03/10/2005 - Veja mostra suas armas
Soninha (textos em itálico) comenta os argumentos dados pela Veja contra o desarmamento.
>>> Destaco o que considero as maiores desonestidades
publicadas pela última edição da revista Veja, a começar do título e
subtítulo:
Veja: Referendo da fumaça - 7 razões para votar "não" na consulta
que pretende desarmar a população e fortalecer o contrabando de armas e
o arsenal dos bandidos
>>> Ahn? O referendo pretende "fortalecer o contrabando de armas e o arsenal dos bandidos?". É o que diz a Veja...
Veja: Nas páginas seguintes, VEJA alinha sete razões pelas quais
julga correto votar NÃO no referendo sobre o comércio de armas de fogo
convocado para o próximo dia 23. O voto no referendo é
obrigatório, como nas eleições. O Estado brasileiro vai fazer a
seguinte pergunta aos cidadãos: "O comércio de armas de fogo e munição
deve ser proibido no Brasil?". VEJA acredita que a atitude que melhor
serve aos interesses dos seus leitores e do país é incentivar a
rejeição da proposta de proibição. O sucesso de uma consulta popular
deriva, antes de mais nada, da correção e da honestidade da questão a
ser respondida pelos cidadãos. A pergunta que será feita no referendo
das armas é um disparate. Ela ilude o eleitor. É uma trapaça, pois,
mesmo que o SIM vença por larga margem, "o comércio de armas de fogo e
munição" no Brasil vai continuar sendo exercido com todo o ímpeto pelo
contrabando em nossas porosas fronteiras e pelos eficientes agentes do
mercado negro - alimentado em grande parte pelas próprias autoridades policiais encarregadas de desbaratá-lo.
>>> A pergunta é se ele deve ser proibido...
"Ilude"? É uma "trapaça", só porque o comércio ilegal não será impedido
pela mera proibição? Ora, é como dizer que proibir o Caixa 2 é uma
ilusão, porque ele acontece de qualquer jeito...
Veja: A Suíça, país que praticamente é governado por referendos - já
fez 531 desde 1848 -, tem como premissa básica de uma consulta popular
que seu resultado seja impositivo. O que isso significa? Significa que
não se pode correr o risco de a escolha produzida por meio de um
referendo não ter efeito prático imediato, pois nesse caso se está
desmoralizando o próprio povo, e não alguns poucos parlamentares
eleitos para fazer leis em seu lugar. O povo não pode ser exposto ao
ridículo. Por essa razão, os suíços aprenderam a não submeter a
consultas populares questões cuja efetivação dependa da concordância de
outros países, grupos de interesse capazes de tornar o voto popular
inócuo. Para funcionar, o referendo da proibição do comércio de armas
no Brasil precisa da concordância de outros países (que vendem armas
ilegalmente aos bandidos brasileiros) e de grupos particulares de
interesse (os criminosos e seus asseclas na polícia). Certo como os
impostos e a morte, os vendedores ilegais de armas continuarão
alimentando o arsenal dos bandidos com equipamentos de destruição cada
dia mais poderosos.
>>> A efetivação de se probir o comércio
legal, regular, de armas de fogo compete, sim, às autoridades
brasileiras. O efeito prático imediato é interromper a fabricação e a
venda de armas de fogo, pronto.
São os "outros países" que "vendem armas ilegalmente aos bandidos brasileiros", ou criminosos desses outros países? Então o referendo
precisa da concordância de criminosos de outros países??? E da
concordância dos criminosos e seus asseclas na polícia??
"Certo como os impostos e a morte"... Puxa, que espírito cívico da Veja, sempre tão ciosa do respeito às instituições... Ela compara os impostos à morte e ao arsenal dos bandidos. Super esclarecedor...
Veja: (...) nos Estados Unidos, há quase uma arma por habitante, mas
o índice de crimes violentos caiu pela metade nos últimos dez anos.
>>> Em nome do bom jornalismo, a Veja poderia citar a fonte desse índice
Veja: Os suíços veteraníssimos dos referendos aprenderam também a
não pedir ao povo para votar em questões complexas, que exijam
competência técnica e estudos detalhados para saber o que é certo ou
errado. Essa lição ajuda a iluminar outro erro estrutural do referendo
das armas a ser proposto no Brasil. A pergunta "O comércio de armas de
fogo e munição deve ser proibido no Brasil?" esconde uma enorme
complexidade. Pedir às pessoas que respondam sim ou não a essa
pergunta, além de ser inócuo, como se viu, reduz um problema social
grave ao que parece ser apenas uma disputa entre pessoas de índole
pacífica (os antiarmas) e pessoas belicosas (os pró-armas).
