate para a Casa, destacou o papel do Legislativo em fomentar a discussão.

“Eu acho que o Parlamento é o lugar onde a gente tem que ter espaço para debater todos os assuntos, não necessariamente aqueles que são ligados à esfera municipal. A gente tem que garantir o direito, a possibilidade de produzir no Brasil, de processar, fazer outros estudos e pesquisas. A almejar, inclusive, que ele passe pela Conitec, que é a Comissão do Ministério da Saúde que avalia e autoriza a entrada de novos medicamentos e novas tecnologias”.

Morris Kachani

João Doria, o prefeito de São Paulo, montou um bom time de secretários mas nenhum deles consegue despachar a sós com o chefe, pois ele só quer saber de soluções imediatas, que costuma cobrar em reuniões coletivas. O prefeito tem aversão a problemas e também se impacienta com assuntos de Direitos Humanos. Na Cracolândia, montou uma operação “destrambelhada”. É, enfim, um gestor obsessivo e com força de vontade, mas que peca pelo excesso de auto-confiança, nesse sentido se parecendo até com Trump.

Estas todas são todas considerações da vereadora Soninha Francine (PPS), 49 anos, que confessa que sentiu rejeição por João Doria no início, mas encantou-se quando o conheceu pessoalmente, ainda durante a campanha. Foi seduzida para assumir a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social e três meses e meio depois, em abril, demitida pelo próprio. O vídeo em que Doria anuncia sua saída acabou sendo considerado constrangedor por muitos e virou objeto de polêmica.

Soninha recebeu este blog para uma entrevista, e ao fim da conversa apresentou seu parceiro Paulo Sergio Rodrigues Martins, de 41 anos. Natural do Paraná, por 20 anos Paulo Sergio morou nas ruas e praças de São Paulo, Rio de Janeiro e Santos. Eles se conheceram há cerca de quatro anos em uma ação social organizada por Soninha e dois amigos seus. A proposta era de que os participantes criassem vínculos de afeto e amizade com a população marginalizada.

Nestes encontros, Soninha acabou se apaixonando por Paulo Sergio que segundo ela, estava completamente imundo e com a barba emaranhada. O primeiro beijo romântico, conta ela, foi debaixo do Minhocão. Paulo Sergio, que vivia na praça Marechal Deodoro, passou a morar com Soninha e sua filha mais nova, Julia, de 20 anos. O casal passou por uma trajetória de mais baixos que altos, enfrentando problemas como o alcoolismo dele ou a rejeição da família dela.

Hoje, na visão de Soninha, as dificuldades parecem estar sendo deixadas para trás. Paulo não bebe há quatro meses e aos poucos o círculo social e familiar se constrói em torno do casal. Soninha, que medita duas vezes por dia e é adepta do budismo de tradição tibetana, costuma levar o parceiro ao templo todos os domingos. “Antigamente ele gostava mas não tinha paciência, só aguentava 5 minutos. Hoje ele até medita!”, conta a vereadora.

O casal ficou em dúvidas sobre quem deveria contar a história de seu encontro, mas Paulo Sergio preferiu que Soninha desse sua versão em um primeiro momento. Combinamos que Paulo Sergio nos daria uma entrevista exclusiva para contar a história de sua vida e desse amor que rompeu barreiras sociais, em um segundo momento.

Antes de mais nada, poderia apresentar seu parceiro?
Ele é o Paulo Sergio, meu companheiro. Eu conheci o Paulo faz uns quatro anos, gostei dele no dia que o conheci, e ele foi bem antipático comigo, foi bem refratário ao contato.

Como foi que se conheceram?
Eu participava de um trabalho social com população de rua, e o método e o objetivo era fazer amizade. Então a gente saía pela rua puxando assunto, puxando conversa, fazendo amizade. Não tínhamos essa meta original de tirar as pessoas da rua, das drogas, de reaproximá-las da família. Isso podia surgir, mas era primordialmente uma relação de amizade. O amigo tá ali pra falar, ouvir, fazer companhia. E aí algumas amizades nasciam fácil, no primeiro contato a gente já ficava bem próximo, tinha uma empatia fácil. Mas quando eu conheci o Paulo, ele não queria conversa, nada, nem um pouco. Me olhou feio, feio!

Como ele estava, o Paulo?
Ele morava na rua.

Onde ele morava?
Marechal Deodoro, na Praça da Sé, Rio de Janeiro, Santos, Santa Cecília, no Brasil todo… Vinte anos de rua.

Vinte anos de rua! Mas ele tava bem?
Tava “bem Johnson”.

“Bem Johnson”?
Tava péssimo! Cara, e aí eu pensei: “Vou derreter essa carapaça“. Quanto o encontrei, ele estava imundo. Em estado lamentável, com a barba toda emaranhada. Era o protótipo do morador de rua. Ele estava ostensivamente largado.

Ainda assim, você se apaixonou?
No primeiro dia, nem ele se conforma.

Você viveu na pele a temática do morador de rua.
Ah sim, eu me apaixonei por ele, do jeitinho que ele tava. Não é que eu bati o olho e me apaixonei, mas ele mexeu comigo. Me tratou mal daquele jeito, e eu pensei: “Ah beleza, tá tudo bem, não quer conversar“. A gente lidava com isso o tempo todo quando chegávamos pra conversar com alguém. Tem horas que o cara não quer conversa. Isso fazia parte da nossa ação. O projeto se chamava Ação Bodhisattva [No budismo tibetano, bodhisattva é um dos quatro estados sublimes que se pode alcançar em vida exercendo a compaixão.].

Ação Bodhisattva? Era um projeto budista mesmo?
De certa forma sim. Era um projeto meu e de dois amigos. A gente se conheceu no templo budista.

E daí, o que aconteceu?
Ele me olhava com aquela cara muito feia, não me dava a menor confiança. A gente tinha um caderno pras pessoas escreverem uma lembrança. Aí ele perguntou: “O que é que tem aí? O que vocês fazem aí?“. Eu contei que a gente anotava as lembranças, o que as pessoas quisessem escrever. Perguntei se ele queria escrever: “Não, eu escrevo muito mal. Eu falo e você escreve”.

Ele é analfabeto?
Não, ele dizia que lia mal mas quando fui ver, percebi que ele lê direito. Mas continuando, aí ele recitou um poema, e falou que foi sua irmã que o havia escrito. Era um poema sobre a saudade. Foi a primeira brecha que ele deu. Fiquei muito tocada por ele, muito mexida. Aí eu tive que admitir pra mim mesma que eu tava ficando a fim do cara, né? Aquela coisa.

Como foi o primeiro beijo? Na rua, na sua casa?
É… Ah gente, ele morava na rua, eu encontrava ele na rua. Nosso primeiro beijo romântico foi debaixo do Minhocão [risos]. E é isso, tô com ele há três, quatro anos. Com poucos altos, muitos baixos. Muito, muito problema, muita dificuldade, muita, muita, muita, muita.

Que tipo de dificuldade?
Ah, dificuldade de alcoolismo, né? É muito difícil. E não é só a dependência física, mas a sua vida social todinha gira em torno de uma garrafa de pinga, entendeu? Todos os seus relacionamentos, toda sua rotina, toda manhã, tarde, noite. Você mudar o relacionamento é muito difícil.

Quando você o levou para sua casa?
Demorou um tempo. Hesitei muito. Era um cara super impulsivo, de emoções extremadas. Na rua a gente já tinha desentendimentos. Mas a gente tinha que namorar em algum lugar. E criei coragem.

Vocês brigam bastante?
Teve um tempo em ele que ficava de castigo, dormia no carro. É difícil brigar com alguém que não tem endereço. Mas agora dá pra dizer que a gente está junto, porque agora ele parou de beber. Foram muitos anos de pinga. Da hora que acordava até a hora que dormia.

