Mandato da Vereadora Soninha Francine

Om Mani Padme Hung, Bruno Covas

16 de maio de 2021

O representante do Dalai Lama no Brasil queria se encontrar com o prefeito Bruno Covas para desejar, em nome de Sua Santidade (é como os praticantes de budismo tibetano se referem a ele), felicidade em sua nova gestão. Eu era vereadora e foi a mim que procuraram para solicitar a agenda; o prefeito aceitou recebê-lo e me convidou para ir junto.
Em uma das salas de reunião da prefeitura, sentamos à volta de uma mesa enquanto falamos brevemente sobre a “Tibet House” em São Paulo; sobre os desejos auspiciosos do Dalai Lama, representados por uma echarpe tradicional (katag) que é oferecida como uma bênção; sobre um projeto de Educação para a Paz adotado em algumas escolas municipais de Belo Horizonte. Um encontro breve, de suaves e calorosos 20 minutos.
Na última hora me ocorreu comprar girassóis para oferecer aos dois, o prefeito e o visitante. Tão de última hora que nem tirei o celofane meio desengonçado que envolvia os vasos. Na hora da foto para registrar o momento, peguei as flores e quis tirar o embrulho para ficar mais bonito. O prefeito – o Bruno, chamado sempre pelo primeiro nome, o que caía muito bem na simplicidade dele – pediu ajuda para tirar o celofane do seu vaso. “Eu não sinto a ponta dos dedos”. “Sério??!”. Sem um pingo de autocomiseração, no jeito leve como tratava da doença e seus efeitos, respondeu: “Você não acredita como é difícil abotar a camisa de manhã”.
E tirou a foto, suave e caloroso.
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Vou sentir muita falta desse prefeito simpático, firme, arrojado, acessível, prático, verdadeiro. A gente de Relações Internacionais (onde trabalho agora) tem o orgulho de celebrar, em nome de São Paulo, inúmeros compromissos internacionais em que a prefeitura se compromete a alcançar metas corajosas em temas como mudanças climáticas, por exemplo, ou economia circular. A Marta Suplicy, nossa Secretária, foi convidada para a equipe justamente porque é forte, pratica, é ousada, é briguenta, busca aguerridamente o que acredita – e ela acreditou nele, porque reconheceu um cara determinado e centrado, sensato, sereno. Ai, as qualidades tão em falta…
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O discurso de posse do Bruno quando assumiu a prefeitura pela primeira vez foi impressionante. Foi muito forte, muito “redondo”, muito bom. Sem transformar o discurso do Doria em algo negativo, fez questão de dizer “eu sou político”. E mandou muito bem, ali no hall da prefeitura, sem muita pompa. Não, sem pompa nenhuma.
Pouco tempo depois, esteve em uma obra no Jaguaré (daquelas que saem do papel depois de um século de tentativas) para uma vistoria. O Subprefeito da Lapa me convidou para ir também; eu tinha lidado com os problemas daquele barranco despencando e ia ficar feliz de ver a prefeitura dando um jeito naquilo.
Estávamos lá esperando o prefeito e, quando menos se espera, pronto! Lá está ele, descendo do carro sem alarde, uma pessoa tão normal e tranquila que teve gente que demorou a perceber que tinha chegado. Tomou até um susto: “Caramba, o prefeito tá aí!”
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Lembro de uma coletiva em que ele tomou alguma medida que, para beneficiar a maioria, ia criar problemas para um determinado grupo. Juro que não lembro o que era. Um repórter cutucou: “Tais e tais pessoas não vão gostar”. O prefeito: “É, não vão. Mas precisa ser feito”.
Uau.
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O que eu só descobri por insistência de amigos dele é o quanto o Bruno era zoeiro. Eu o conhecia de longe e pessoas que me eram queridas e bem próximas dele insistiram: “O Bruno é muito engraçado! Você vai ver”. E nos convidaram para um jantar no apartamento de um deles.
E era verdade. O Bruno era muito engraçado! A gente deu muita risada, com histórias de bastidores de campanha eleitoral e outras que não tinham nada a ver com política. Uma daquelas noites inesquecíveis em volta de pizzas delivery que às vezes acontecem na casa de alguém e entram pra nossa lista de coisas boas da vida.
Depois, quando éramos Secretários – ele, de Subprefeituras; eu, de Assistência Social – trocávamos comentários cúmplices durante reuniões com o prefeito João Dória. Eu não me atreveria a tomar a iniciativa, mas ele começava com a zoeira. E eu tinha de fazer força pra não rir, mas gostava de saber que o vice-prefeito sabia que podia ficar à vontade comigo, podia confiar em mim, ter a liberdade de abandonar por segundos a seriedade necessária 99% do tempo.
***
Fico feliz em saber que o prefeito sabia muito bem o quanto eu gostava dele. Quer dizer, o Bruno. Feliz mesmo. E triste, muuuuito triste por ele ter ido tão cedo, quando estava em um lugar tão bom para fazer bem a tanta gente. Triste pela política, pela cidade, por nós. Mas pode contar com a gente, prefeito. Fica em paz que a gente vai fazer o seu trabalho com todo amor e respeito.
Om Mani Padme Hung.
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Last modified: 16 de maio de 2021

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