>>> É a Veja quem está dizendo isso. Em vez de
ajudar a esclarecer o que ela chama de uma "questão complexa", divide
as pessoas em "pacíficos" e "belicosos", e põe a culpa por essa divisão
na pergunta do referendo!
Veja: Nem as pessoas que possam se entusiasmar com o voto SIM na
proposta de consulta popular são todas elas exemplos de civilidade e
ordem nem os optantes pelo NÃO são brasileiros ávidos por correr às
lojas em busca da última Magnum .357 ou de outra arma de fogo. O que
torna o referendo das armas um erro em sua essência é justamente fazer
pouco da boa-fé dos brasileiros que sofrem com o banditismo. O
referendo é um despiste, uma tentativa de mudar de assunto, de desviar
a atenção das pessoas do mal que realmente as atormenta: o banditismo.
Pior ainda. Como uma possível vitória do SIM não terá efeito positivo
algum - ao contrário, vai ajudar a aumentar ainda mais o poder de fogo
dos bandidos -, as pessoas vão se sentir culpadas pelos crimes que
continuarão acontecendo.
>>> O que é isso, psicanálise??
Veja: No campo pessoal, essa angústia foi exemplarmente aliviada
pela escritora americana Susan Sontag, morta no ano passado. Sontag
denunciou a noção cruel então dominante de que o câncer seria uma
doença auto-inflingida a que pessoas emocionalmente amargas e
ensimesmadas estariam mais propensas.
>>> JURO que não entendi a comparação.
Veja: A maneira como a pergunta do referendo foi formulada é, em si,
desonesta. "Se me pedissem para formular a questão do referendo de modo
que o resultado fosse favorável ao desarmamento, eu teria feito
exatamente a frase que será apresentada aos eleitores", diz José Paulo
Hernandes, diretor de pesquisa da Gallup Organization. Como
profissional de uma empresa de pesquisas de mercado, Hernandes tem de
se preocupar em fazer perguntas que não provoquem respostas distorcidas
do público pesquisado. Uma das regras é que a questão não pode ter
palavras com conteúdo emocional forte. Ao juntar "armas" e "proibição",
os autores do referendo cometem esse deslize. Como o brasileiro está
acostumado a relacionar armas com a criminalidade que assola o país,
sua tendência natural é dizer sim à proibição, sem questionar se a
medida serve para reduzir a violência.
>>> "Sua tendência natural é dizer sim à proibição"?? Que precisão jornalística!
Veja: Ninguém de boa-fé pode ser favorável à venda indiscriminada de
armas de fogo. A idéia de um planeta sem armas é uma deliciosa utopia.
Ninguém pode também se opor a ela desde que John Lennon pediu que se
desse "uma chance à paz". O desastre é que o referendo do dia 23 não
será um passo na direção dessa utopia. Se vencer o SIM, ele apenas vai
desequilibrar ainda mais o balanço de forças entre as pessoas comuns e
os bandidos - a favor dos bandidos. "As mazelas da insegurança nacional
não decorrem do excesso de armas nas mãos da população, mas de uma
polícia, um sistema judicial e prisional ineficientes", diz José
Vicente da Silva Filho, ex-secretário nacional de Segurança Pública.
Para lutar contra o crime, o Brasil dispõe de meio milhão de homens nas
polícias Militar, Civil e Federal. Não é pouca gente. Nas principais
cidades brasileiras, a proporção entre policiais e população é
semelhante à de Nova York. Os policiais brasileiros estão entre os mais
improdutivos do mundo. No tempo gasto por eles para esclarecer um caso,
seus colegas americanos desvendam nove e os ingleses resolvem catorze.
As várias forças policiais não trabalham em conjunto, não existe um bom
sistema de troca de informações criminais entre os estados e é difícil
e raro expulsar policiais corruptos das corporações. A Justiça condena
poucos criminosos por dois motivos. Primeiro porque está sobrecarregada
de processos por causa da escassez de juízes. Segundo porque em geral o
trabalho de investigação da polícia é malfeito.
>>> Ah, se as polícias, que são remuneradas
(mal remuneradas, claro) e treinadas (idem) para isso não dão conta de
combater o banditismo, o melhor é que cada um tenha sua arma pra se
defender?? Puxa, que sugestão responsável...
Veja: O poder público brasileiro tem uma larga tradição em abster-se
de enfrentar os problemas de forma realista e racional para buscar
soluções no mundo do faz-de-conta. São planos que prometem "matar o
tigre com uma bala só", como dizia o presidente Fernando Collor de
Mello a respeito da inflação. A solução "bala mágica" foi usada várias
vezes contra a inflação e nunca deu certo. Só funcionou quando o Plano
Real optou pela racionalidade e aceitou a existência de um mundo real
do lado de fora dos gabinetes de Brasília. O referendo carece dessa
racionalidade. Cria um problema falso (o excesso de armas no Brasil) e
uma solução enganosa (acabar com as armas legalizadas) de forma a
evitar a questão real (a criminalidade e a ineficiência da política).