E os padrões de higiene?
Quando começamos a namorar higiene não era um problema, nunca. Abraço as pessoas como elas estiverem. Mas assim que ele tomou banho, depois de sei lá quanto tempo, não conseguiu mais se acostumar a não tomar banho.

Você chegou a dormir na rua?
Cheguei a cogitar. Sempre tive essa intenção de dormir na rua, pra sentir na pele.

Quem mora com vocês?
Minha filha mais nova, a Julia. Algumas coisas ainda são difíceis. Mas agora tá muito legal, muito legal. Mas foi sofrido.

Como foi o primeiro dia dele em sua casa?
Ele se olhou no espelho pela primeira vez, viu seu aspecto, e me disse: “Meu Deus, como você foi gostar de mim?”. Hoje ele se cuida, curte passar um gel no cabelo, anda cheiroso, usa calças legais. Ele até pega no meu pé com o jeito que eu me visto. Joga fora tênis velho, esconde meus moletons. Mudei meu jeito de vestir por causa dele, comecei a prestar mais atenção. Hoje me olho mais no espelho.

Existe um abismo cultural entre vocês?
Tinha um abismo de experiências culturais muito grande. Ele nunca tinha visto uma peça de teatro, nunca tinha ido ao cinema. A sensação que eu tinha era de que estava com um matuto pela primeira vez na cidade. A experiência urbana dos moradores de rua é muita intensa. Eles são informados, assistem TV, lêem jornal. Mas quando saem de seu circuito, parece que estão conhecendo a cidade pela primeira vez. Paulo observa as coisas com um olhar de espanto, como se fosse o olhar de uma criança. Ele fala as coisas com espontaneidade, o que às vezes pode ser inconveniente. Por mais vivido e calejado que seja, ele tem um olhar inocente. É capaz, por exemplo, de soltar um comentário irreverente sobre o chapéu de uma moça no elevador.

Que tipo de programa vocês gostam de fazer?
Adoramos ficar em casa, assistir TV e ouvir música. Ele adora as séries de TV, ele não conhecia, não tinha acesso, e está encantado. Por causa dele eu assisto os seriados dublados. Também é doido por novela. Comecei a ver novelas por sua causa.

E a família dele?
Fomos na casa da mãe. Ela ficou dois anos sem notícias suas. Comentou que quando via cenas da cracolândia, ficava apavorada, imaginando seu filho ali.

Ele teve problemas com crack?
Muito residual. Foi mais alcoolismo.

Você falou de muitos baixos. Por que?
O alcoolismo. Quem bebe fica desagradável. Ele chegava a ser rude comigo na frente de outras pessoas. Completamente injusto. Meus amigos não suportavam. Só amando muito para aguentar, ou sendo um budista paciente.

O que sua família achou?
Eu passei a saber como é você ser lésbica, por exemplo, e a sua família não aceitar a sua homossexualidade de jeito nenhum. Era assim que eu me sentia. Eu tenho um relacionamento, mas eu não posso levar meu cônjuge na reunião da família. A família não aceita, ela abominou, me esconjurou. E ele não fazia nada para facilitar. Foi muito difícil com minha mãe, quase tudo foi difícil com ela.

Até hoje?
Não, agora tá… melhorou, melhorou. Faz quatro meses que ele parou de beber, então isso muda tudo, completamente. Eu estava por um triz de não aguentar mais.

E suas filhas?
O que doeu foi minhas filhas terem tido total rejeição. Eu entendo, estavam preocupadas comigo, tinham medo por mim. E eu falava pra elas que eu também tinha, que eu não estava viajando, achando que tinha encontrado uma pessoa super equilibrada. Elas realmente acreditavam que a mãe tinha enlouquecido.
Julia é a que mais tinha razão, porque vivendo comigo passou por um milhão de perrengues. Perrengues do tipo ele beber e ficar estúpido, ignorante. De eu botar ele pra fora de casa e ele fazer escândalo na rua, show de horror.

Ele tá trabalhando?
Tá fazendo uns bicos por enquanto, estamos em busca de ocupação fixa.

Como essa relação te transformou?
Mudei bastante em algumas coisas, não no jeito de ser, mas no de fazer, de cuidar da casa. Lavar louça logo depois de comer é algo que aprendi com ele, porque ele é muito bom faxineiro, me põe na linha nisso.

Como ele era quando o conheceu e como ele está hoje?
Ele era o maloqueiro mais sujo da roda, mas sempre teve uns cuidados com a coisa do banheiro. Lembro que no comecinho do namoro ele jogava o guardanapo no chão, esse tipo de coisa. Um dia o vi colocando a caixinha de chiclete no bolso e não no chão, foi uma conquista.
Quando morava na rua, ele cuidava de quase todos, mas dele mesmo não. Cuidava dos amigos maloqueiros, por exemplo, ajudando a administrar remédios controlados. Isso me tocou bastante. Até hoje a gente encontra seus amigos, ali na Marechal, embaixo do Minhocão.

E como está agora?
Agora que ele parou de beber tenho uma relação que me faz bem.

O que ele achou de sua demissão da Prefeitura?
Achou que fui sacaneada [risos]. Com razão.

Por que acha que foi demitida?
O Prefeito me cobrava sobre a implementação de novos projetos, e eu contava das dificuldades, mas não era isso que ele queria ouvir. Ele só queria os avanços, não os problemas. Isso é uma dificuldade de todo o secretariado com o prefeito. Ele não despacha com os secretários, não existe a oportunidade de sentarmos com o prefeito e dizer que estamos passando por alguma dificuldade.

E o vídeo da sua demissão? Achei ele meio chocante.
Obrigada. Mas sabe que pra mim, o que me deixou mal foi a demissão em si, o anúncio já não me abalou.

Não houve uma deselegância no modo como foi feito esse anúncio? Por que você aceitou que acontecesse dessa forma?
Eu acho que foi pretensioso querer passar para as pessoas a ideia de: “olha, estamos nos separando aqui numa relação profissional, mas continua tudo bem, pessoalmente”. Eu não fazia ideia de que o anúncio fosse ser assim. Aliãs, eu nem fazia questão de gravar um vídeo, ele que propôs.

O que você acha do Doria?
[Longo silêncio] Eu acho que ele se perdeu na autoconfiança. Tem uma medida de autoconfiança que é essencial, mas se você passa do ponto, aí você não escuta mais ninguém, você só escuta aquilo que confirma o que você já pensava.

Essa coisa dele se vestir de gari, não-sei-o-que mais, você acha legal?
Eu não achava legal. Parece bem sincero ele querer demonstrar que é um trabalhador que põe a mão na massa e que não é um cara de gabinete que vive nas nuvens. Ele vai lá e sabe qual é. Mesmo respeitando essa convicção dele, eu acho ruim porque não é verdade. A gente pode demonstrar todo o respeito pelos garis participando de um mutirão e vestindo as luvas, as botas, a proteção. Não precisa vestir o uniforme de gari.
Por outro lado, eu vi que pras pessoas o prefeito vestir o uniforme delas era importante, elas se sentiam prestigiadas.

Continuando sobre ele, em um espectro ideológico, ele seria um cara de direita no final das contas?
Não sei se ele é conservador, eu acho que ele é… Nas pautas de comportamento, que normalmente são usadas como baliza, ele não é um cara conservador, ele não tem dificuldade com temática LGBT, temáticas de direito das mulheres, mas na parte da pauta dos direitos humanos de um modo geral, a impressão que dá é que ele não tem muita paciência: “Não me venham com teoria, quero saber na prática o que a gente vai fazer”.

Você acha que ele conhece a cidade hoje?
Eu vejo que ele conhece a cidade sim, mas não conhece as pessoas tanto assim. Acho que ele não percebe todas as nuances, até porque foi eleito em primeiro turno.

