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01/09/2005 - Não caiu do céu 

 Nos últimos dias, a indignação com o presidente da Câmara dos Deputados foi ressuscitada, depois de um período em que a indignação andou mais apontada para outras direções. Declarações recentes de Severino Cavalcanti sobre o que espera da CPI geraram reações de contrariedade; eis alguns comentários publicados na imprensa nos últimos dias:
 
 “Indignado com a pizza gigantesca que o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, defende com a maior cara-de-pau? Muito bem. Mas é injusto circunscrever a indignação a Severino. Ele é apenas a cara e o espírito da Câmara dos Deputados, tanto que 300 de seus pares o elegeram presidente”. (Clóvis Rossi).
 
 “Um defeito Severino Cavalcanti não tem: esconder suas opiniões. (...) Formou-se em Brasília um movimento para evitar a degradação ainda maior da imagem do Congresso Mas de 50 congressistas querem derrubar a visão severinista de mundo. Para o presidente, tudo bem se um deputado pegou dinheiro sujo e para contas de campanha. Basta repreendê-lo”. (Fernando Rodrigues)
 
 O senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) fez críticas na tribuna. “O Severino quer fazer uma operação abafa. É uma vergonha”. [Juro, juro, que vou morder a língua e não dizer “olha quem fala”]. ACM ainda censurou a participação de Severino, como representante do Brasil, na Assembléia Geral da ONU, no início de setembro. “É uma temeridade, ele não tem condições para isso”.” (Saiu na Folha de São Paulo).

 Pois bem: Severino não caiu do céu, não herdou o cargo, não foi indicado pelo rei. Ele foi eleito -- por precisamente 300 deputados, como lembrou Clóvis Rossi. E por que votaram nele? Como foi bastante divulgado à época, os deputados do chamado “baixo clero” se ressentiam da falta de atenção do governo e decidiram “se vingar”. Muitos também adoraram a promessa do Severino de aumentar os próprios vencimentos... A outros, importava mais do que tudo impor uma derrota ao governo Lula. Dentro de uma lógica estúpida mas muito comum na política, vale tudo para constranger ou complicar a vida do adversário. É o equivalente do “gol de mão, impedido, aos 48 do segundo tempo”, que para alguns é “mais gostoso”.
 
 Para esses eleitores, Severino não era a melhor opção. Provavelmente, consideravam-no a pior possível, e por isso mesmo votaram nele, para que a derrota do candidato do governo fosse mais ridicularizante. E quem são esses eleitores? Como também foi divulgado à época (e não houve desmentidos), os inimigos número 1 dos petistas: tucanos, naturalmente (provavelmente com a companhia de seus fiéis aliados, os pefelistas). Consta, inclusive, que Fernando Henrique Cardoso himself teria ligado para seus correligionários recomendando o voto em Severino.
 
 Portanto, aqueles que agora se horrorizam com falas de Severino MAS VOTARAM NELE deveriam ter pensado melhor antes. Porque, como é notório, ele “fala o que pensa”. Ninguém pode se dizer surpreendido.
 
 Quer ele se manifeste contra ou a favor do governo, contra ou a favor do PT, minha opinião não se altera: Severino Cavalcanti jamais poderia ser presidente da Câmara dos Deputados. E tenho certeza que os que votaram nele nos devem satisfações – no mínimo, precisamos saber quem são eles (o voto foi secreto). Por isso, nós, do Gabinete, vamos fazer contato com todos os deputados para fazer uma pergunta simples: “Em quem o senhor/senhora votou para presidente?”.
 
 Como são centenas de deputados, isso vai dar um trabalhão. Quem quiser nos ajudar, pode entrar em contato por telefone ou por e-mail e assumir a responsabilidade de procurar um certo número de parlamentares. Em nosso site, faremos o “placar” das respostas. Será que chegaremos a conhecer os 300 eleitores de Severino? A resposta deveria ser “é claro que sim”, afinal eles nos devem satisfações. Mas eu, infelizmente, duvido. Mesmo assim vamos tentar.