Em outras palavras, em lugar de enfrentar o problema, finge-se que ele
não existe. Pior é que somos reincidentes. Em 1998, para combater o
desmatamento na Amazônia, que repercutia negativamente no mundo, em vez
de fiscalizar e reprimir as madeireiras ilegais, o governo instituiu o
registro das motosseras, que foram equiparadas às armas de fogo. O
governo colocou o país para dormir tranqüilo com a medida.
Resultado: nos cinco anos seguintes, desmatou-se na região o
equivalente a três Bélgicas. No lugar das motosserras, proibidas, os
desmatadores passaram a usar tratores em sua faina destrutiva.
>>> Baseado em que dado concreto a Veja afirma
que "o excesso de armas no Brasil" é um "problema falso", "criado" pelo
referendo?? Ela gosta tanto de justificar suas posições baseada em
dados... Quais são, onde estão?
Veja: O próprio nome da campanha - pelo desarmamento - é enganoso. O
título tem apelo popular, mas não traduz com fidelidade o que está
sendo proposto. Não se trata de uma consulta sobre o desarmamento, mas
a respeito da proibição ou não do comércio de armas. Restrições mais
severas quanto a compra, posse e porte de armas já foram adotadas pelo
Estatuto do Desarmamento, em vigor desde 2003 - e não estão em jogo.
"Gasta-se um instrumento fundamental da democracia, o referendo, para
discutir um tema superado pelo próprio estatuto", diz Hugo Leal,
secretário de Justiça e Direitos do Cidadão do Rio de Janeiro.
>>> "Gasta-se"??? Ora, eu quero saber a
opinião da população em relação ao armamento/ desarmamento, ainda que
minha posição seja derrotada no referendo. Não é um "desperdício"; é um
instrumento importante para se conhecer a tendência das pessoas.
Veja: Há 2,5 milhões de armas legalmente registradas em mãos de
cidadãos comuns. Em termos porcentuais, significa que 1,4% dos
brasileiros tem uma arma, que pode ser uma espingarda de caça, comprada
num estabelecimento comercial devidamente legalizado, e a registrou nos
órgãos oficiais. É contra essas pessoas que está sendo brandido o
referendo. Na falta de qualquer outra estratégia real, que enfrente o
crime e a corrupção policial com persistência, surgiu a solução da
democracia direta que fará muito barulho por nada. É mais uma
oportunidade perdida.
>>> Na falta de "qualquer outra" estratégia
real?? Olha, podem-se criticar, e muito, as estratégias adotadas. Mas
elas existem...Parece até que vivemos no velho oeste, sem leis, sem
instituições. E Veja escreve isso tudo sem se lembrar de uma coisa
básica: o número ENORME de homicídios cometidos por cidadãos que NÃO
ERAM bandidos, mas acabaram cometendo um crime em momento de
insanidade... Isso é um dado concreto, absurdamente ignorado pela
revista. E eles têm a coragem de se indignar com a "desonestidade" da
pergunta...
Veja: No dia 23 de outubro, os brasileiros serão chamados às urnas
para responder "sim" ou "não" à seguinte questão: "O comércio de armas
de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?" Metade do sucesso de
uma consulta popular vem da correção e seriedade com que a questão é
formulada. A pergunta do referendo do dia 23 de outubro é um disparate.
Ela reduz um problema social complexo a uma simplória questão comercial.
A pergunta do referendo de 23 outubro poderia ser formulada de modo mais honesto e realista da seguinte maneira:
"O Estado brasileiro pode tirar das pessoas o direito de comprar uma arma de fogo?"
>>> Ah, essa seria muito, muito mais honesta. Mas adorei a sugestão da Veja se a transportarmos para outro assunto: "O Estado
brasileiro pode tirar das pessoas o direito de comprar uma substância
psicoativa?". Que tal, vamos nos engajar na descriminalização de
algumas drogas (já que as que causam mais danos já são lícitas)?
Veja: Os bandidos, como se sabe, são fora-da-lei. Já é ilegal matar,
e eles matam. É ilegal roubar, e eles roubam. Se o comércio de armas se
tornar ilegal, os bandidos vão continuar fortalecendo seu arsenal no
mercado negro como sempre fizeram
>>> Realmente, Veja podia se engajar na
campanha pela descriminalização da maconha, mais ou menos com os mesmos
argumentos. E lembrando que maconha, ao contrário de armas de fogo,
muito raramente mata.
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