Você acha que ele é um bom nome pra presidência do Brasil, ou ele tá verde demais?
Acho que ele é um nome viável. Mas eu bato na tecla da autoconfiança em excesso. Esse é um problema. É achar que as coisas são mais fáceis do que elas são, achar que as coisas dependem mais da sua capacidade do que elas realmente dependem. Um político pode ter todas as capacidades, as habilidades, e até condições favoráveis, mas isso não é suficiente. É tudo muito mais complexo do que você ser capaz de fazer direito. E eu acho que isso ele não entendeu.
Ele acredita demais na parceria entre o público e o privado, que a soma de esforços e recursos é suficiente. Então ele tem essa crença inabalável na eficiência possível de todas as coisas. Por um lado isso é um tesão, porque é um cara que olha pras coisas com as quais as pessoas já se conformaram e não se conforma. Quando ele vê uma pilha de processo pra assinar amarrada com um barbante, ele grita: “Parem com isso!“. Ele mandou parar de imprimir o Diário Oficial, mandou pôr na internet. Essa impaciência é legal.

Não teve um evento da Prefeitura em que você se atrasou?
Ah teve, mas isso foi bobagem, não fez a menor diferença.

Pra ele não faz? Porque ele é meio meticuloso.
Ele é obsessivo, e com horários é muito rigoroso. Se tá marcada uma reunião às 7h30, 7h30 começa a reunião. Não é 7h30, “pessoal, vamos sentar”. Dá 7h30, é “pessoal, bom dia“. É impressionante. Agora você entra muito fácil nesse ritmo também, é legal ser pontual e organizado, sabe? E quando tá todo mundo no fluxo, na mesma vibração. É um tesão, começar reunião às 7h30 na Prefeitura. Eu sou uma pessoa matutina, eu gosto.

Como rolou esse seu atraso? O despertador não tocou?
Nem sei. Talvez ele tenha tocado, e eu tenha acionado o modo soneca. Atrasei no primeiro dia por puro estresse e preocupação. Passei a noite praticamente em claro, sonhava que perdia a hora, acordava e não conseguia dormir de novo. Acordei a noite inteira palpitando, em pânico, desespero. Até que uma hora eu acordei e o pesadelo tinha se transformado em realidade.

Era o evento de estreia dele?
Era o primeiro dia de governo. Todos os secretários às 6h da manhã na Praça 14 Bis. Para começar o mutirão Cidade Linda. Era pra dar um exemplo de como que a gente iria trabalhar. Todo mundo na rua, e na rua às 6h da manhã.

E você chegou que horas?
Eu acordei às seis. Eu quis morrer. Pesadelo! Ele disse: “6h, uniformizados”. Eu entrei no uniforme e fui correndo, desesperada, porque às 6h era a foto oficial da inauguração do governo. Já tínhamos um grupo de secretários no WhatsApp, e gravei uma mensagem dizendo que tinha perdido a hora, mas que tava indo. Quando eu cheguei já tinha sido a foto oficial. Sem mim, claro.

Pesadelo!
Pesadelo, o primeiro dia! Eu queria ter chegado antes, estava super preocupada com os moradores de rua, tava morrendo de medo do estresse que poderia acontecer ali. Mas nos preparamos super bem, pra deixar bem claro pra eles que a Operação Cidade Linda não era com eles, muito menos contra eles. Era uma operação de zeladoria, não podia ficar morando na calçada, no meio da rua, no canteiro, na praça, mas eles poderiam ir pra outro lugar.

Quando sua demissão foi decidida?
Quando o Doria me chamou prum café num domingo, na casa dele, eu sabia que ali a minha batata já tinha assado. Porque a gente foi se desentendendo nas reuniões, dele ter impaciência comigo, e eu retrucar. Os secretários não tinham momentos a sós com o Prefeito. Era sempre em público, sempre nas reuniões. E até nas reuniões foi dando na vista que a coisa estava ruim.

Como foi o tom dessa conversa?
Ah, ele foi super formal, super cortês: “Eu conheci você na campanha, gostei muito de você e você sabe disso. Eu continuo gostando muito, você tem uma sensibilidade, tem uma espontaneidade, tem um amor, tem uma humanidade que eu admiro muito. Mas você não queria ser secretária, eu insisti pra você ser secretária, você queria ir pro Legislativo, e a tua vocação tá lá no Legislativo”.

Ele deu espaço pra você falar? Como é que foi?
Eu só engolindo, mas daí ele falou: “Agora quero te ouvir“. Falei das dificuldades que eu tinha. Falando com ele da gestão, escorria lágrima. No dia que ele me mandou embora, eu chorei pra caralho. Chorei de raiva, de frustação. Falei pra ele que estava muito frustrada. E fui embora chorando. Eu tava fodida naquela Secretaria, mas eu não queria sair, eu não pedi pra sair.

Que achou dessa ação na Cracolândia? Se você estivesse na Prefeitura talvez fosse pior, não?
Eu fico pensando no que eu teria conseguido fazer antes e logo depois da ação da Polícia Militar. O primeiro erro grave da prefeitura foi ter ido lá e comemorar uma ação que sequer era sua.
A polícia se organizou com muita antecedência e baixou lá com peso. Ela estudou, planejou, escutou, investigou e montou uma puta operação sufocante. Botou os usuários para correr – eles tiveram que abandonar suas coisas –, e prendeu os traficantes. A ação policial poderia ter sido de outro jeito? Não sei. Pra prender aqueles caras ali, realmente não sei.
Acho que o melhor jeito de agir é fora do lugar, cortar o abastecimento. Mas não tendo sido assim, a polícia conseguiu chegar lá e fazer várias prisões, apreender várias coisas. E depois derrubar tudo que tinha pela frente. Até onde se sabe não deu um tiro e não teve um sangramento.
Tanto pra quem que acha que a ação foi boa, quanto pra quem acha que foi ruim, o mérito não é da prefeitura [risos]. Mas aí o prefeito apareceu comemorando: “Tá vendo? Eu não disse que eu ia acabar com a Cracolândia?”. Puta engano. Se eu estivesse lá teria corrido enlouquecidamente pra montar espaços no entorno da Cracolândia, tenda, ônibus, trailer, container, para que as pessoas tivessem um lugar para ir, pra se refugiar, tipo campos de refugiados numa ação de emergência. Alguma coisa você tem que fazer! E o que que a prefeitura fez? Que eu saiba, não fez nada.

Qual é a sua avaliação dessa ação da prefeitura?
Só depois da ação policial ter terminado, e de ter comemorado o fim da Cracolândia, é que a Prefeitura começou a tomar as providências com os usuários. E muito destrambelhadamente, aquela coisa de no dia seguinte ir lá e querer derrubar imóvel pra mostrar a reconquista do espaço, aquilo foi muito desastrado. Eu jamais teria concordado com aquilo. Eu ia ter espanado ali.

Qual seria seu plano?
Nosso plano era estar presente no território, mas não derrubando as casas todas [risos]. Nosso plano era uma presença da prefeitura ali, com assistência social 24h. Porque hoje tudo ali é meia-boca. Se a pessoa viesse só querendo tomar um banho, que tomasse. Se quisesse descansar um pouco num lugar limpo e seguro, de dia ou de noite, que assim fosse. E se não quisesse, tudo bem, porque ela não pode ser obrigada a ficar ali dentro. Na medida em que você oferece possibilidade de cuidado e de auto-cuidado, a pessoa começa a achar não tão normal assim ficar deitado no chão com os ratos em volta. É uma estratégia válida, validada. Mas a prefeitura tinha um pouco mais essa coisa rápida, imediata, do “vai lá e derruba”.

