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Camping é uma alternativa rápida, de baixo custo e com MUITAS vantagens – Blog da Soninha

17 de agosto de 2020

“Não é de camping que o povo da rua precisa, é de moradia! Esse negócio de “camping social” é higienismo” – disse, agora há pouco, em um debate relembrando o massacre de moradores de rua em 19 de agosto de 2004, umas das pessoas mais respeitadas no tema, o Padre Julio Lancellotti.

Pois discordo dele veementemente nesse ponto – não só eu, mas muitos e muitos “sofredores de rua”, como ele frequentemente os descreve.

Camping é uma alternativa rápida, de baixo custo e com MUITAS vantagens em relação aos modelos convencionais de abrigamento emergencial. Em vez de um galpão com 200 camas-beliche e disciplina de colégio interno – hora para entrar, sair, apagar a luz, tomar banho, acender a luz, nenhuma privacidade, nenhuma possibilidade de escolher com quem passar a noite – um camping oferece convívio e privacidade. E certamente mais segurança e recursos de higiene pessoal do que as barracas montadas na calçada (e barracas são um “sonho de consumo” para quem dorme em um papelão ou mesmo um colchão a céu aberto).

“Barraca o povo já tem, eles precisam é de moradia! Locação social!”, “São muitos os imóveis abandonados no centro”! Sim, abandonados e sem a menor condição de habitabilidade. Ou sem documentação em ordem, ou enroscados em questões judiciais. Um movimento social pode ocupar um imóvel abandonado e passar meses o adaptando, às custas de muito engajamento e mobilização. Voluntários vão pintar, reformar, rebocar, puxar a fiação – as condições serão precárias assim mesmo, mas é algo que foi conquistado.

A administração pública não pode “ocupar um imóvel” sem o rito legal. Desapropriar exige pagamento (não é expropriação, é uma espécie de “venda obrigatória”), e uma disputa judicial pode se estender por anos (e acontece MUITO). E não pode alugar um imóvel caindo as pedaços e dizer “aí está, podem dar um jeito nisso”. O que precisa ser ofertado pelo poder público tem de ter padrão muito melhor do que as pessoas conseguiriam “se virando” sozinhas.

Políticas de locação social são EXTREMAMENTE NECESSÁRIAS, mas oferta de moradia leva TEMPO, e a situação de rua é de emergência. É a permanente calamidade pública. Como se todo dia passasse um furacão, um incendio, uma explosão. Não dá pra esperar ter “teto” pra todo mundo. Também não acho que os grandes galpões sejam a melhor solução. Camping não é e nem deve ser a única alternativa, mas COM CERTEZA é uma delas. Precisamos ter um repertório de formas variadas de acolhimento.

Um jornal vendido por pessoas em situação de rua em São Francisco, California, o Street Sheet, fez uma matéria alguns anos atrás sobre uma campanha “Casa sim, barracas não” voltada para o fim dos acampamentos “legalizados” para sem-teto. O Street Sheet observou que não tinha nada de “casa sim”; no fim, a alternativa “melhor” que defendiam era o acolhimento em albergues… Destaco um parágrafo dessa matéria:

“Eles constroem uma imagem de acampamentos como lugares perigosos, que é danosa e duradoura e que acaba apresentando os albergues como “o menor dos males”. Muitas pessoas que vivem em acampamentos relatam que se sentem mais seguras neles. O agrupamento de barracas funciona como um tipo de vizinhança, ou até mesmo como uma pequena comunidade. Em um colchonete na rua ou mesmo uma barraca na calçada, estão muito mais expostos a assaltos ou ataques do que no espaço protegido de uma barraca”.

Privacidade (dentro da barraca) e comunidade (na área de convivência); individualidade e coletividade; segurança e liberdade; solidariedade e autonomia. Tudo isso é muito mais presente em um camping do que um albergue. É o que de melhor se pode oferecer em uma situação de emergência – seja para refugiados, desalojados por guerras ou catástrofes naturais, ou refugiados urbanos.

E, ao contrário do que Padre Julio entendeu, não foi uma proposta da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social – SMADS. Foi uma reivindicação de vários movimentos, em várias frentes, que a Secretaria relutantemente está concordando em experimentar. Tenho certeza que Padre Julio, com a escuta de décadas de vida dedicadas aos “Irmãos de Rua”, vai ouvir também os que reivindicam um camping como alternativa de acolhimento em curto prazo. 🙏

(Opinião da Soninha em 16/08)

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Last modified: 17 de agosto de 2020

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