Mandato da Vereadora Soninha Francine

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Quem sabe o drama que é

25 de maio de 2018

Ontem tive uma discussão quase ríspida com um jornalista sobre o tema metrô, sub-tema corrupção. Teria descambado se tivéssemos um pingo de intimidade (que é uma merda ehehe). Uma dose de distanciamento em relações profissionais é altamente recomendável.

Pena que não pudemos debater com tempo. Lançamos algumas frases desconectadas – os trens isso, os trilhos aquilo, o promotor assim, o juiz assado. Ele tem certeza absoluta de que a implantação da linha lilás do metrô foi objeto de prática criminosa ampla, geral e irrestrita. Eu tenho certeza absoluta de que parte essencial das acusações feitas no processo não tem base.

Não quer dizer que eu tenho certeza absoluta que não houve nenhum crime, mas isso tem de ser investigado para que os autores sejam devidamente apontados. Errado é tirar conclusões sem investigar. Exemplo: “A obra saiu R$ 350 milhões mais cara que o previsto. A população foi prejudicada. Alguém meteu a mão na grana”.

Acreditem, é perfeitamente possível que uma obra saia muito mais cara do que o previsto sem que tenha sido cometido um crime. Disclaimer outra vez: não estou dizendo que não foi, estou dizendo que pode acontecer, isto é, pode não ter sido!

Pra pintar a fachada da casa da minha mãe, ela gastou R$1.000 a mais que o previsto – o orçamento inicial era R$3.000, então foram 30% a mais! Precisou comprar mais tinta, mais massa acrílica, mais lixas e a mão-de-obra também saiu mais cara. Não foi roubada pelo pedreiro… À medida que foi mexendo nas paredes, descobriu o quanto o revestimento estava esfarelando e precisava de reforços. Mas também já foi (eu também) tapeada por pedreiro ruim que fez serviço porco.

O jeito de saber é pesquisar. Investigar. Quanto custa um trem? Quanto tempo leva para fazer um trem? Quanto tempo leva para fazer uma linha de trem? Qual é o atraso razoável? Por que atrasou, atrasou por que?

Esta semana, na Comissão de Finanças, chamou a atenção a previsão de R$100 milhões para 1km de corredor de ônibus. Por que tão caro? Porque haverá 1km de desapropriações, para começo de conversa. Não é só o custo de projeto, asfalto, sinalização.

Como mobilidade é um dos temas pelos quais sou fanática, entendo bastante do assunto “transporte público”. Mas entendo mais ainda de administração pública. Tem coisas que só quem senta aqui e pega na caneta aqui sabe o drama que é; a quantidade de coisas óbvias e lógicas que não podemos fazer (uma básica: mandar embora um péssimo funcionário). Imagine as complexas, tipo: desapropriar um terreno para fazer um parque, ou um prédio escritórios com 10 andares e 50 anos de idade para fazer moradias.

Uma das acusações de improbidade relacionadas ao metrô em São Paulo foi o fato de a companhia ter encomendado trens mesmo com as obras atrasadas, e até suspensas por um período. Considerou-se dano ao erário ter os trens prontos e estacionados em um pátio, enquanto terminavam a construção do trecho.

Seria muito, MUITO errado suspender a encomenda dos trens. Era certo que eles seriam necessários. Não se interrompe uma compra tão grande sem um dano enorme. O comprador tem de ter responsabilidade: imagine o impacto de interromper a produção; retardar o processo. Sequer se poderia garantir que a fabricação seria retomada pelo preço original. Que o fabricante não precisaria, talvez, demitir funcionários, ou colocar em férias coletivas. Que ele poderia também suspender a compra de aço, por exemplo.

É imensamente provável que houvesse uma briga judicial horrenda, com o fabricante dizendo “você não pode unilateralmente mudar o prazo de entrega. Ou então vai ter de pagar no prazo certo, não tenho culpa dos seus problemas”. E havendo a possibilidade de receber os trens e guarda-los até as linhas ficarem prontas, não há problema nenhum! Talvez fosse pior ter as linhas prontas aguardando os trens. É mais fácil preservar um grande parque com as máquinas estacionadas do que uma dezena de estações, os km de trilhos, estações de energia, plataformas etc.

O Promotor que ofereceu a denúncia disse que só dá para testar os trens já nos trilhos, e que a demora para começar a rodar faria com que a garantia do fabricante “vencesse”. O governo respondeu que a garantia não venceu e que os trens, já circulando, não tinham apresentado problemas.

Qual dos dois falou a verdade? Ouvi os dois na televisão, no mesmo jornal. Fica, como de costume, o espectador com a responsabilidade de escolher qual resposta lhe parece mais confiável. O promotor disse mais ou menos “acho difícil continuar na garantia”; o governo disse “continua”. Me parece que o promotor não pesquisou, apenas cogitou. E tenho certeza que se for mentira do governo, é fácil de descobrir. De um jeito ou de outro, nove presidentes do metrô foram indiciados e apareceram com foto no Jornal Nacional como RÉUS (o que para muitos é igual a CULPADOS). O MP pediu que eles devolvam o dinheiro gasto nos trens (??????!!!!!???!!!!) e indenizem o governo por danos morais (?????!!!?!!).

Danos morais sofrem os acusados que são inocentes e, Deus permita, serão inocentados. Mas o MP não indeniza ninguém.

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Last modified: 25 de maio de 2018

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