Que acha da internação compulsória?
Não tem o menor cabimento. O problema não é a possibilidade da internação compulsória, ela existe, é prevista em lei, mas isso tem um rito. É como se o prefeito dissesse, “acho que tem que internar todo mundo que tem diabete, a pessoa querendo ou não, porque ela não tem condições de decidir sozinha“. É tão estúpido quanto. Não é assim que se decide qualquer internação. São necessárias avaliações individuais.

A gestão Haddad foi mal?
Foi muito mal. Muito mal a ponto de o Doria ganhar no primeiro turno.

Mesmo em termos de assistência social?
Sim, foi muito ruim. Teve avanços, mas muito pontuais, muito pequenos perto da necessidade. Teve alguns novos serviços da assistência social muito bacanas, como Família em Foco, Autonomia em Foco, que foge do modelão “alojamento pra 500 pessoas”. Isso é bom, mas aí tinha 80 vagas de família pra cidade toda. Então é quase um projeto piloto, não é a política pública estabelecida.

O De Braços Abertos, da gestão anterior, ia bem?
O Braços Abertos, do ponto de vista do conceito de redução de danos, é muito bom. Se o cara trabalha, refaz contato com a família e cuida da sua saúde, não é da minha conta se ele fuma ou deixa de fumar. Agora o que não pode é esse conceito reprovar a ideia de internação e abstinência, rejeitar completamente esta possibilidade. Então tem o pessoal da internação, remédio e abstinência que abomina a ideia da redução de danos. E tem o pessoal da redução de danos que abomina a ideia de remédio e hospital. Eu acho que o ideal seria um composto entre os dois programas, porque cada pessoa é diferente da outra.

Tem pouca grana na Assistência Social?
Não, a Assistência tem muito dinheiro. É que tem muito serviço também. A população de rua não é nem um décimo do que a Assistência Social faz. A Assistência Social tem mil e duzentos serviços conveniados. Paga R$ 75 milhões por mês em serviços conveniados.

Quanto custa um morador de rua, só por curiosidade?
Num albergue, ele custa cerca de 700, 800 reais por mês.

Como era sua relação com seu secretário adjunto, Filipe Sabará?
Filipe foi indicação do Doria, no começo nos demos bem, mas fomos nos desentendendo muito rápido, porque ele acreditava numa fórmula infalível – é essa a ideia que o Doria assimilou –, que se você faz um lugar maravilhoso, as pessoas são muito bem acolhidas, aí você oferece a oportunidade real de trabalho, de reinserção social. Você transforma próprio albergue em um centro de formação e de produção. Então o cara não vai fazer simplesmente uma oficina de panificação. Ele vai trabalhar em panificação, começando por lá mesmo. A padaria do albergue vai oferecer os produtos que são consumidos lá, e vai ter uma qualidade tão boa, que na verdade será fornecedora de outros da vizinhança. Isso baseado no modelo de San Patriano, na Itália. Quem fazia isso em San Patriano era o Jamie Oliver [astrochef inglês]. Há precedentes.
Ele acreditou que era isso, que com dinheiro, doações e patrocínio, você reforma o lugar e faz dele a maravilha, e as pessoas vão pra lá, e lá elas se formam, e elas saem da rua.

Doria e Sabará chegaram a fazer um desses centros de acolhimento? Esse é o X da questão.
Não, não fizeram. Não ficou pronto…

Tem algum fundamento esse pensamento?
Tem algum fundamento mas que não dá conta do todo. Quando conheci o Filipe lhe perguntei, “mas como é que funciona esse negócio em San Patriniano, quanto tempo as pessoas ficam lá, até que elas saiam e se tornem maitre de um restaurante do Jamie Oliver?“ (risos). “Ah, elas ficam lá quatro anos“, ele me respondeu. Quatro anos? Não faz sentido.

A referência era Jamie Oliver.
É, o Jamie Oliver é um dos parceiros desse grande projeto chamado San Patriniano. Filipe falava, “as pessoas lá dentro são tratadas como se fossem hóspedes de um hotel, e eles mesmo se revezam nesse papel“. E no primeiro ano não tem contato nenhum com a família. No segundo ano, tem quinze minutos….
Minha desavença com o Filipe e com o prefeito passou por isso, eles me cobravam grandes projetos em um curtíssimo prazo.

Ele quer realizações grandes, quer mostrar.
Isso. Então pro prefeito, faltou esse lado meu de ser empreendedora, ser capaz de usar os recursos disponíveis pra trazer grandes projetos, botar em funcionamento. Isso me fez mal, ser demitida porque supostamente sou uma pessoa de muito bom coração, mas que do ponto de vista da gestão, deixa a desejar.

Quantos moradores de rua tem em São Paulo?
O Censo de 2015 diz que são 16 mil.

Então, vai criar centros assim pra 16 mil pessoas?
O número é bastante contestado, porque quem trabalha com morador de rua, os movimentos sociais, as ONGs, as igrejas, contestam muito, diz que é mais do que isso. E se são 16 mil pessoas, não é achar 16 mil lugares. As pessoas são complicadas! Muito complicadas. Mas aí expliquei pra ele, teve uma das reuniões que a gente se desentendeu muito rispidamente na frente de todo mundo, e olha que é difícil o Doria ser ríspido, mas ali ele foi, porque o Filipe falou “nós vamos fazer isso, isso, vai ter lugar pra 300 pessoas, e vai ser assim, assado, lindo“.
E o Doria respondeu, “ah, ótimo, precisamos conseguir as doações dos colchões, e das camas, e que mais, Sonia?“. Eu falei, “não Prefeito, colchão é o de menos. Colchão, beliche, a gente tem no almoxarifado da Secretaria. O problema é a gestão“. Ele ficou puto da vida, e mandou procurar a empresa que estava prestando consultoria de gestão.

Consultoria de gestão?
Sim, existe uma empresa que foi chamada para dar consultoria de gestão. E a empresa foi.
Só que a consultoria não faz ideia de como funciona a Secretaria, a gente que teve que dizer pra ela como funciona.
Doria ficou muito irritado, e falou “com certeza tem gente na Secretaria que não trabalha, precisamos fazer essas pessoas trabalharem“. Se perdeu completamente o prumo.

E as permutas, o que você acha? Não tem um problema ético aí?
Pra mim, o maior problema da permuta é você acreditar que isso suplanta a falta de ações da prefeitura. Esse é o problema. Como se isso fosse solucionar. Então você trazer reforços do setor privado, eu acho ótimo. Isso é uma cultura que a gente não tem muito no Brasil.

Mas tá dando certo?
Bateu no teto. Não dá mais. Tem limite, né, tem o limite de quanto o setor privado consegue contribuir…

E foi muito?
Fez bastante diferença. A operação Cidade Linda, é na base da colaboração das empresas. Agora, é equivocado achar que não tem custo nenhum, porque mesmo com a doação, a Prefeitura se mobiliza, entendeu? Tem um custo pra Prefeitura, operacional. Isso é difícil ele perceber, que não existe impacto zero, não existe custo zero pra prefeitura. Achar que essa contribuição que as empresas dão é suficiente, e compensa as nossas deficiências, é ilusão.

Ficou um bom sentimento entre você e o Doria?
Não [risos].

Tem nome o sentimento?
É o sentimento de frustração. O que eu sinto é frustração, e uma frustração acarretada pelo Prefeito. Eu não me frustrei nos meus planos por causa da falta de recursos, da falta de estrutura. O que me impediu de fazer as coisas que a gente tava construindo foi o Prefeito. A visão do prefeito, a leitura que o prefeito fez de como eu trabalhava, e de como eu deveria trabalhar. Então a frustração embaça a imagem dele pra mim, não é a mesma. Antes eu gostava muito do prefeito, eu gostava dele, passei a gostar dele de verdade, hoje o sentimento foi esfriado, sei lá, eu tinha uma admiração por ele, eu tive uma admiração por ele e hoje em dia eu tenho o pé atrás.

Você acha que tem a ver Doria e Trump?
(risos) Não, as primeiras comparações que fizeram, eu achei completamente descabidas. O Trump é um fanático, doentio, ególatra, é um cara que incita o ódio. Muito ruim, muito ruim. E é um aventureiro, né? O Doria não é esse cara. Mas aquela coisa do excesso de confiança tá pegando. Uma coisa bem personalista, assim “deixa comigo“, sabe?

Neste sentido, eles têm essa…
Essa semelhança. Acho que empreendedor é a palavra, né?

Você trabalhou com o Serra, com o Alckmin, com o Kassab, e com o Doria. O que você pensa do Serra hoje?
[Com voz embargada] Eu acho que o Serra foi um desperdício de político para o que o país podia e precisava ter. O Serra foi de um cara que eu abominava prum cara que eu passei a admirar e gostar muito. E eu não mudei, não saí desse patamar. Admiro muito, sinto muito por ele pelo fato dele não ter conseguido se eleger presidente, por ele pessoalmente mesmo, por uma coisa de empatia, de amizade pessoal.

Foi amizade entre vocês dois esse tempo todo? Porque teve boatos de um romance.
Ah é, tem toda essa história. É, foi (amizade). Forte assim, foda. Gosto muito dele..

Mas ele também não cometeu equívocos, politicamente? Em 2010 por exemplo, quando disse que era contra o aborto. E eu não voto em quem mente.
Ah sim, claro. Foi horrível. Eu acho que a campanha de 2010 foi super equivocada. A campanha quis mostrar um Serra super fofo, carinhoso, amoroso, que “foda-se“, ninguém tá preocupado se o Serra é carinhoso. As pessoas votam no Serra porque ele é bom no que ele faz. Não adianta querer fazer do Serra um cara bacana, o Serra é foda. Tem que ser a campanha falando “o Serra é foda, ele é bom pra caralho e foda-se se ele é antipático“. Ninguém tem nada a ver com isso.

Não dá pra comparar um Serra com um Doria, né?
Não dá, não dá. A não ser pela impaciência (risos).

E o Alckmin? É bom pra caralho também, ou não?
Não. O que falta no Alckmin é a tal da impaciência (risos). O Alckmin precisava ter mais faísca, sabe, precisava se conformar menos com as coisas, precisava ter mais gana.

O Lula, você acha que foi bom pro Brasil?
Não, foi muito ruim. Muito ruim porque ele praticamente não fez nada do que ele prometia, muito pelo contrário.

Socialmente o país não melhorou?
Não. Tanto não melhorou que não sustentou a aparente melhora. E foi uma melhora por meio, principalmente, do acesso aos bens de consumo. O país continuou com uma educação fraquíssima, com uma cobertura de saneamento básico pavorosa, com estradas horrendas, com a violência urbana gigantesca, com uma desigualdade medonha.

Teve alguma coisa de bom no Lula?
Deve ter, né [risos].

Você acha que Doria vai fazer uma boa prefeitura, no final das contas?
Ele tem secretários de muita qualidade, tem gente muito boa trabalhando na Prefeitura, então isso em si, já é uma garantia. E essa dose que ele tem de inconformismo, de uma impaciência boa, saudável, de querer que as coisas funcionem com os melhores recursos que houver – tecnologia, inovação –, isso é muito legal, vai fazer muito bem para a gestão. Mas isso dele não escutar respeitosamente as pessoas torna o governar muito difícil.
Eu lembro das discussões que a gente tinha por causa de grafite e pichação. Vários secretários disseram: “Mas prefeito? É o caso mesmo de declarar guerra aos pichadores?“. E é tão difícil distinguir o grafite da pichação, essa é uma discussão tão antiga. Ele tinha certeza que se você oferecer pro pichador a oportunidade de ser grafiteiro, ele vai deixar de ser pichador [risos]. Ele acredita em fórmulas infalíveis, e quando estamos lidando com gente não é bem assim.
Por outro lado, uma das coisas que me surpreenderam nele, quando eu comecei a gostar do Doria, era que ele se deixa convencer de várias coisas. Isso pra mim é um puta valor. Ele muda de ideia, é permeável.

As vitórias e tropeços na guerra contra a Cracolândia na entrevista do dia com Maria Lydia Flândoli.

Ter tornado público o seu namoro com um ex-morador de rua, Paulo Sérgio Rodrigues Martins, fez de Soninha Francine uma sensação na Parada Gay, realizada neste domingo, em São Paulo. “Precisa ver quanta gente me cumprimentou na Parada! Uma coisa de identificação, muito legal”, conta a vereadora, que conheceu Paulo Sérgio há quatro anos na rua, em uma ação social com dois amigos budistas. Depois de viver 20 anos sem endereço, ele estava “imundo”, com “barba desgrenhada” e era alcoólatra, mas ela se apaixonou no ato e investiu na relação. Hoje, Paulo Sérgio mora com ela.

“Eu cada vez mais fujo das repercussões, mas elas acabam aparecendo na minha frente no Facebook, no Whatsapp, nos comentários sobre os comentários. Eu já estava esperando que fosse bem pior! Me surpreendeu ter sido cumprimentada por tanta gente – por algo que, em si, nem devia ser motivo de cumprimento, eu ‘apenas’ me apaixonei por uma pessoa com história muito complicada, de vida na rua e alcoolismo”, diz Soninha. “Muitos acharam bonito o relacionamento; outros acharam bom eu ter contado. As reações ruins eu já tinha tido muitas ao longo dos anos.”

As reações ruins a que Soninha se refere vieram da própria família, que, segundo ela, recebeu a notícia do namoro “com medo e preocupação”. “Já estavam razoavelmente habituados ao meu jeito meio heterodoxo de ser, desde sempre enfiada em malocas e favelas e envolvida bem de perto com pessoas ‘difíceis’ ou em sérias dificuldades. Mas ter me envolvido a esse ponto – me apaixonar por uma delas – fez com que pensassem, seriamente, que eu estava louca a ponto de precisar tratar”, diz.

A maior resistência foi da mãe e das filhas. “Era como se a minha família não estivesse me reconhecendo. E eu, tipo, ‘Ei, sou eu!!! Vocês esqueceram?’.”

A João Doria Jr., de quem foi secretária de Assistência e Desenvolvimento Social por cerca de cem dias, até ser demitida em um vídeo constrangedor comandado pelo tucano, ela não chegou a apresentar Paulo Sérgio. “O Paulo esteve comigo em muitos eventos de campanha, inclusive nos dois ou três de que participei junto com o prefeito. Não sei se percebeu que era meu marido, mas alguém deve ter contado depois. De todo modo, ele nunca olhou torto – coisa que acontece muito”, diz.

Em abril deste ano, o prefeito de São Paulo, João Doria, anunciou a saída de Soninha Francine da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social de sua gestão. Em seu lugar assumiu o adjunto Filipe Sabará.

Na época do afastamento, Doria argumentou que Soninha não tinha o “perfil” necessário para a sua gestão. No mesmo dia, em seu perfil do Facebook, a vereadora explicou que não tinha “correspondido ao ritmo do prefeito”.
“Fico chacoalhando os alicerces para ter certeza de que sustentarão a estrutura; para que caia o que não está firme e consigamos reforçá-los na medida exata. Até porque tem coisas que exigem um pouco menos de pressa…”

Hoje, pouco mais de um mês após entregar o cargo, Soninha acompanha de perto os efeitos da operação policial na Cracolândia que ocorreu no último domingo (21).

“A pior coisa que as pessoas podem pensar sobre a Cracolândia é que é um organismo simples. Aí, então é só dar moradia, é só oferecer um trabalho ou é só internar. Nenhuma fórmula que se sustente em um ‘é só’ vai funcionar. É só internar, desintoxicar que resolve. Não. É complexo”, explica em entrevista ao HuffPost Brasil.

Ainda no comando da pasta, Francine trabalhava em parceria com a Secretaria de Saúde e de Direitos Humanos no desenvolvimento das fases do projeto Redenção, que, de acordo com ela, deveria se chamar “Singularidades”.

“Esse projeto tinha como palavras-chave a singularidade, o vínculo, a linha de cuidado, housing first e o projeto terapêutico personalizado. A Patrícia [Bezerra, ex-secretária de Direitos Humanos] já estava tendo problemas na construção desse plano. Como eu, ela também sempre teve muita pressa, porque a gente sabe que é um problema urgente. Mas a gente nunca quis fazer nada de um jeito açodado. Acho que esse era um ponto de divergência [na gestão]. De perspectiva mesmo. Porque esse pensamento de que vai ser resolvido tudo com a maior rapidez está atrelada à ideia de que é simples resolver a Cracolândia”, complementa.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, a vereadora eleita pelo PPS na capital paulista falou sobre sua experiência na pasta e sobre os próximos passos no tratamento de usuários e dependentes do crack.

Leia os principais trechos:

HuffPost Brasil: Quando você estava na pasta de Assistência Social chegou a ter algum contato com o planejamento de ações de combate ao crack?

Soninha: A gente estava desenvolvendo uma linha de ação em conjunto e bem harmonizada com a Saúde e com a pasta de Direitos Humanos. Essa linha de ação previa uma participação muito maior da assistência social do que acontece hoje em dia. Hoje em dia a assistência social tem uma participação muito importante, mas é limitada. Um dos primeiros passos da assistência social era deixar as equipes 24h no território. Ainda, ter um espaço de encontro, de acolhida e de coordenação lá. Esse espaço seria a antiga tenda. A tenda na Helvétia há muito tempo deixou de ser uma tenda. Ela nunca foi propriamente um serviço do Braços Abertos. Hoje em dia ela não tem nenhuma gestão. A sede da equipe de assistência é na rua Guaianases. Então, a gente faria ali na Helvétia realmente uma base, uma sede das equipes de abordagem e um espaço que funcionaria 24h de autocuidados, ou seja, um local para tomar banho, para lavar a própria roupa, para descansar de dia ou de noite, e para fazer um atendimento socioassistencial a partir do qual você conseguiria junto aos profissionais de saúde traçar um planejamento para cada pessoa.

Então esse era o projeto Redenção, da prefeitura? Que outros elementos ele previa?

Isso a gente estava até chamando de pré-Redenção, porque era uma ação imediata, para começar o quanto antes. Outro ponto que estava bem pacificado na gestão era o de que ninguém saia de onde estava se não tivesse outro lugar para ir. Aqueles hotéis que vieram do programa Braços Abertos no entorno da Cracolândia são muito ruins. A qualidade deles é péssima do ponto de vista da segurança, da salubridade, da dignidade. Agora, a gente não pode tirar as pessoas daqueles hotéis horríveis enquanto não tiver um lugar que elas possam ir. Essa era outra ação em andamento para a qual a gente tinha máxima urgência, mas que evidentemente é mais complexa. Você ter lugares à disposição para cada uma daquelas pessoas, daqueles grupos familiares, respeitando os arranjos feitos que já estavam funcionando bem.

E o que significa esse respeito aos arranjos?

São pessoas que já estavam convivendo bem e crescendo juntas, vamos dizer. Pessoas que davam força umas às outras, que já estavam harmonizadas. A gente tinha o propósito de encontrar imóveis que pudessem servir como repúblicas mistas. A gente teria que fazer uns ajustes porque de acordo com a norma nacional as repúblicas não podem ser mistas. A gente tava negociando tudo isso, até para mexer na norma para que as repúblicas recebessem pessoas do mesmo sexo e mantivessem os diversos arranjos familiares. Então, você poderia acolher um casal com filho pequeno em um quarto, três ou quatro pessoas amigas em outro. Enfim, era um projeto bem elaborado no sentido de contemplar a imensa diversidade de perfis que encontramos na Cracolândia. As pessoas têm muito em comum, mas cada uma delas tem a sua singularidade e precisamos respeitar essas singularidades. Por isso que eu falei que tinha uma fase pré-Redenção, que era a presença constante no território enquanto se providenciava as outras estruturas de acolhimento.

Você acha que é viável esse projeto acontecer após a ação da prefeitura com a polícia?

Nós não voltamos para a estaca zero, mas recuamos três, quatro, cinco ou mais passos atrás em relação até onde a gente já havia caminhado. A gente estava realmente evoluindo para essa presença de serviço 24h. Agora muda completamente o cenário. Você tem as pessoas desarticuladas, desagregadas, dispersas. Então para aquelas pessoas que você já teria uma linha de cuidado, um processo terapêutico melhor direcionado, você rompe isso. E é muito difícil você recuperar assim do nada. Mas tem que conseguir fazer aquilo que foi planejado. Não adianta falar ‘putz, agora já foi, agora é só internando todo mundo’. O jeito que tem continua sendo iniciar o quanto antes um processo que é longo.

E quais são os próximos passos para atender essas pessoas, apesar da desarticulação?

Não tem o que achar. Não tem questionamento. Essas medidas precisam ser implementadas. É o que tem que ser feito e pronto. Você tem que ter uma oferta de atendimento social bem coordenada com o atendimento de saúde. A fórmula é essa. Mas não quer dizer que seja uma fórmula simples. Pelo contrário. A pior coisa que as pessoas podem pensar sobre a Cracolândia é que é um organismo simples. Ai, então é só dar moradia, é só oferecer um trabalho ou é só internar. Nenhuma fórmula que se sustente em um ‘é só’ vai funcionar. É só internar, desintoxicar que resolve.
Não. É complexo. Não tem como ser diferente daquilo que a gente estava construindo com o espaço de atendimento, a criação de vínculos e o planejamento real de um projeto. Enquanto isso, na cidade, é preciso estruturar outros pontos de atendimento ao usuário de crack. O próprio Braços Abertos começou a fazer isso. Antes, todos os hotéis ficavam no fluxo. Aos poucos, foram sendo criados hotéis fora do fluxo: na Freguesia do Ó, no Ipiranga e no Parque Dom Pedro. Esse era o movimento de você oferecer espaços de acolhida em outros lugares da cidade com a possibilidade de um tratamento de saúde em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPs).

O prefeito e o Estado acreditam que a dispersão será uma grande ajuda no combate ao tráfico e na abordagem dos dependentes…

Com a dispersão, a abordagem vai ser mais difícil. Mas não é que essa abordagem era fácil. Na Cracolândia tudo é tensão. É um lugar de conflito, de violência. De uns tempos pra cá, até as equipes de atendimento social e saúde, que normalmente eram preservadas pelo crime, havia aquele respeito, né, a gente não era visto como inimigos, mas aí até essas equipes vinham sendo ameaçadas nos últimos tempos. Eu presenciei. O tráfico obrigou os trabalhadores a deixarem o prédio do Recomeço [programa do governo do estado]. No primeiro momento era a proteção. Eles diziam: sai todo mundo porque o bicho está pegando. Depois, enquanto tudo ainda estava tenso, o tráfico buscou o pessoal da saúde e os obrigou a voltar para o prédio. O trabalho na Cracolândia não é fácil. Tem tensão e tem violência. Mas, ali, as pessoas já se conheciam. E esse contato faz toda a diferença. Vínculo é uma palavra-chave em assistência social. Rompido o vínculo, fica difícil a abordagem. Não é só uma questão de espaço físico. Não é a questão de que agora as pessoas estão em locais diferentes. Mesmo que as pessoas não tenham ido para muito longe, restabelecer essa conexão em cima de um projeto fica mais complicado.

A secretária de Direitos Humanos Patrícia Bezerra entregou o cargo à prefeitura. Você acha que isso vai ter algum impacto nas próximas etapas da ação na Cracolândia?

A secretária sempre esteve muito alinhada com a Assistência Social e a Saúde. A gente estava construindo juntos esse projeto que tinha como palavras-chave a singularidade, o vínculo, a linha de cuidado, housing first e o projeto terapêutico personalizado. Então existia uma harmonia muito grande entre essa ideia do que seria o bom atendimento. Eu sei que a Secretaria de Direitos Humanos já estava tendo problemas na construção desse plano.
Como eu, a Patrícia também sempre teve muita pressa, porque a gente sabe que é um problema urgente. Mas a gente nunca quis fazer nada de um jeito açodado. Ela estava muito preocupada com a escalada de violência na Cracolândia, mas sempre foi muito cuidadosa em conciliar o sentido da urgência com a prudência. Era preciso fazer alguma coisa, mas não qualquer coisa. A gente lidava com isso. Por isso que eu sempre insisti muito na fase pré-Redenção. Antes de você fazer qualquer coisa era preciso montar uma base de apoio e coordenada 24h na Cracolândia.

No seu ideal, o serviço 24h funcionaria melhor. Mas como é atualmente?

O que se tem no serviço social hoje é o serviço de albergue, que é muito ruim. É preciso um serviço que vá acolher a qualquer hora, com entrada e saída, de portas abertas. A gente estava bem encaminhado para aplicar esse serviço na Helvétia e na região da 9 de Julho, que também é um ponto bem central e que chega 21h da noite, se tiver alguém na tenda, é expulso. Eu e a Patrícia em vários momentos dividimos a nossa aflição com algumas coisas que demoravam a acontecer e com outras coisas que eram feitas de forma precipitada.

Você sentia a pressão de ter que tomar decisões que contivessem o problema de imediato?

A gente já acreditava que a prefeitura de um modo geral tinha chegado a um consenso de que não seria rápido. Que era pra começar o quanto antes um processo que seria longo. A gente lidava com a expectativa de algumas pessoas que pensavam “ah, mas quando começar eu quero tudo resolvido rápido”. Acho que esse era um ponto de divergência. De perspectiva mesmo. Porque esse pensamento de que vai ser resolvido tudo com a maior rapidez está atrelada à ideia de que é simples resolver a Cracolândia. Que é só colocar as equipes na rua e as pessoas vão sair dessa situação. Como se fosse uma trajetória infalível. Você faz a abordagem, oferece o tratamento e as pessoas vão se reestruturar. Mas o que a gente sempre soube na Saúde, na Assistência Social e no Direitos Humanos é que é muito mais complexo. E vou te falar que até mesmo o secretário de Segurança sabe o quão complexo é. Mas a tarefa dele é outra, né? É lidar com o domínio territorial do tráfico. A gente até brincava nas reuniões com a Defensoria e o Ministério Público que se a gente fosse batizar o projeto ele teria outro nome, e provavelmente seria Singularidade, não Redenção, né?

Existe alguma outra estratégia de outros países que poderia ser aplicada aqui em São Paulo no combate ao uso do crack?

Uma das experiências de outros lugares que ainda não aconteceu no Brasil, e que é super ousado, vai enfrentar grandes resistências, mas que eu defendo plenamente, são as salas de uso seguro. Já existe para o uso de crack e heroína em alguns países. É uma mudança radical. Hoje, mesmo que você ofereça um ótimo atendimento de saúde a essa pessoa, ela vai usar a droga na rua. Eu não posso permitir que alguém use crack dentro de um centro de acolhida. Tem que ter pactos de convivência e essa é uma das primeiras regras com qualquer um que seja atendido. Mas se a pessoa está tendo acompanhamento de saúde e social, está indo ao trabalho, mas continua dependendo da droga, ela vai usar na rua, debaixo de um viaduto, numa calçada, em qualquer beco. Para completar o tratamento dessa pessoa, oferecer essa atenção com dignidade, ela precisa ter um espaço que não seja a sarjeta. As salas de uso seguro completam o atendimento a essa pessoa fechando a ideia de que ela está em tratamento. E se ela está em tratamento, o que a gente prefere para ela? E se fosse seu filho? Seu filho é dependente de crack. Você ia preferir que ele ficasse por aí ou em um lugar limpo, supervisionado, com apoio se ele precisar de ajuda? O resultado disso é exatamente o que as pessoas que são contra as salas de uso querem: a redução da dependência. As pessoas começam a diminuir e param de usar. Você não condiciona isso: ó, para usar a sala você tem que prometer que vai diminuir. Pelo contrário. As pessoas por si só quebram um ciclo de autodestruição e degradação. Elas começam a se reconstruir. A sala de uso seguro precisa ser discutida com coragem. Como um dia já foi corajoso distribuir camisinha, usar anticoncepcional, fornecer remédio de combate ao HIV. Só que isso tudo foi ousado há 30 anos. Faz tempo que a gente não é ousado né? Usuário de crack, seja aqui ou na Suíça, continua sendo usuário de crack. E se lá eles precisam dessa estrutura pro cara não se acabar na rua, o que dirá aqui no Brasil, né?

Nesta segunda-feira, menos de uma semana após completar 100 dias no cargo, o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB) anunciou a primeira mudança em seu secretariado: Soninha Francine (PPS) deixou o comando da pasta de Assistência e Desenvolvimento Social. Em sua conta no Facebook, o prefeito publicou um vídeo com a ex-auxiliar, em que falava sobre a saída e tecia alguns elogios, apesar de dizer que queria uma “força maior” na gestão da área.

Na legenda, escreveu que a decisão foi tomada em conjunto com a vereadora, que foi duas vezes candidata à Prefeitura de São Paulo. Ela discorda. “É uma pena que ele tenha dito isso, porque eu não quero que as pessoas pensem que eu quis sair. Eu não correspondi às expectativas do prefeito, porque as expectativas dele não se cumpririam em três meses. Não eram realizáveis em três meses”, explicou a VEJA a agora ex-secretária.

Nas redes sociais, o vídeo foi considerado “constrangedor”. Soninha disse que foi procurada por várias pessoas, que disseram que ela fez “uma cara ruim” na gravação com o prefeito. Segundo ela, isso foi, apenas, a reação natural de uma pessoa demitida. “Não é que eu fiz uma cara, é que eu não desfiz a cara que eu estava. Eu tinha sido demitida, estava mal. E eu não sou mentirosa.”

Em entrevista a VEJA, Soninha, que reassumirá nos próximos dias o mandato de vereadora em São Paulo, falou sobre os cerca de três meses como secretária, da sua experiência ao lado de Doria e da visão que tem dos desafios da assistência social na capital paulista, agora sob o comando de Filipe Sabará, que era o secretário-adjunto da pasta. Da experiência, ela só guarda uma mágoa: não ter conseguido terminar o que começou. “Gestão é um forte meu, sim, mas porra, eu precisava de tempo.”

Como foi sua experiência na secretaria?

Eu amei. É uma pena ter começado tantas coisas que eu não vou poder concluir e nem ter começado algumas que são o esqueleto, aquilo que não é tão visível, mas que, se você não consertar, nada se mantém em pé. É um tesão chegar a um local assim, com um conhecimento prévio como eu tinha. Ter sido vereadora, ter sido subprefeita, já ter lidado com o Executivo municipal, seus labirintos e defeitos e o conhecimento de chão, de ser e ter sido ativista.

Eu encontrei aqui pessoas que têm gosto em contribuir, desde que tenham a oportunidade, de que haja a oportunidade. Você vai conhecendo as pessoas, você vai se acostumando, enfim, estávamos animados, engatando a segunda.

Se vocês estavam nessa ascendente, por que a mudança?

O prefeito já vinha ao longo das últimas semanas me cobrando resultados que eu não era capaz de entregar e acredito que ninguém seria. Há muitas coisas que não dependem da pressa da gente. Não tem como correr mais, trabalhar mais horas do que eu trabalhei. Não tem como ser mais aguerrida do que eu fui. As coisas em assistência social não se resolvem rapidamente. Eu não obtive os resultados que o prefeito queria.

Que tipo de resultado?

Coisas mais visíveis, digamos assim.

Resultados que fossem mais “apresentáveis”?

Sim, nós trazíamos resultado de atividades-meio, avaliações de processos. Coisas de anos e anos de burocracia, de serviço público, que nós estávamos pesquisando e resolvendo. Vinha um despacho para eu assinar e aí era uma coisa simples, “fica registrado que o serviço mudou de nome”. Como eu sei que as coisas vão se cristalizando e ficam erradas, eu dizia “deixa aí, que eu vou ler o processo inteiro” e mandava corrigir tudo dali por diante. Toma um tempo você ler e analisar um processo de 200 páginas, para dar um encaminhamento. Descobri que os processos de aluguéis são superdefeituosos, por exemplo. Como o serviço é avaliado como “bom” se tinha isso, isso e isso de errado. Quando você pega e folheia o processo inteirinho, ajuda, as pessoas se sentem recompensadas, as pessoas ficam com tesão de trabalhar. Mas isso não é visível, não é palpável. Eu chegava na reunião de secretariado e não tinha uma apresentação, o que mostrar.

Não tem como correr mais, trabalhar mais horas do que eu trabalhei. Não tem como ser mais aguerrida do que eu fui. As coisas em assistência social não se resolvem rapidamente. Eu não obtive os resultados que o prefeito queria.

Você já estava esperando isso?

Sim, porque a expectativa não correspondeu ao que esperavam nesses três meses. O prefeito me ligava, me cobrava. E assim, quando te ligam várias vezes e você não dá a resposta que a pessoa espera, começa a ficar um clima estranho. Então, eu esperava, sim.

Você acha que isso é algo típico da iniciativa privada?

Não sei, pode ser. Não é nem por ser iniciativa pública ou privada, é porque nessa área, em Assistência Social, os resultados não são visíveis, palpáveis. Mas, bom, se você for pensar, ser demitida com três meses não é algo normal do serviço público.

Como foi a formação da equipe? Você teve liberdade?

Algumas, sim. Outras foram indicadas, eu entrevistei e adorei. Algumas pessoas que eu vou carregar para onde eu puder. Há também algumas pessoas que foram indicadas pelo (Filipe) Sabará, que era o secretário-adjunto, que ele acabou tendo uma equipe para trabalhar só com ele.

Uma equipe para quê?

Ele ficou incumbido de cuidar de alguns projetos específicos, o Espaço Vida [programa de revitalização de albergues] e o Trabalho Novo [projeto que visa a fechar parcerias para dar emprego a moradores de rua]. Estava difícil cuidar de tudo, de projetos e da reestruturação de tudo. Então, como estávamos batendo cabeça, o Filipe cuidaria especificamente desses projetos. E eu não cuidaria de nada deles, mas ficaria responsável por todo o resto.

Você era a secretária e não se envolveu com esses projetos. Eles são bons?

O Espaço Vida é o aperfeiçoamento de propostas que, na verdade, já existiam. Ele não é novo totalmente. Quando foi criado, na gestão da Marta [Suplicy], o Espaço Boraceia já tinha essa lógica de que não era só alojamento, que foi se perdendo com o tempo e tal, mas que já existia. Não é uma ideia nova, mas tem algumas características acentuadas, como, por exemplo, a qualidade do espaço físico. Isso é legal.

O vídeo que o prefeito divulgou está repercutindo porque muitas pessoas estão vendo ele como constrangedor. O que você achou? Precisava desse vídeo?

Eu não estava feliz. Eu falei “a gente vai gravar um vídeo? Eu vou aparecer com essa cara?”. Eu até brinquei com ele: “E se eu chorar?”. Me falaram que tudo bem, que seria do meu coração. Várias pessoas me disseram que eu fiz ‘uma cara’, não é que eu fiz uma cara, é que eu não desfiz a cara que eu estava. Eu tinha sido demitida, estava mal. E eu não sou mentirosa.

Várias pessoas me disseram que eu fiz ‘uma cara’, não é que eu fiz uma cara, é que eu não desfiz a cara que eu estava. Eu tinha sido demitida, estava mal. E eu não sou mentirosa.

Mas foi uma coisa difícil? Vocês tiveram algum desentendimento?

Não, me avisaram e falaram que queriam que fosse da melhor forma possível, elegante. E, claro, eu também preferia que fosse assim. Foi aquilo de não ter sido tenso, mas uma pessoa demitida fica sempre aquela coisa, né? As pessoas estão me dizendo “não acredito que você saiu”. Eu não quis sair, mas é cargo de livre provimento, prerrogativa do prefeito.

Soninha, na publicação que o prefeito João Doria fez no Facebook, ele fala de decisão que vocês tomaram juntos, passando a impressão de que você também concordou com a saída. Não foi isso?

É uma pena que ele tenha dito isso, porque eu não quero que as pessoas pensem que eu quis sair. Eu não correspondi às expectativas do prefeito, porque as expectativas dele não se cumpririam em três meses. Não eram realizáveis em três meses.

O prefeito falou em “força maior” na gestão. Alguns comentários nas redes sociais associam isso a uma certa visão machista do prefeito, já que ele está te substituindo por um homem. Você teve essa visão também?

O que me incomodou nessa frase dele não foi ele ter falado em ‘força maior’, nessa ideia da força masculina em comparação com a força da mulher, não acho que tenha sido isso. O que me incomoda é a palavra ‘gestão’, é ele falar que ‘a Soninha é muito legal, é muito isso, é muito aquilo’, mas que gestão não é um ponto forte meu. Gestão é um forte meu sim, mas porra, eu precisava de tempo.

Sobre a Cracolândia e outros projetos que estavam sob o seu guarda-chuva: agora que o adjunto Sabará vai assumir a secretaria, você tem receio que os projetos que estavam com ele virem a prioridade?

Como a Cracolândia é prioridade para o prefeito, não vai deixar de ser, mas vai ter mudanças, por divergências que nós tínhamos, vai ser outro tratamento.

Que divergências?

O Sabará acredita totalmente no efeito do ‘trabalho’ como fator estruturante. Ele acredita, de verdade, que, se você oferecer trabalho supervisionado, preparar o mercado de trabalho, que é disso que a pessoa precisa. Muitas pessoas não têm condição de trabalhar. Pela idade, pela saúde mental, pelas condições físicas.

Muitas vezes foi a perda do emprego que levou a pessoa para a rua, mas não é só. Em decorrência disso, ela é afetada por muitas outras coisas e isso interfere, isso tem que ser pensado também.

Muitas vezes foi a perda do emprego que levou a pessoa para a rua, mas não é só. Em decorrência disso, ela é afetada por muitas outras coisas e isso interfere, isso tem que ser pensado também.

Para você, é uma visão que não resolve, de fato, o problema?

Ele fala em “porta de saída”. Em assistência social, essa é uma expressão cara, que representa que a vida da pessoa está resolvida, que ela pode voltar para a sociedade normalmente. E, para ele, ter esse trabalho é “porta de saída”.

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